Legislação

PF troca chefia de caso que envolve INSS e Lulinha; Mendonça e oposição cobram explicações

Autarquia justificou que o movimento foi burocrático
PF troca chefia de caso que envolve INSS e Lulinha; Mendonça e oposição cobram explicações
Foto: Rafa Neddermeyer / Agência Brasil

Brasília – A Polícia Federal trocou a coordenação dos inquéritos da Operação Sem Desconto, que apura um esquema de fraudes envolvendo o INSS e motivou a quebra de sigilo de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Lula (PT).

A mudança levou a oposição no Congresso Nacional a acionar a Procuradoria-Geral da República (PGR) e a protocolar um requerimento de convocação do diretor-geral da PF para dar explicações.

As investigações da Sem Desconto eram coordenadas pelo delegado que chefiava a Coordenação-Geral de Polícia Fazendária. Agora, os casos foram transferidos para a Coordenação de Inquéritos nos Tribunais Superiores (Cinq), que fica dentro da Coordenação-Geral de Repressão à Corrupção, Crimes Financeiros e Lavagem de Dinheiro. Por isso, o delegado que chefiava o caso foi trocado.

Segundo a PF, a mudança dá maior estrutura para a investigação e, fora a coordenação, os delegados que atuavam nos inquéritos foram mantidos.

Em nota, a Polícia Federal disse que “a transferência [dos inquéritos] foi concebida para assegurar maior eficiência e continuidade às investigações, uma vez que a Cinq possui estrutura permanente voltada justamente à condução de operações sensíveis e complexas com tramitação perante o Supremo Tribunal Federal”.

“Ressalta-se que não houve alteração na equipe que conduz as investigações.”

A nova chefia dos casos se reuniu na manhã de sexta-feira (15) com o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), relator dos casos.

Mendonça cobrou explicações a respeito da troca. Na reunião, o ministro afirmou que não foi informado anteriormente da substituição e ficou incomodado.

Pessoas que acompanham as investigações vinham relatando nas últimas semanas um receio de que poderia haver pressões sobre a equipe responsável pelas investigações.

Segundo relatos feitos por uma autoridade que participou da reunião, Mendonça teria cobrado independência no trabalho da nova equipe e que não haja perseguições, mas que também não ocorram atrasos nas investigações.

A PF justificou no encontro de sexta que o movimento foi burocrático, apenas de alteração da coordenação responsável pelo tema, e que os delegados que tocam os inquéritos do INSS seguirão os mesmos.

Entre auxiliares de Mendonça, há o temor de que esse departamento fique sobrecarregado, uma vez que é também responsável pelo caso do Banco Master, o que poderia retardar os trabalhos.

Em nota, o gabinete do ministro disse que a reunião teve como pauta a “atualização do andamento das investigações e apresentação da nova coordenação que cuida da Operação Sem Desconto (caso do INSS)”.

A Operação Sem Desconto começou em 2025 e já levou à prisão integrantes do alto escalão do INSS e à criação de uma CPI.

Uma das linhas trabalhadas na apuração, de acordo com investigadores, é a possibilidade de que Lulinha tenha sido sócio oculto do lobista Antonio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS.
O filho do presidente, porém, não é considerado formalmente investigado no caso pela PF, apesar da quebra e das desconfianças.

O advogado de Lulinha, Marco Aurélio de Carvalho, afirma que o filho do presidente “nem sequer foi chamado” para prestar esclarecimentos na apuração, porque não é investigado. Ele diz que se colocou à disposição do ministro André Mendonça para eventuais esclarecimentos.

Também afirma que parte do caso deveria ter sido arquivada “depois do vazamento criminoso” de parte da investigação.

Com a mudança da coordenação, o senador Carlos Viana (Podemos-MG), que presidiu a CPI do INSS, enviou um ofício ao diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues.

No documento, o parlamentar questiona a motivação da alteração, pergunta se o STF foi avisado antes e se houve preservação integral das linhas investigativas, das provas já produzidas e do restante da equipe.
Em nota, Viana afirmou que qualquer situação que gere dúvida ou suspeita sobre a condução de investigações dessa magnitude é extremamente grave. “Trocas dessa natureza, em momentos delicados da investigação, exigem explicações claras e imediatas à sociedade brasileira”, disse.

A CPI do INSS terminou no fim de março, com a vitória da base governista, que conseguiu rejeitar o texto do relator Alfredo Gaspar (União Brasil-AL) com a sugestão de indiciamento de 216 pessoas, entre elas Lulinha.

O líder da oposição na Câmara, Cabo Gilberto Silva (PL-PB), em requerimento à PGR, também pediu que o órgão apure a regularidade da mudança e garanta que as provas sobre as fraudes sejam preservadas.
“O Brasil inteiro exige respostas. Estamos falando de um dos maiores escândalos contra aposentados da história recente do país. E a sociedade brasileira não aceitará qualquer tentativa de interferência,

lindagem ou enfraquecimento das investigações”, escreveu ele, em publicação no X (ex-Twitter).
Já o líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante (RJ), disse ter protocolado um pedido de convocação para que Andrei vá à Casa prestar informações sobre o episódio. Caso seja aprovado, o requerimento torna obrigatória a presença do diretor-geral da PF.

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