Fluxo externo sustenta mercado apesar de juros e risco fiscal
A combinação entre incertezas fiscais, juros elevados e mudanças no cenário geopolítico global tem redesenhado o comportamento do mercado financeiro brasileiro em 2026. Segundo o cofundador e CEO da Monte Bravo Investimentos, Pier Mattei, o ano começou com expectativas mais otimistas para a trajetória dos juros, mas os ambientes doméstico e externo trouxeram novos desafios, além de oportunidades.
Mattei destaca que o patamar elevado da taxa de juros segue pressionando tanto empresas quanto consumidores. “Taxa de juros nesse patamar, muito elevado por muito tempo, tem machucado bastante tanto as empresas quanto a própria população”, afirma. O executivo ressalta que o endividamento já atinge cerca de 70% dos brasileiros, o que limita o consumo e impacta diretamente a atividade econômica.
Apesar das turbulências, Mattei chama atenção para um movimento que surpreendeu o mercado: a entrada robusta de capital estrangeiro no Brasil. Em um contexto global marcado por conflitos e incertezas, historicamente o cenário seria de fortalecimento do dólar. No entanto, o fluxo seguiu na direção oposta. “O investidor estrangeiro já trouxe para a nossa bolsa mais de R$ 65 bilhões até meados de abril, inclusive durante períodos de maior tensão internacional”, observa. Para o executivo, isso indica uma mudança na alocação global dos recursos, com investidores buscando diversificação fora dos Estados Unidos.
Esse reposicionamento tem favorecido não apenas o Brasil, mas outros mercados emergentes. Mattei explica que a valorização desses ativos está ligada tanto ao enfraquecimento do dólar quanto à percepção de oportunidades em países com recursos naturais abundantes e valuations mais atrativos. “O Brasil volta a ser visto como um País interessante, com riqueza natural e capacidade energética relevante, além de ser um País sem guerra”, diz.
No cenário doméstico, a entrada de capital externo contribui para um câmbio mais estável, o que ajuda no controle da inflação e abre espaço para a redução gradual dos juros. A expectativa da Monte Bravo, segundo o CEO, é de que os cortes sejam feitos de forma mais tímida no curto prazo, mas com continuidade no processo de flexibilização monetária.
O CEO também destaca que o ambiente político segue no radar, especialmente com a aproximação do ciclo eleitoral. Ainda assim, Mattei avalia que o investidor estrangeiro está mais atento à dinâmica internacional do que às questões locais. Para o médio prazo, a sinalização de responsabilidade fiscal será determinante na visão do gestor. “Independente do candidato que for eleito, se o País mostrar compromisso com ajuste fiscal, esse fluxo tende a se intensificar e podemos entrar em um ciclo muito positivo de investimentos”, afirma.
Do lado do investidor brasileiro, Mattei observa uma mudança significativa de comportamento nos últimos anos. O perfil evoluiu de uma forte concentração na poupança para uma maior diversificação. No entanto, o atual nível de juros, de 14,75% ao ano, ainda favorece aplicações em renda fixa. “É muito convidativo ficar em investimentos mais líquidos, com menos risco e retorno elevado”, explica.
Mesmo assim, Mattei identifica um interesse crescente por alternativas. Com a valorização da bolsa e a expectativa de queda de juros, investidores começam a reavaliar suas carteiras. Entre as oportunidades, Mattei destaca os títulos públicos atrelados à inflação, que atualmente oferecem prêmios considerados elevados. “Entendemos que é uma janela. Essas taxas não devem se manter por muito tempo”, diz.
A recomendação, segundo ele, é que o investidor considere diversificação para além do CDI, avaliando também títulos prefixados, que podem garantir retornos atrativos em um cenário de queda de juros. “Vemos oportunidades, inclusive, para o investidor de renda fixa. Mesmo aquele que prefere uma posição mais conservadora pode fazer um remanejamento para títulos atrelados à inflação ou prefixados, pois eles garantem um nível de remuneração mesmo se os juros, lá na frente, estiverem mais baixos”, finaliza.
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