De clube de descontos a plataforma de fidelidade: Alloyal completa 10 anos e aposta em IA
O mercado de fidelidade deixou de se concentrar em plataformas de descontos e acúmulo de pontos e passou a ampliar sua atuação em relacionamento, retenção de clientes e geração de receita. Inserida nesse movimento, a Alloyal, com sede em Belo Horizonte, completa 10 anos de operação em 2026, com R$ 2 bilhões movimentados em transações e crescimento de 125% nos últimos dois anos.
Neste ano, a empresa de tecnologia projeta crescer 100% em relação a 2025 e alcançar a marca de 15 milhões de usuários. Os números refletem a ampliação do portfólio, que reúne clubes de benefícios, cashback, programas de pontos e modelos de assinatura, além da expansão para diferentes setores. Entre eles, destacam-se os conselhos de classe, como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).
Mesmo com o avanço das novas soluções, os programas de fidelidade permanecem como a principal vertical da empresa. A área registrou crescimento de 159% no faturamento em dois anos.
À frente da Alloyal, o sócio-fundador Aluísio Cirino recebeu o Diário do Comércio para uma entrevista exclusiva sobre a trajetória da empresa, a evolução do mercado de fidelidade, os planos de expansão e o impacto da inteligência artificial (IA) no setor.

Como o mercado de fidelidade vem evoluindo e qual é a história da Alloyal nesse processo?
A empresa completou 10 anos em 2026. Nascemos em 2016, a partir de uma dor que carreguei durante anos no mercado financeiro. Trabalhei em grandes instituições e convivi de perto com os programas de fidelidade delas. Naquela época, esses programas eram tratados como moeda de troca no relacionamento com os clientes, mas eram mal trabalhados.
Cansei de perder clientes que deixavam de ser correntistas porque o banco concorrente oferecia mais pontos por dólar gasto no cartão de crédito. Com isso, encerrava-se todo um relacionamento. Foi essa percepção, de que um programa de fidelidade não poderia se resumir a isso, que nos levou a empreender no segmento.
Nascemos como um clube de descontos local, em Belo Horizonte, reunindo estabelecimentos físicos que ofereciam descontos. Começamos pelo produto mais óbvio, a primeira camada de um programa de fidelidade. O clube de descontos produz resultados, mas não entrega tudo o que o cliente espera. É o que chamamos de nice to have: agrega valor e traz conforto, mas não é essencial para a operação de um negócio.
Depois, vieram o cashback, o programa de pontos, o catálogo de recompensas e a assinatura. Hoje, temos um ecossistema bastante completo voltado para o mercado de fidelidade.
O que mudou de lá para cá foi a exigência do consumidor. Ele está cada vez mais seletivo e pragmático. Os programas precisam mostrar não apenas quantos pontos o cliente pode ganhar, mas o que ele consegue fazer com esses pontos. É uma mudança de comportamento que obriga os programas a melhorar a qualidade.
Na última vez que conversamos, há dois anos, vocês atendiam cerca de 19 segmentos. Como está esse número atualmente? Houve expansão para outros mercados?
Não avançamos muito em quantidade de segmentos. Hoje, são cerca de 21, número próximo ao registrado naquela época. Por outro lado, passamos a explorar nichos específicos que, a partir de casos de sucesso, entendemos que faziam sentido para o negócio.
Nosso foco está em empresas que já possuem uma carteira de clientes, mas investem muito em aquisição e pouco em retenção. Há diversos mercados vulneráveis nesse aspecto, que conseguem conquistar muitos clientes, mas têm dificuldade de mantê-los.
Nossa proposta é oferecer o programa de fidelidade e, principalmente, mostrar a essas empresas como ampliar o relacionamento com o cliente e aumentar seu tempo de permanência.

Atualmente, vocês trabalham com pontos, assinaturas e programas de benefícios. Como esse portfólio foi desenvolvido?
O clube de descontos é, atualmente, o único produto presente em 100% dos clientes. É o produto que representa a nossa essência e a nossa origem.
Ao longo dessa trajetória, sempre mantivemos uma escuta muito ativa, com o cliente no centro. Adotar essa cultura também significa compreender as necessidades dele na construção dos produtos. Boa parte do que temos hoje nasceu de demandas dos clientes que estavam alinhadas ao nosso propósito.
Foi assim que avançamos do clube de descontos para o cashback, depois para as assinaturas e, posteriormente, para os pontos associados ao catálogo de recompensas. Todo esse ecossistema foi construído em conjunto com os clientes. O resultado foi um crescimento de 125% no faturamento nos últimos dois anos.
A cada dia, buscamos adequar o produto para que ele seja mais escalável, como exige a indústria de tecnologia. Quanto maior a nossa capacidade de escala, maior o espaço para crescer. Quando construímos produtos que funcionam com maior autonomia para os clientes, conseguimos ampliar a base, e o nosso DNA de vendas transforma isso em crescimento.
Quais são os principais segmentos de atuação da Alloyal e onde a empresa encontra maior potencial de crescimento?
Temos mais de 1.500 clientes em nossa base. Somente neste ano, foram mais de R$ 2 bilhões em GMV (Gross Merchandise Value ou Volume Bruto de Mercadorias) gerado. Atendemos mais de 1.500 CNPJs (Cadastro Nacional das Pessoas Jurídicas) e alcançamos mais de 15 milhões de CPFs (Cadastro de Pessoas Físicas). Também já distribuímos mais de 6 bilhões de pontos e mais de R$ 45 milhões em cashback.
