Brasil cai sete posições em ranking global de competitividade
Depois de alcançar sua melhor posição no Ranking de Competitividade do IMD World Competitiveness Center (WCC), no ano passado, na Edição 2026, o Brasil registrou uma queda de sete colocações, ocupando a 65ª posição e retornando ao patamar mais baixo dos últimos anos.
Entre os quatro fatores avaliados, o País apresentou piora em todos os indicadores, com destaque para a eficiência dos negócios, que recuou 11 posições, e para a performance econômica, que caiu seis posições. Além disso, a eficiência governamental manteve a trajetória de deterioração observada desde 2022, enquanto a infraestrutura também apresentou queda.
A metodologia do Anuário tem a parceria técnica do Núcleo de Inovação, IA e Tecnologias Digitais da Fundação Dom Cabral (FDC), sediada em Nova Lima, na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH). São 341 indicadores que refletem importantes percepções sobre competitividade, eficiência governamental, eficiência empresarial e infraestrutura, destacando as perspectivas de governo e organizações privadas.
No Ranking de Competitividade, o Brasil se destaca pela forte capacidade de geração de empregos no longo prazo (5º lugar), resultado de um mercado de trabalho resiliente e da expansão de atividades econômicas em diferentes setores.
Para o diretor do núcleo de inovação, IA e tecnologias digitais da FDC, Hugo Tadeu, esse desempenho demonstra a capacidade do País de criar oportunidades de forma consistente, contribuindo para o dinamismo da economia e para a ampliação da participação da população no mercado de trabalho.
“Estar entre os países com maior capacidade de geração de empregos mostra a força e a resiliência da economia brasileira. Mesmo diante de desafios internos e externos, o País mantém sua capacidade de criar oportunidades e absorver trabalhadores em diferentes setores produtivos”, avalia Tadeu.
O Brasil também figura entre os cinco primeiros colocados em subsídios governamentais (5º lugar), indicador que reflete a atuação do poder público no estímulo a setores estratégicos e no apoio a atividades capazes de impulsionar o desenvolvimento econômico. Associado a isso, o elevado percentual de energias renováveis na matriz energética (5º lugar) reforça uma vantagem competitiva importante, alinhada às demandas globais por sustentabilidade e transição energética.

Outro destaque é o fluxo de investimento direto estrangeiro (7º lugar), evidenciando a capacidade do Brasil de atrair capital internacional mesmo em um cenário econômico global marcado por incertezas. Esse desempenho sinaliza a relevância do País nas estratégias de expansão de empresas multinacionais e reforça seu papel como um dos principais destinos de investimento entre as economias emergentes.
Por fim, o Brasil alcança posição de destaque no Ranking de Competitividade na atividade empreendedora em estágio inicial (8º lugar), demonstrando a vitalidade de seu ecossistema de negócios. O elevado nível de empreendedorismo sinaliza a disposição da população para identificar oportunidades, criar novos empreendimentos e desenvolver soluções inovadoras, contribuindo para a renovação da economia e para o fortalecimento da competitividade nacional.
“O desempenho em empreendedorismo e atração de investimentos revela que o Brasil continua sendo um mercado relevante para quem busca crescer e inovar. Há um ambiente de oportunidades que desperta tanto o interesse de investidores internacionais quanto à disposição dos brasileiros para empreender”, destaca.
Educação e produtividade travam competitividade brasileira
De acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Brasil deverá fechar o ano como a 10ª economia global, respondendo por 2,5% da economia mundial. Mesmo assim, o Brasil aparece acompanhado de países com economias infinitamente menores e envolvidos em conflitos geopolíticos internos ou externos: Botsuana (66º), Mongólia (67º), Nigéria (68º), Namíbia (69º) e Venezuela (70º).
“O relatório do FMI tem como foco principal o crescimento econômico. Já os dados que produzimos em parceria com o IMD analisam a competitividade em uma perspectiva mais ampla, contemplando quatro grandes dimensões: desempenho econômico, eficiência governamental, eficiência empresarial e infraestrutura. Nesse contexto, a comparação não se limita aos indicadores econômicos tradicionais, mas considera também a estabilidade desses fatores e a percepção sobre a capacidade futura de um País gerar crescimento, inovação e desenvolvimento. Em outras palavras, o foco está nos elementos estruturantes que contribuem para a competitividade de longo prazo”, explica.
Entre os quesitos que puxam os resultados do Brasil para baixo, o País aparece em último lugar (70º) em:
Custo de Capital: atua como uma restrição estrutural à expansão do investimento produtivo e à modernização da estrutura empresarial. Esse resultado afeta diretamente a formação de capital de longo prazo, ao encarecer decisões de investimento e reduzir a previsibilidade financeira dos projetos. Em termos práticos, o ambiente se torna menos propício à alocação de recursos em inovação e expansão produtiva, especialmente em setores mais sensíveis ao ciclo de crédito.
