Da sala de aula ao mercado: o desafio de formar profissionais para a economia verde

Projetos pedagógicos aproximam estudantes da sustentabilidade, mas há lacunas na capacitação para atender às novas exigências da transição ecológica
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Para falar da escola-sítio que fundou há 17 anos em Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), o empresário Rafael Mansur cita o ambientalista Ailton Krenak. “Nossa proposta é avançar no conceito de ‘respeito à natureza’ para a compreensão da importância da integração, de que somos a natureza”. No estabelecimento, nomeado 4 Elementos Sítio Escola, 280 crianças e adolescentes matriculados desde o infantil ao nono ano têm aulas sob árvores, cuidam de animais e de mudas de plantas. Tudo interligado ao currículo oficial.

Essa relação, segundo Mansur, faz diferença para eles, para o aprendizado, e para o planeta. “Primeiro, estudo sobre modelos conhecidos como outdoor school e forest school (metodologias que focam no aprendizado contínuo ao ar livre) mostram benefícios pedagógicos, com crianças que aprendem melhor neste contato além da sala de aula. E, segundo, a gente acredita muito que a criança e o adolescente só vão preservar, de fato, se crescerem em contato. Para a gente, é importante a integração”, afirma.

Foto: Divulgação/ 4 Elementos Sítio Escola

Esse contato, conforme ele, ocorre de diversas formas: para os alunos mais novos, um dos exemplos é o conceito de reciclagem, que é explicado na prática. “Não usamos EVA, isopor. Não usamos cola pois, se colamos algo, não conseguimos desmontá-lo para reutilizar os materiais. Então, ao fazer um trabalho manual, nós montamos, tiramos fotos e desmontamos. As tampinhas, as sementes, voltam para a sua caixa própria, para ser novamente utilizado depois”, conta.

Para os mais crescidos, um dos trabalhos envolve o estudo prático dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Em dois resultados desses trabalhos, os próprios estudantes criaram a gestão de resíduos orgânicos que a escola usa atualmente; e um outro grupo desenvolveu um protótipo de poço de tranquilização que, em resumo, lê a evolução da cheia do córrego e dispara sinais de risco. O sistema, segundo Mansur, recebeu convite da prefeitura da Capital para ser apresentado ao Executivo.

Economia verde precisa de profissionais ‘verdes’

Essas crianças e adolescentes serão os profissionais do amanhã e, por isso, precisam aprender a gerir recursos finitos com ainda mais atenção, em um planeta que mostra os reflexos negativos da queima de combustíveis fósseis, do desmatamento e da liberação de gases de efeito estufa. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), das Nações Unidas, aliás, já concluiu que a influência humana é a principal responsável pelo aumento das temperaturas médias globais nas últimas décadas, situação que afeta ecossistemas, disponibilidade de água e produtividade agrícola.

Esse quadro reforça a urgência de uma educação voltada para a economia verde, ou seja, de uma corrente econômica que busque conciliar crescimento, bem‑estar social, redução dos riscos ambientais e uso sustentável dos recursos naturais.

Doutor em Ciência Florestal e especialista em Economia Ambiental, com pesquisas em projetos de carbono, biomassa e carbono florestal, inventário e neutralização de gases de efeito estufa, o professor Daniel Brianezi, do Departamento de Ciência e Tecnologia Ambiental (DCTA) do Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (Cefet-MG), lembra que a economia verde, além de melhorar o bem-estar humano e reduzir o risco ambiental, é uma exigência prática na realidade empresarial, principalmente entre aquelas de capital aberto, que precisam reportar seus relatórios de sustentabilidade ao mercado. Também por isso, a demanda por profissionais que atuem com o ESG (Environmental, Social e Governance, ou Ambiental, Social e Governança) cresce no Brasil e em Minas.

Arquivo pessoal/ Daniel Brianezi

“Precisamos de profissionais capazes de elaborar esses relatórios, realizar monitoramentos e fazer verificações. Também há demanda por pessoas que atuem com agricultura de baixo carbono, já que o Brasil assumiu o compromisso de alcançar a neutralidade climática até 2050, o Net Zero, e Minas Gerais também aderiu a essa meta. Esses profissionais precisam saber monitorar, verificar e reportar dados, além de mapear os serviços ecossistêmicos ambientais do País. Há, ainda, uma discussão antiga no Brasil sobre o PIB verde, isto é, sobre como relacionar o desenvolvimento econômico ao capital natural que o País possui. De forma geral, portanto, já existe uma demanda crescente por esses profissionais”, observa Brianezi.

Falta capacitação na área, diz especialista

Buscam-se profissionais “verdes”, mas há lacunas na capacitação. Para o professor do Cefet-MG, já faltam investimentos e cursos na área para formar essa mão de obra que já é esperada atualmente e com tendência, no médio e longo prazos, de aumento na procura.