Esses números foram impulsionados pela força que temos entre conselhos de classe, como OABs, conselhos regionais de Engenharia e Agronomia (Creas) e conselhos regionais de Medicina (CRMs), entre outros espalhados pelo Brasil. O destaque é a OAB. Atualmente, operamos o programa em 17 estados.
É o chamado “anuidade zero”: o advogado acumula cashback ao longo do ano e utiliza o saldo para abater o valor da anuidade.
Esses números geram valor para toda a cadeia: os usuários dos programas de fidelidade, os clientes que oferecem esses programas e os parceiros, principalmente o varejo, que hoje é um dos principais fomentadores desse mercado. É um triângulo, e a nossa preocupação é gerar valor nas três pontas.
Também atuamos no mercado de provedores de internet, que enfrenta desafios de retenção. São empresas que conquistam muitos clientes, mas têm dificuldade de mantê-los. Trabalhamos ainda com seguradoras e empresas de proteção veicular, que apresentam características semelhantes.
São mercados que ainda direcionam muita atenção à aquisição e pouca à retenção. Temos ajudado esses setores a desenvolver um olhar mais atento para o cliente e, consequentemente, a ampliar o valor total que ele gera para a empresa ao longo do relacionamento, o chamado lifetime value (LTV).
Em 10 anos de atuação, quais foram os retornos mais marcantes? Que transformação efetiva vocês já provocaram nas empresas?
Nossa trajetória é construída por histórias, e são os casos de sucesso que nos fazem estar aqui todos os dias. No caso da OAB, houve redução da inadimplência em alguns estados após a implantação do programa “anuidade zero”.
Temos clientes que passaram a conhecer o próprio consumidor com muito mais profundidade por meio do programa. Também registramos casos de aumento do tempo de permanência em alguns segmentos. A média, que era de três a quatro meses, chegou a dobrar depois da implantação do programa de fidelidade.
Conseguimos mensurar esse resultado comparando dois grupos dentro da mesma empresa: os clientes que utilizam o programa e aqueles que não o utilizam. O grupo participante apresenta um tempo de permanência muito maior. Alcançar essa maturidade, demonstrar o resultado e ouvir do cliente que a solução funcionou representam o principal caso de sucesso que carregamos.
A Alloyal tem DNA mineiro. Quais características da mineiridade estão presentes na cultura e na forma de fazer negócios da empresa?
Principalmente a confiança. O mineiro, antes de qualquer coisa, precisa ser conquistado. Sempre brinco que quem conquista a confiança do mineiro consegue conquistar a de qualquer outro cidadão do Brasil, porque o mineiro está sempre com um pé atrás, com aquela fama de desconfiado.
Também somos assim. Isso faz parte da nossa cultura e nos torna mais trabalhadores e responsáveis com aquilo que construímos. Conhecemos o mineiro e sabemos que não basta uma boa conversa, é preciso entregar um produto consistente.
A união entre consistência, resiliência e responsabilidade nos permitiu construir uma boa solução. A mineiridade trouxe essa essência para a companhia.
Como a Alloyal investe em inteligência artificial e de que forma a tecnologia está sendo incorporada ao negócio?
A inteligência artificial precisa nos atender em dois aspectos. O primeiro é a qualidade e a eficiência interna do trabalho cotidiano. Precisamos desenvolver uma cultura de uso da IA para ganhar velocidade.
O segundo está relacionado às soluções. Se exigimos que a nossa equipe utilize a IA, os clientes também esperam isso de nós. A ausência dessa tecnologia já se tornou um critério de desqualificação para algumas das empresas que atendemos.
No mercado de fidelidade, a IA é fundamental para um novo momento, no qual deixamos de oferecer apenas uma solução de fidelização para proporcionar conhecimento sobre o cliente. Conhecê-lo por meio de um programa com IA significa trabalhar com hiperpersonalização e desenvolver diversas campanhas simultâneas para diferentes perfis.
Um usuário gosta de trocar pontos por milhas aéreas, outro prefere experiências e um terceiro quer converter os benefícios em cashback. Cada um tem uma preferência de resgate. O programa precisa conhecer melhor esse usuário para entregar a oferta correta. Esse é o grande diferencial.
O que vocês planejam para os próximos meses e anos? Há perspectivas de expansão para outras regiões? Como você enxerga a Alloyal daqui a 10 anos?
Atendemos praticamente todo o Brasil, com clientes em quase todos os estados. Por isso, não enxergamos a presença física como uma barreira. Manteremos nosso espaço em Belo Horizonte e talvez tenhamos uma sede em São Paulo no próximo ano ou em 2028, mas ainda não há nada definido.
Em relação aos produtos, entendemos que o portfólio atual precisa passar por uma grande transformação a partir da inteligência artificial. Temos estudado e aperfeiçoado nossas soluções para que estejam cada vez mais adequadas a essa nova realidade.
Enxergamos a Alloyal deixando de ser apenas uma empresa de software para se tornar uma empresa de soluções. Queremos desmistificar os programas de fidelidade para os clientes e facilitar a compreensão dessa engrenagem. Isso certamente os ajudará a implementar esse tipo de solução nos próprios negócios.
Também queremos reduzir cada vez mais o vencimento de benefícios, como pontos e cashback. Quando o cliente deixa de utilizar os pontos, ele não vivencia o que o programa de fidelidade oferece de melhor, que é a experiência.
Por isso, nossas soluções buscam criar mais oportunidades de resgate. Um indicador muito importante para nós é o breakage, a taxa de vencimento de pontos e cashback. Queremos levá-la a zero, com a certeza de que todos os benefícios estão sendo utilizados pelos usuários.
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