- Débito corporativo: evidencia um mercado de financiamento empresarial pouco profundo e com baixa diversificação de instrumentos. Isso resulta em forte dependência do crédito bancário, o que limita a flexibilidade das estruturas de capital e reduz a capacidade de financiamento de investimentos mais complexos. Além disso, esse arranjo restringe o desenvolvimento de um mercado corporativo mais sofisticado e resiliente.
- Educação primária e secundária: revela fragilidades na formação da base do capital humano, o que compromete efeitos de longo prazo sobre produtividade e inovação. Esse resultado indica limitações na consolidação de competências fundamentais, o que impacta tanto a empregabilidade futura quanto a capacidade de adaptação tecnológica da força de trabalho.
- Produtividade da força de trabalho: impacta diretamente a capacidade de geração de valor da economia e a competitividade das empresas. Esse desempenho está associado a desafios estruturais relacionados à qualificação da mão de obra, à baixa incorporação de tecnologias nos processos produtivos e a diferenças significativas de eficiência entre setores. Em conjunto, esses fatores reduzem o dinamismo econômico e dificultam ganhos consistentes de produtividade no longo prazo.
- Habilidades linguísticas: limita a inserção internacional de profissionais e empresas, reduzindo a capacidade de participação em fluxos globais de comércio, serviços e conhecimento. Esse cenário também afeta a mobilidade do capital humano e restringe oportunidades de atuação em ambientes profissionais cada vez mais internacionalizados. Como consequência, há maior dificuldade de integração em redes globais de inovação e colaboração.
- Habilidades financeiras: evidencia as limitações na formação de competências econômicas básicas da população, com impactos diretos sobre decisões de consumo e investimento. Esse cenário também afeta a gestão financeira de pequenos agentes econômicos e contribui para maior vulnerabilidade financeira em diferentes estratos sociais.
- Sistemas de valor: reflete as fragilidades relacionadas à confiança institucional, à previsibilidade regulatória e à integridade nas relações econômicas. Esses fatores impactam diretamente o ambiente de negócios, ao influenciar os custos de transação, a segurança contratual e a coordenação entre agentes econômicos. Como resultado, observa-se maior incerteza nas interações econômicas e menor eficiência sistêmica.
Às vésperas de mais uma eleição presidencial e renovação dos legislativos federal e estaduais, o tema da competitividade brasileira precisa ganhar relevância nos planos de governo e dentro do debate público.
“O risco de permanecer na atual posição do ranking é não compreender plenamente as transformações em curso no cenário global. Hoje, a competição entre países está cada vez mais associada à capacidade de atrair investimentos, talentos, inovação, tecnologia e inteligência artificial. O crescimento sustentável passa, necessariamente, pelo fortalecimento da educação, dos serviços de alto valor agregado e das tecnologias digitais, que se consolidam como pilares centrais da nova economia”, alerta o pesquisador.
O Acordo Mercosul-União Europeia e o anúncio da abertura de negociações para um futuro acordo Mercosul-Japão são vistos como uma oportunidade importante para que o Brasil avance no seu grau de competitividade.
“Os acordos bilaterais desempenham papel fundamental nesse processo, pois estimulam a transferência de conhecimento, a cooperação tecnológica, a atração de investimentos e a construção de novas perspectivas para o crescimento e o desenvolvimento econômico”, analisa.
Países líderes apostam em formação de capital humano e inovação
Na ponta de cima do ranking está Singapura. Após ocupar a segunda posição em 2025, o país asiático assumiu a liderança do Ranking de Competitividade de 2026. A ilha se destaca principalmente pelo ambiente favorável aos negócios e pela solidez de suas instituições, fatores que contribuíram para a conquista do primeiro lugar geral.
Singapura é seguida por Hong Kong (2º), Suíça (3º) e Taiwan (4º). Os Emirados Árabes Unidos ocupam a 5ª posição e se destacam pelo melhor desempenho em performance econômica entre os 70 países avaliados. A Europa também mantém forte presença entre os líderes, com países como Dinamarca (6º), Países Baixos (8º) e Suécia (9º), evidenciando a importância de estratégias de longo prazo voltadas à inovação, produtividade e desenvolvimento econômico. E, em 10º lugar estão os Estados Unidos.
“A comparação internacional sugere que economias mais bem posicionadas operam com maior integração entre instituições, setor produtivo e formação de capital humano, o que reduz ineficiências estruturais e amplia a capacidade de inovação. Nesse contexto, o avanço da competitividade brasileira depende da consolidação de um ambiente econômico mais coerente e previsível, sustentado por maior eficiência institucional, modernização produtiva e fortalecimento das condições de inovação”, completa o diretor do núcleo de inovação, IA e tecnologias digitais da FDC.
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