Conselho da Vale resiste a proposta de destituição de presidente feita pela Previ
O conselho de administração da Vale decidiu recomendar que acionistas da mineradora rejeitem proposta da Previ, gestora dos fundos de pensão dos funcionários do Banco do Brasil, para alterar o comando do colegiado em assembleia agendada para o dia 22 de julho.
A proposta de troca na presidência do conselho foi feita pela Previ no último dia 11. A fundação propôs a destituição do presidente, Daniel Stieler, indicado pela própria Previ, que está no colegiado desde 2021.
A proposta surpreendeu o mercado, já que os mandatos para os 13 conselheiros da mineradora vencem em abril de 2027. Adriana Chagastelles, diretora de participações da fundação, diz que a ideia é garantir maior independência do conselho para o processo de sucessão.
Caso seja confirmada a saída de Stieler, duas novas eleições são necessárias: uma para seu assento no conselho e outra para definir, entre os 13 conselheiros da companhia, quem será o novo presidente do colegiado.
A Previ quer que José Maurício Coelho assuma a vaga de Stieler como conselheiro. Mas defende que a presidência seja repassada a Ollie Oliveira, hoje o líder dos conselheiros independentes da mineradora.
Em reunião na sexta-feira (19), o conselho de administração da Vale aprovou a realização da assembleia e sugeriu aos acionistas a manutenção de Stieler na presidência do conselho. Caso ele seja destituído, o colegiado defende a eleição de Ieda Gomes, executiva de petróleo e gás especializada em governança.
A função de presidente será disputada também pelo atual vice-presidente do grupo, Marcelo Gasparino, cuja candidatura foi aprovada na reunião de sexta.
Reunião e isolamento da Previ
A reportagem apurou que a Previ ficou isolada na reunião do conselho de sexta. Foi a única a votar pela destituição de Stieler e pela recomendação da eleição de Coelho. O voto foi dado pelo presidente da fundação, Marcio Chiumento.
Presidente da Previ entre 2021 e 2023, Stieler foi eleito pela fundação para o conselho da Vale, mas decidiu não ceder aos apelos para deixar o cargo antes do fim do mandato.
Chagastelles, da Previ, disse à reportagem que a saída de Stieler já vinha sendo planejada desde o início do ano, quando Chiumento assumiu a vaga do ex-presidente da Previ João Fukunaga no conselho.
“Não temos nada contra o Daniel [Stieler], ele fez excelentes contribuições”, diz ela. “Mas entendemos que a presidência do conselho é um cargo estratégico, principalmente em um momento de renovação, como o que vai acontecer em 2027.”
Aliados de Stieler defendem que a ofensiva é parte de uma tentativa de ingerência política no comando da mineradora. A diretora da fundação nega e cita o currículo dos indicados como exemplo.
O candidato da fundação à presidência do conselho é executivo renomado no mercado de mineração e com bom trânsito entre investidores estrangeiros. É português e vive em Londres. “Se fosse movimento político, iríamos escolher um estrangeiro?”, questiona ela.
Coelho presidiu a Previ e o conselho da Vale no governo Michel Temer e é também visto como perfil técnico. A diretora da Previ afirma que a fundação quer a gestão da Vale mais independente -decidiu inclusive abrir mão de indicar candidato à presidência do conselho em 2027.
A fundação avalia que o conselho quis fomentar a competição ao indicar outros nomes para a disputa na reunião de sexta. Mas questiona também o fato de Stieler ter presidido reunião que falava de sua renúncia, o que considera conflito de interesses.
Contexto político e acionário da Vale
A decisão final é dos acionistas. A Vale é hoje uma corporação sem dono definido, mas com alguns acionistas relevantes que podem articular votos. A Previ é o maior acionista individual, com 7,02% do capital da companhia.
Em seguida, a lista de acionistas relevantes tem a japonesa Mitsui (6,45%) e as gestoras de investimentos Blackrock (6,71%) e Capital World Investors (5,13%). O restante do capital está pulverizado no mercado.
Crítico da privatização da companhia nos anos 1990, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem feito recorrentes reclamações públicas sobre as dificuldades de relacionamento entre a empresa e o governo federal. Chegou a chamar a Vale de “acéfala” em 2024.
Na ocasião, o governo sofreu uma derrota em tentativa de emplacar o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega como substituto ao então presidente da companhia, Eduardo Bartolomeo.
A relação com o Palácio do Planalto melhorou após a eleição de Gustavo Pimenta, que prometeu acelerar investimentos no país. Mas não andou com projetos considerados importantes para o governo, como a compra da mineradora Bamin, na Bahia.
Conteúdo distribuído por Folhapress
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