Fogão a lenha e tradição sustentam restaurante em meio à economia criativa do Mercado Novo
O cheiro da lenha queimando e o movimento das panelas chamam a atenção de quem percorre os corredores do Mercado Novo, em Belo Horizonte. Em um espaço conhecido pela concentração de lojas de moda, design, artesanato e outros empreendimentos ligados à economia criativa, o Fogão Vermelho segue um caminho diferente. Aposta na comida mineira preparada na hora, em receitas tradicionais e na fidelização dos clientes para manter o movimento diário.
Instalado no Mercado Novo desde 2019, o restaurante nasceu com a proposta de levar para o Centro da Capital uma cozinha inspirada no interior de Minas Gerais. O cardápio, escrito no quadro, muda diariamente e reúne pratos como feijoada, frango com quiabo, tutu com pernil e tropeiro, preparados em fogão a lenha.

A história começou em 2019, quando Glória Nunes decidiu abrir o restaurante ao lado das sócias Daiane Geysi e Teca Alves. Segundo Glória, a escolha pelo modelo surgiu da intenção de preservar um tipo de culinária cada vez menos presente nos grandes centros. “Quando vimos o espaço, pensamos em montar uma cozinha de roça. A ideia era trazer um pouco dessa tradição para que ela não acabasse”, afirma.
Da roça para a cozinha
Diferentemente de muitos empreendedores do setor de alimentação, Glória não iniciou a trajetória em cozinhas profissionais. Antes de abrir o restaurante, trabalhou em atividades ligadas ao campo, como corte de cana e lavouras de café, além de passar por outros segmentos quando chegou à cidade. Segundo ela, a experiência na cozinha veio da prática e das referências acumuladas ao longo da vida, e não de cursos ou formação técnica.

Operação simples e clientela fiel
A rotina começa cedo. As sócias chegam por volta das oito horas da manhã para preparar o almoço, servido a partir do meio-dia. Depois do horário das refeições, o restaurante passa a oferecer porções, como torresmo, mandioca e batata frita.
Sem uma identidade visual elaborada ou campanhas de marketing, o Fogão Vermelho construiu sua clientela principalmente pelo boca a boca e pela experiência de quem frequenta o restaurante. Para Glória, parte do sucesso do restaurante está justamente na curiosidade despertada pelo fogão a lenha. “A gente percebe que muitas pessoas chegam aqui porque nunca viram um fogão a lenha funcionando. Ver o torresmo sendo feito na hora desperta curiosidade e acaba fazendo parte da experiência”, diz.
A estudante Isabela Dias, cliente frequente do restaurante, conta que costuma levar amigos e familiares ao local sempre que recebe visitas de fora de Belo Horizonte. “Sempre que recebo amigos ou familiares de fora de Belo Horizonte, levo eles ao Fogão Vermelho. Além da comida e do atendimento, acho que o restaurante representa muito bem a culinária mineira dentro de um espaço tão característico como o Mercado Novo”.
Ela afirma que continua frequentando o restaurante mesmo com o crescimento da oferta gastronômica no prédio. “A qualidade da comida e o atendimento sempre me fazem voltar. Mesmo com tantas opções no Mercado Novo, o Fogão Vermelho consegue manter uma identidade própria, valorizando a tradição da comida mineira sem perder o clima descontraído que o Mercado proporciona”.

Tradição como parte da identidade do Mercado
A presença de negócios tradicionais faz parte da estratégia adotada durante o processo de revitalização do Mercado Novo, iniciado em 2017. O prédio reúne cerca de 1.200 unidades autônomas e, atualmente, concentra aproximadamente 56 operações de alimentação, além de lojas voltadas para segmentos da economia criativa.
Curador e síndico do espaço, Luiz Felipe de Castro explica que o projeto buscou preservar negócios capazes de contar histórias e representar saberes transmitidos entre gerações. “O Mercado nasceu para substituir o Mercado Central, mas ficou inacabado durante décadas. Quando iniciamos a revitalização, percebemos que ainda existiam famílias e negócios tradicionais funcionando aqui. Foi a partir deles que pensamos o projeto do Velho Mercado Novo”, afirma.
Segundo ele, a administração realiza uma curadoria para definir quais atividades podem ocupar os espaços disponíveis. O objetivo é reunir operações especializadas e evitar a repetição de negócios semelhantes. “Os negócios daqui são muito verdadeiros. Muitos foram construídos pelos pais e avós de quem está à frente hoje. São pessoas que desenvolveram um conhecimento ao longo da vida e que, muitas vezes, não investem em marketing. Elas estão preocupadas em fazer um bom produto e preservar uma história”, diz.
Para Castro, esse equilíbrio entre novos empreendimentos e operações tradicionais é um dos fatores que diferenciam o Mercado Novo. “A gente procura reunir especialistas em cada atividade. Assim, quem passa pelo prédio encontra produtos diferentes, histórias diferentes e uma experiência que vai além da compra”.
Em um mercado que se reinventou a partir da criatividade e da diversidade de novos negócios, o Fogão Vermelho ocupa um espaço diferente. Sem abrir mão da cozinha feita no fogão a lenha, o restaurante mostra que a tradição também pode ser um ativo competitivo quando consegue transformar memória, identidade e experiência em motivo para o cliente voltar.
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