Eleições 2026: seis livros discutem democracia, polarização e poder dos algoritmos

Obras recém-lançadas abordam desinformação, algoritmos e fragilidade das instituições, com recortes que vão do início da República às redes sociais
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Eleições 2026: seis livros discutem democracia, polarização e poder dos algoritmos
Eleitores voltam às urnas neste domingo (25) para o 2º turno | Foto: Leobark Rodrigues / Secom TSE

Com o segundo turno das Eleições 2026 marcado para este domingo (25), assuntos como polarização, desinformação, influência das redes sociais e funcionamento das instituições voltam a ocupar o debate público. