As indústrias deverão gerar mais vagas temporárias do que os outros setores | CRÉDITO: ALISSON J. SILVA

Mesmo diante da retração econômica causada pela pandemia de Covid-19, a contratação de funcionários temporários no segundo semestre de 2020 deverá superar em 12% o resultado do exercício anterior. Porém, diferentemente do tradicionalmente observado, atividades como comércio e serviços não deverão ser os principais responsáveis pela demanda. Dessa vez, a aposta é que a geração de vagas seja puxada pela indústria.

A estimativa é da Associação Brasileira do Trabalho Temporário (Asserttem) e diz respeito ao cenário nacional. Em todo o País, nos próximos meses poderão ser geradas mais de 900 mil vagas temporárias, frente às 800 mil de 2019. No entanto, conforme o diretor regional da entidade, Glaucus Botinha, Minas Gerais deverá acompanhar o cenário.

“A expectativa é muito positiva. A diferença é que, neste ano, o perfil das contratações não deverá ser puxado por comércio e serviços em função das datas sazonais. Mas, sim, pela indústria, que pisou no freio no início da pandemia, demitiu muita gente e agora precisa recompor o quadro em vistas de recompor os estoques e atender a demanda que volta a se aquecer”, explicou.

Na outra ponta, a queda nas contratações temporárias realizadas pelo comércio poderá ocorrer pelo menor número de pessoas visitando as lojas e pela tendência, cada vez maior, do uso do comércio eletrônico.

Alternativa – Botinha também explicou que em cenários de crise como o que se vive atualmente, a contratação de funcionários temporários é sempre uma boa opção, uma vez que se trata de alternativa rápida, flexível e segura para ambas as partes. Ele lembrou que a regulamentação do trabalho temporário ocorreu há 10 meses, com a publicação do Decreto 10.060/2019, conferindo maior segurança jurídica e econômica às empresas.

“A mão de obra temporária, neste momento de retomada, é muito salutar e utilizada, porque permite às empresas se reorganizarem, enquanto firmam o negócio, afinal, o momento ainda é de insegurança e a contratação por demanda específica se torna estratégica. Além disso, a empresa evita multas por encerramento de contrato e demais questões trabalhistas. Sob o ponto de vista do trabalhador, a lei o protege em termos de salário e benefícios”, detalhou.

Dados da entidade mostram ainda que, entre janeiro e junho de 2020, foram mais de 1 milhão de contratações temporárias. Somadas ao desempenho esperado para os próximos meses, a marca de 1,9 milhão de trabalhadores temporários contratados neste ano poderá ser alcançada, representando um aumento de 28% em relação a 2019.

A diferença é que, neste ano, o perfil das contratações no 2º semestre não deverá ser puxado por comércio e serviços | Crédito: Wilson Dias / Agência Brasil

Desemprego atinge maior patamar

A taxa de desocupação atingiu 14,3% na quarta semana de agosto, um aumento de 1,1 ponto percentual frente à semana anterior (13,2%). Com isso, atingiu o maior patamar da série histórica da pesquisa, iniciada em maio. Essa alta acompanha o aumento na população desocupada na semana, representando cerca de 1,1 milhão a mais de pessoas à procura de trabalho no País, totalizando 13,7 milhões de desempregados. Os dados são da edição semanal da Pnad Covid, divulgada na sexta-feira (18) pelo IBGE.

A coordenadora da pesquisa, Maria Lucia Vieira, ressalta o crescimento da taxa de desocupação, que era de 10,5% no início de maio, e explica que a alta se deve tanto às variações negativas da população ocupada quanto ao aumento de pessoas que passaram a buscar trabalho.

“No início de maio, todo o mundo estava afastado, em distanciamento social, e não tinha uma forte procura [por emprego]. O mercado de trabalho estava em ritmo de espera para ver como as coisas iam se desenrolar. As empresas estavam fechadas e não tinha local onde essas pessoas pudessem trabalhar. Então, à medida que o distanciamento social vai sendo afrouxado, elas vão retornando ao mercado de trabalho em busca de atividades”, analisa a pesquisadora.

A pesquisa também indica mudança no comportamento da população em relação às medidas de isolamento social. O número de pessoas que ficaram rigorosamente isoladas diminuiu pela segunda semana seguida. Entre 23 e 29 de agosto, 38,9 milhões de pessoas seguiram essa medida de isolamento, uma queda de 6,5% em relação aos 41,6 milhões que estavam nessa situação na semana anterior.

A coordenadora da pesquisa afirma que há relação entre o aumento das pessoas em busca de trabalho e a flexibilização do isolamento.

“A gente está vendo uma maior flexibilidade das pessoas, uma maior locomoção em relação ao mercado de trabalho, pressionando o mercado de trabalho, buscando emprego. E esses indicadores ficam refletidos no modo como eles estão se comportando em relação ao distanciamento social”, diz Maria Lucia Vieira.

Já a parcela da população que ficou em casa e só saiu por necessidade permaneceu estável. São 88,6 milhões de pessoas nessa situação, representando 41,9% da população do País. Houve estabilidade também no contingente dos que não fizeram restrição, chegando a 5 milhões de pessoas, e dos que reduziram o contato, mas que continuaram saindo de casa ou recebendo visitas, situação de 77 milhões de pessoas.

O número de pessoas ocupadas que estavam afastadas do trabalho por causa das medidas de isolamento social foi reduzido em 363 mil e esse contingente passou a 3,6 milhões. As pessoas que estão nessa situação agora representam 4,4% de toda a população ocupada, estimada em 82,2 milhões. Dos 76,1 milhões de pessoas que estavam ocupadas e não foram afastadas do trabalho, 8,3 milhões trabalhavam remotamente.

A indústria vai precisar recompor o quadro em vistas de recompor os estoques | Crédito: Divulgação

Fiemg prevê ajustes nos processos

A contratação de temporários nas indústrias sediadas em Minas Gerais deve aumentar nos próximos meses, segundo afirmou a presidente do Conselho de Relações do Trabalho da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), Erika Morreale Diniz.

“O movimento poderá ser observado com maior destaque em segmentos específicos. Temos setores que nunca pararam, alguns afetados nos primeiros meses, outros por mais tempo e, ainda, aqueles que não possuem previsão alguma de retomada. Todos estão passando por readaptações e sob a ótica trabalhista, a reorganização de mão de obra disponível é processo fundamental”, explicou.

E, diante da recuperação da demanda, mesmo que em setores específicos, segundo Erika Morreale, o trabalho temporário aparece como uma possibilidade da própria lei trabalhista.

“Passado o pior da pandemia, o perfil do consumidor mudou muito. E essas mudanças estão repercutindo no processo industrial. Porém, ainda não se sabe precisar por quanto tempo e nem em que medida. É neste contexto que o contrato temporário dá fôlego ao empresário em termos de flexibilização da mão de obra”, ressaltou.

No caso da Fiemg, conforme ela, o trabalho e as orientações durante os últimos meses foram no sentido da preservação do emprego, sempre alinhados às medidas e programas do governo federal, a partir da Medida Provisória (MP) 936, que prevê acordos de redução e suspensão de contratos em prol da manutenção dos postos de trabalho.

De toda maneira, a insegurança provocada pela pandemia também vai impulsionar as contratações de temporários pelo comércio da Capital.

De acordo com o presidente do Sindicato de Lojistas de Belo Horizonte (Sindilojas-BH), Nadim Donato, a admissão neste exercício poderá chegar a 5 mil profissionais. “Todos os anos o sindicato treinava cerca de 3,5 mil pessoas para a demanda de fim de ano. Em 2019, foram 3,7 mil pessoas e, neste exercício, esperamos um acréscimo entre 20% e 30% durante os meses de outubro, novembro e dezembro”, afirmou.