Dólar volta a subir e vai a R$ 5,38 com dúvidas sobre ajuste fiscal no Lula 4

O real amargou nesta quinta-feira (29) o segundo pior desempenho entre divisas mais líquidas, à frente apenas do peso mexicano

Após dois pregões seguidos de queda, em que acumulou baixa de 1,16%, o dólar apresentou alta firme nesta quinta-feira (29), e flertou com fechamento na casa de R$ 5,40. Além do ambiente externo de aversão ao risco, marcado por desvalorização de divisas latino-americanas, dúvidas sobre a disposição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em promover um ajuste fiscal pesaram sobre o real, segundo operadores.

“Vejo o mercado operando muito mais o quadro local que o externo nesta semana pós-eleição. O que todo mundo quer saber é como vai ser a política econômica e se vai ter ajuste fiscal”, afirma o gestor de portfólio da Azimut Brasil, Marcelo Bacelar. “É natural o dólar estressar quando surgem declarações de pessoas próximas ao governo contra um ajuste como vimos hoje [quinta-feira].”

Em postagem hoje no X, o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, descartou a possibilidade de corte de gastos sociais como caminho para o ajuste fiscal no Lula 4. “O ‘tesouraço’ foi derrotado nas urnas e pela mobilização popular”, escreveu Boulos.

As máximas do dólar no início da tarde, quando a divisa atingiu o pico de R$ 5,4290, foram atribuídas por operadores à percepção de que as falas de Boulos representam a visão de uma ala dentro do Palácio do Planalto muito próxima ao presidente.

A febre compradora amainou na última hora do pregão, e o dólar passou a oscilar ao redor de R$ 5,40. Parte do alívio teria vindo da informação veiculada pela rádio CBN de que Lula pretende viajar ao Piauí na semana que vem para convidar pessoalmente o governador reeleito do estado, Rafael Fonteles, para assumir o Ministério da Fazenda. Embora não seja oriundo do mercado financeiro, Fonteles é bem-visto pelos investidores.

Com o refresco no fim da sessão, o dólar à vista terminou o dia cotado a R$ 5,3878, em alta de 0,89%. O real amargou nesta quinta-feira o segundo pior desempenho entre divisas mais líquidas, à frente apenas do peso mexicano. A moeda americana acumula ganhos de 7,90% na semana.

Bacelar, da Azimut, ressalta que os preços dos ativos domésticos mudaram de patamar após o desfecho da corrida presidencial, mas que há dúvidas se os prêmios atuais são suficientes para atrair investidores, dadas as incertezas sobre o rumo da política econômica.

“Além da questão do ajuste, há expectativa pela indicação para as diretorias do Banco Central. Qualquer sinalização ruim se reflete no câmbio”, afirma Bacelar, ressaltando que o carry e os preços elevados do barril do petróleo ainda são barreiras que mitigam pressões sobre o real.

Referência do comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes, o índice DXY deu sequência ao movimento de queda iniciado na tarde de quarta e furou o piso dos 102,000 pontos, apesar de dados de inflação e atividade que sugerem a possibilidade de o Federal Reserve retomar o aperto monetário em dezembro. Com um discurso menos conservador, o BC americano anunciou na quarta a manutenção da taxa básica, argumentando que precisa de mais tempo e informações.

O Produto Interno Bruto (PIB) dos EUA cresceu a uma taxa anualizada de 3,4% no terceiro trimestre, em leitura preliminar, acima da mediana de Projeções Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado), de 3,2%. Já o índice de preços de gastos com consumo (PCE, na sigla em inglês) – medida de inflação predileta do Fed – veio em linha com as expectativas em setembro, mas ainda acima de 3% na comparação anual.

Conteúdo distribuído por Agência Estadão

Antonio Perez
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