Finanças

Após pico histórico, bolsa perde fôlego e investidores adotam postura mais cautelosa

Especialistas apontam que incertezas fiscais, juros elevados e o cenário eleitoral tornaram o mercado mais seletivo, favorecendo empresas com receitas mais previsíveis
Ouvir a matéria 0:00 / 0:00
Após pico histórico, bolsa perde fôlego e investidores adotam postura mais cautelosa
As ações da companhia acumularam valorização de 38,51% nos seis primeiros meses do ano | Foto: Gil Leonardi

Depois de um primeiro trimestre impulsionado pela forte entrada de capital estrangeiro e pelo otimismo em torno da queda dos juros, a bolsa brasileira encerrou junho em um contexto bem diferente. A volatilidade provocada pelo conflito no Oriente Médio, a alta do petróleo, a deterioração das perspectivas fiscais e a aproximação das eleições fizeram o mercado abandonar o movimento de valorização generalizada e direcionar os investimentos para empresas com resultados mais previsíveis e setores considerados defensivos. Esse novo cenário foi analisado por especialistas ouvidos pelo Diário do Comércio.

Apesar da correção registrada nos últimos meses, o Ibovespa encerrou o primeiro semestre de 2026 com alta acumulada de 6,7%, após atingir um recorde histórico próximo dos 199 mil pontos em abril. Em junho, no entanto, o índice perdeu força, refletindo a realização de lucros, a saída de investidores estrangeiros e um ambiente de maior cautela.

Para o especialista em Soluções de Investimentos da Monte Bravo, Rodrigo Franchini, o desempenho do semestre surpreendeu negativamente, já que o otimismo do início do ano foi sendo substituído por preocupações fiscais e monetárias.

Segundo ele, o aumento da dívida pública, as expectativas inflacionárias ainda elevadas, a manutenção dos juros em patamar elevado e as incertezas em torno do cenário eleitoral reduziram significativamente o apetite por ativos de risco. Na avaliação do especialista, enquanto não houver maior clareza sobre a condução da política fiscal e o ambiente político para 2027, a tendência é de uma bolsa mais lateralizada no segundo semestre.

Na mesma linha, o head de renda variável e sócio da Veedha Investimentos, Rodrigo Moliterno, avalia que o semestre pode ser dividido em dois momentos distintos. O primeiro foi marcado pela forte entrada de recursos estrangeiros, favorecida pela redistribuição global dos investimentos após o chamado “tarifaço” dos Estados Unidos, beneficiando mercados emergentes como o brasileiro. Já a partir de abril, o cenário mudou com o prolongamento do conflito internacional, que elevou os preços do petróleo, pressionou a inflação global e reduziu as expectativas de cortes de juros tanto no Brasil quanto nas principais economias.

Além disso, Moliterno observa que parte do capital estrangeiro voltou para empresas globais de tecnologia, reduzindo significativamente o fluxo destinado à bolsa brasileira e contribuindo para a correção observada nos últimos meses.

O assessor de investimentos da Vertua Investimentos, Márcio Miranda, concorda que junho consolidou essa mudança no comportamento dos investidores. Embora o Ibovespa tenha recuado cerca de 1% no mês, ele ressalta que a alta acumulada do semestre permaneceu positiva. Segundo Miranda, após sete semanas consecutivas de queda desde o pico registrado em abril, o mercado passou a refletir uma combinação de fatores como guerra, valorização do petróleo, aumento das expectativas de inflação, fuga de capital estrangeiro e desempenho mais fraco de empresas ligadas às commodities.

De acordo com o assessor, somente em junho cerca de R$ 8,7 bilhões deixaram a bolsa brasileira, movimento que pode se intensificar caso persistam as preocupações fiscais e o ambiente eleitoral ganhe ainda mais protagonismo no segundo semestre.

Apesar do cenário mais cauteloso, os três especialistas apontam que o momento também abriu espaço para uma seleção mais criteriosa de ativos. Em vez da valorização generalizada observada no início do ano, investidores passaram a buscar empresas capazes de atravessar períodos de juros elevados com maior previsibilidade de receitas.

Franchini afirma que setores como energia, bancos e empresas exportadoras tendem a apresentar maior resiliência diante do atual ambiente econômico, mas ressalta que o investidor deve priorizar companhias específicas, e não apenas setores inteiros.

Moliterno reforça essa avaliação ao destacar que utilities, instituições financeiras e exportadoras continuam entre os segmentos mais defensivos, principalmente após a forte correção das ações brasileiras, que passaram a ser negociadas em patamares mais atrativos. Miranda também observa que empresas de utilidade pública concentram o interesse do mercado por operarem com contratos regulados e menor risco de demanda.

Ações da Copasa valorizam 38,51% no semestre

Nesse cenário, um dos destaques da bolsa no semestre foi a Copasa. As ações da companhia acumularam valorização de 38,51% nos seis primeiros meses do ano, desempenho bastante superior ao do Ibovespa. Segundo os especialistas, o movimento já era esperado pelo mercado devido ao avanço do processo de privatização e à entrada da Equatorial na gestão da companhia.

Para Moliterno, a mudança de controle tende a destravar o valor para a empresa, repetindo o movimento observado anteriormente na Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp). Já Miranda afirma que a privatização sempre foi a principal tese de investimento da companhia e que a renovação dos contratos com municípios deve ampliar a eficiência operacional e garantir maior previsibilidade das receitas nos próximos anos.

Analistas projetam cautela para o segundo semestre

Para o segundo semestre, entretanto, o consenso entre os analistas é de cautela. A expectativa é de que os mercados continuem acompanhando de perto o comportamento da inflação, a trajetória dos juros, o cenário fiscal brasileiro e o ambiente eleitoral.

Caso esses indicadores evoluam positivamente, especialmente na percepção de risco do País, a bolsa poderá recuperar parte do fôlego perdido nos últimos meses. Até lá, a tendência é de um mercado mais seletivo, com investidores privilegiando empresas de fundamentos sólidos e menor exposição às incertezas econômicas e políticas.

Rádio Itatiaia

Ouça a rádio de Minas