Boom das cervejas sem glúten é oportunidade de negócio para microcervejarias

Crescimento de mais de 400% na produção em um ano abre novas oportunidades de negócio para o mercado brasileiro
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Boom das cervejas sem glúten é oportunidade de negócio para microcervejarias
Foto: Reuters/Peter Nicholls

As pequenas cervejarias brasileiras têm um bom motivo para comemorar o Dia Internacional da Cerveja, no próximo dia 7 de agosto: o crescimento de mais de 400% na produção da cerveja sem glúten. Segundo o Anuário da Cerveja 2026, divulgado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), esse boom das cervejas especiais confirma o interesse do público por um produto diferenciado e aponta para novos nichos de mercado. Desde 2009 o país ocupa a posição de terceiro maior consumidor da bebida no mundo, de acordo com o relatório da Kirin Holdings.

“A busca por alimentos e bebidas sem glúten vai muito além das pessoas que possuem doença celíaca ou intolerância. Existe hoje, cada vez mais, uma procura por produtos associados à saudabilidade, ao bem-estar e à qualidade dos ingredientes em si”, avalia Cecília Morais, analista de Indústria, Comércio e Serviços do Sebrae/MG.

Segundo ela, este movimento já é observado em diversos segmentos da alimentação e também se reflete no mercado cervejeiro, que vem registrando crescimentos expressivos não só de cerveja sem glúten, como também de cerveja sem álcool ou de baixo teor alcoólico.

“Para as microcervejarias, isso representa uma estratégia imensa de mercado ao diversificar seu portfólio. O consumidor não busca apenas uma bebida, mas uma experiência. E uma cerveja sem glúten, que mantém uma boa qualidade sensorial, pode, sim, se tornar um grande diferencial competitivo”, acrescenta.

É o caso da Cervejaria Dádiva, de Várzea Paulista (SP), uma das primeiras cervejarias artesanais do mercado a produzir versões IPA sem glúten e também sem álcool, ambas lançadas em 2019. De acordo com a sócia-fundadora Luiza Lugli Tolosa, havia uma demanda do público e um desejo da empresa de ampliar o portfólio, tornando-o mais inclusivo.

“Como o sabor da nossa IPA é o mesmo da versão com glúten, o consumidor que prefere um produto sem glúten, mesmo que não tenha uma restrição de saúde, acaba optando por ter a mesma experiência sensorial”, explica Luiza.

A empresária comemora a decisão acertada. “Hoje em dia, vemos um aumento nas vendas em decorrência da procura por hábitos saudáveis, nos quais a cerveja sem glúten acaba se inserindo”, diz Luiza, que com pesquisa e estudos implantou os novos rótulos em sua carta de produtos. “A cerveja sem glúten exige maiores cuidados em determinados processos, e também o uso de enzimas especiais”, afirma.

A Cervejaria Alcapone, de Porto Alegre, lançou em 2017 a primeira IPA Sem Glúten do país, além de uma Premium Lager no mesmo estilo. Ao longo de quase 10 anos, a empresa viu crescer a procura por seus produtos com essa composição especial. “Ano passado a gente lançou uma Red Ale sem glúten, já pensando em ter um produto diferente”, revela Andrews Calcagnotto, um dos sócios e fundadores da marca.

O diferencial de seu negócio, para Andrews, está em focar na qualidade dos produtos e na inovação. “A gente não é uma cerveja que vai brigar no preço, que vai tentar entregar para o consumidor uma cerveja mais barata, prejudicando a qualidade. A gente vai sempre focar na qualidade dos insumos. E sempre tentando inovar, trazer estilos diferentes, não se manter sempre no padrão do Pilsen, que é o que se tem hoje por aí”.

Exportações bateram recorde

Apesar do boom da produção de cervejas sem glúten, os números divulgados pelo MAPA mostram que o mercado cervejeiro no Brasil apresenta estabilidade em alguns aspectos. Há um recorde de cervejarias registradas no ano passado: 1.954, o maior número da série histórica. No entanto, o crescimento foi tímido em relação a 2024, quando havia 1.949 cervejarias registradas. São Paulo é o estado com o maior número de registros (452), enquanto o Rio Grande do Sul concentrou o maior número de encerramentos (36).

No entanto, há uma retomada do crescimento de marcas de cerveja registradas (56.170), um aumento de 2,1% em relação a 2024, após uma desaceleração anterior. Além da forte expansão da produção de cerveja sem glúten, o setor apresentou desempenho recorde no comércio exterior. As exportações brasileiras alcançaram US$ 218,3 milhões — o maior valor da série histórica —, gerando um superávit de US$ 195 milhões na balança comercial, também um recorde, e levando a cerveja brasileira a 77 países.

Apoio do Sebrae a microcervejeiros

O Sebrae Minas acompanha estas tendências por meio do programa Prepara Cervejas Artesanais, voltado ao fortalecimento das micro e pequenas cervejas artesanais do estado. Segundo Cecília Morais, o programa prepara as empresas para desenvolver produtos alinhados às novas demandas do mercado.

“A gente prepara desde o diagnóstico da cervejaria para entender o que ela produz hoje, o que ela tem no portfólio, entende qual nicho do mercado ela gostaria de acessar. E hoje a procura vem muito grande por cerveja sem glúten, cervejas com baixo teor alcoólico, com zero álcool até, e a gente dá uma consultoria de suporte para o desenvolvimento desses novos produtos. O nosso objetivo é transformar essas tendências de mercado em oportunidade de negócio”, explica a analista.

Para Cecília, mais do que produzir uma boa cerveja, é fundamental compreender as mudanças de comportamento do consumo. “Hoje o público é diferente. Então, se faz necessário voltar os nossos olhares para esse nicho específico, que tem um valor agregado muito interessante para as empresas, e se reinventar, passar a produzir e atender esse público”.

Conteúdo distribuído por Agência Sebrae

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