Segundo ele, embora existam graduações e pós-graduações com disciplinas como economia ambiental, economia ecológica, ESG e finanças sustentáveis, em universidades e centros de pesquisa, como o próprio Cefet, a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas), a Fundação João Pinheiro (FJP), e que desenvolvem trabalhos importantes sobre sustentabilidade, esses conteúdos ainda ficam restritos a poucos cursos e disciplinas, sobretudo da área ambiental, da economia e de algumas engenharias.

Projeto de estudantes em escola de Contagem. | Foto: Divulgação/ 4 Elementos Sítio Escola

“A mudança climática, no entanto, é um tema transversal e precisa ser tratada de forma inter e transdisciplinar. Isso é ainda mais urgente porque a última década foi a mais quente da história e Minas Gerais é um dos estados mais vulneráveis a desastres hidrogeológicos, como mostram os impactos recentes em cidades da Zona da Mata, como Juiz de Fora e Ubá. Por isso, é necessário desenvolver cidades e economias mais resilientes”, completa o estudioso.

Ainda conforme Brianezi, a incorporação do tema na educação básica é ainda mais incipiente, com professores que não têm capacitação suficiente para trabalhar conteúdos ligados a serviços ecossistêmicos (como a polinização feita por abelhas e outros insetos, que garante a reprodução de diversas plantas, inclusive as ingeridas pela humanidade), sustentabilidade e mudança climática. Quando são discutidos, os temas são abordados de forma superficial, apesar de aparecer em áreas como ciências da natureza, ciências humanas e sociais aplicadas.

“Além disso, faltam infraestrutura e recursos nas escolas. A educação ambiental também precisa ser vivenciada com atividades fora da sala de aula e maior contato com a natureza, para que os alunos entendam a prática da coleta seletiva, da compostagem e de outras ações concretas. Outro desafio é fazer com que esse conhecimento chegue a quem mais precisa, por meio da divulgação científica e da popularização do tema. Os impactos da mudança climática são desiguais e atingem mais fortemente as pessoas mais pobres e vulneráveis, que também precisam de informação para se preparar e cobrar ações de seus representantes”, completa.

Educação ambiental está no currículo estadual

Procurada para falar da temática, a Secretaria de Estado de Educação de Minas Gerais (SEE/MG) enviou nota em que afirma que, no âmbito da rede estadual de ensino, a educação ambiental integra o Currículo Referência de Minas Gerais (CRMG) de forma transversal obrigatória, documento que orienta o desenvolvimento de práticas pedagógicas relacionadas ao consumo consciente, às mudanças climáticas, ao desenvolvimento sustentável, à geração de renda e à inovação tecnológica, especialmente nas áreas de ciências humanas e ciências da natureza.

“A SEE/MG mantém termo de cooperação com a Escola Superior Dom Helder Câmara, no âmbito do Movimento Ecos, para o desenvolvimento de projetos socioambientais por estudantes do ensino médio da rede estadual. A rede estadual também participa do projeto Global Goals Educa – Conectando para Transformar Vidas, que contempla formação de professores para a incorporação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), estabelecidos pela ONU, às práticas pedagógicas”, defende a pasta.

Universidades federais ampliam ações em sustentabilidade e inovação, diz MEC

Reprodução/ Adobe Stock

Também em nota, o Ministério da Educação (MEC) pontuou que as universidades e institutos federais desenvolvem ações que articulam ensino, pesquisa, extensão e inovação em temas como sustentabilidade, bioeconomia, transição energética e economia circular.

“No ensino superior, as universidades federais possuem autonomia para definir seus currículos e muitas contam com Núcleos de Inovação Tecnológica (NITs) e laboratórios de pesquisa aplicada, voltados ao desenvolvimento tecnológico, à transferência de conhecimento e ao apoio à inovação. Essas iniciativas são desenvolvidas no contexto do Marco Legal de Ciência, Tecnologia e Inovação (Lei nº 13.243/2016) e de políticas públicas voltadas ao desenvolvimento industrial e à transformação ecológica”, diz.

Conforme o MEC, na educação profissional e tecnológica, são desenvolvidas iniciativas voltadas à formação em áreas relacionadas à sustentabilidade. O Programa EnergIFE, por exemplo, oferece formação em energias renováveis e eficiência energética, em áreas como energia solar, energia eólica, biogás e hidrogênio renovável. Também é desenvolvido o Projeto Profissionais do Futuro, realizado em cooperação com a agência alemã GIZ desde 2022. A iniciativa tem como foco a qualificação profissional para setores relacionados à economia verde, com prioridade para jovens, mulheres e grupos em situação de vulnerabilidade.

Sobre o autor

Anderson Rocha

Repórter multimídia do Diário do Comércio desde 2025. Graduado em Jornalismo e pós-graduado em Comunicação Digital pela PUC Minas. Vencedor dos prêmios CNJ, Mercantil, Sebrae, CDL/BH e CBN de Jornalismo.

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