Inovação e regeneração: o legado de Vânia Andrade na mineração
Detentora de trajetória de vanguarda no setor mineral, Vânia Lúcia de Lima Andrade (75 anos) recebeu o Prêmio SME Maura Menin 2026, organizado anualmente pela Sociedade Mineira de Engenharia. Química por formação e com quase quatro décadas em diversos cargos de gestão na empresa Vale, ela atuou em pesquisa, participou da fundação do Women in Mining Brasil e coordena os Seminário de Mineração da Associação Brasileira de Metalurgia, Materiais e Mineração (ABM). O evento técnico nacional da entidade acontece anualmente na primeira quinzena de setembro e Vânia Andrade é sempre voz ativa na transição da atividade de extração para a regeneração socioambiental.
A vocação científica despertou quando ainda era criança, observando o pai, professor na Faculdade de Medicina da Universidade de Minas Gerais (UFMG), dissecava animais para o almoço de domingo. Da mãe, leitora voraz, traz ainda o apreço pela leitura e estudos. Em 1974, ingressou no Centro de Pesquisas da Vale, superando barreiras masculinas até a pós-graduação em metalurgia extrativa.
Em 1998, no Pará, o Projeto Sossego e a fundação de Canaã dos Carajás mudaram sua visão: a atividade mineral só se justifica se for vetor de desenvolvimento humano e planejar o “depois do minerar”. Especializou-se em Gestão da Tecnologia no Massachusetts Institute of Technology (MIT), 1996-1997, introduzindo conceitos de inovação disruptiva na Vale. Apesar de aposentada como executiva, ainda está ativa nos debates sobre mineração e é referência para as gerações de mulheres no setor.
Como a sua carreira técnica se conecta com a urgência de a mineração reescrever sua história de confiança junto à sociedade?
Ao longo da minha vida, percebi que uma fragilidade da mineração não está mais na eficiência do beneficiamento de minério ou no ganho de produtividade — áreas em que a engenharia já entrega soluções extraordinárias. O verdadeiro desafio é o impacto social e ambiental. A licença social para operar deixou de ser um conceito abstrato para se tornar um risco real de negócio. Se a sociedade não confiar na nossa atividade, o setor não terá futuro. Precisamos mudar a mentalidade: a mineração precisa ser transparente, escutar genuinamente as comunidades e provar que o seu legado é superior ao mineral extraído.
Qual o papel da inovação e da tecnologia na reconciliação com o território?
A inovação não serve apenas para automatizar processos ou colocar caminhões autônomos na mina. Ela deve ser a ferramenta central para mitigar danos e criar a economia circular dos rejeitos. Hoje, trabalhamos fortemente com conceitos como os tecnossolos, a recuperação de solos degradados através da ciência agrícola e resíduos industriais, e a destinação de grandes volumes de rejeito para novos usos industriais. Inovar é pensar a mina já planejando seu fechamento e o retorno daquele território para o cidadão em condições de criar novas opções de desenvolvimento.
Há uma urgência por agências reguladoras mais estruturadas?
O arcabouço legal brasileiro não é ruim em sua essência, mas a aplicação esbarra na fragilidade da fiscalização. As próprias mineradoras sérias desejam uma Agência Nacional de Mineração (ANM) forte, autônoma e bem equipada. Sem uma agência reguladora de Estado, dotada de recursos e de capacidade fiscalizatória, o setor fica vulnerável a assimetrias e à perda contínua de credibilidade. Regulamentações recentes, como a Resolução nº 68 sobre o fechamento de minas, são avanços cruciais, mas dependem de monitoramento rigoroso.
A senhora construiu uma trajetória de independência incomum para as mulheres da sua geração. Como suas escolhas pessoais moldaram seu legado de liberdade?
Tive a oportunidade e a coragem de assumir a minha liberdade profissional e intelectual. Minha ida ao MIT após a separação foi um divisor de águas. Entendi que a autonomia de pensamento não é negociável. Não abro mão dessa liberdade por nada na minha vida. Essa postura refletiu-se na minha atuação corporativa: nunca me dobrei a hierarquias rígidas nem ao comodismo técnico, apesar de ter tido a benesse de trabalhar algumas vezes com homens à frente de seu tempo. Essa mesma liberdade me permitiu olhar para a mineração com olhos críticos e propor mudanças profundas, mesmo quando alguns de meus pares achavam que inovação em mineração era desnecessária.
Sua atuação é marcadamente intersetorial, da química à engenharia, do WIM à coordenação na ABM. Como essa visão colabora para o avanço das carreiras STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática)?
A ciência não pode funcionar em silos isolados. A química precisa conversar com a engenharia de minas, que por sua vez precisa dialogar com a agronomia, com a sociologia e com o direito ambiental. É essa transdisciplinaridade que enriquece a educação STEM. Quando atuamos em frentes como o Women in Mining ou na coordenação do seminário da ABM, estamos criando pontes para que a nova geração de engenheiros e pesquisadores não pense apenas no produto final, mas na cadeia de valor completa e no impacto humano da tecnologia. Falta às corporações enfrentarem o debate estrutural sobre a maternidade e a permanência da mulher no ambiente de trabalho. As empresas precisam criar mecanismos reais de suporte e flexibilidade para que a executiva ou a engenheira de campo não tenha que escolher entre a carreira e a família.
Na sua experiência, a liberdade foi um ativo na sua carreira?
Para uma mulher da minha geração, conquistar a própria liberdade não foi um evento simples, foi um processo diário de emancipação do modelo mental que nos era imposto. Quando me vi divorciada, entendi que aquele momento não era uma perda, mas a abertura de uma porta para o mundo. Ir para o MIT, morar fora e mergulhar em uma nova visão de tecnologia me deu a dimensão de que eu podia e devia ter autonomia sobre o meu pensamento e os meus passos. Aprendi a não me curvar ao comodismo técnico nem às hierarquias ultrapassadas.
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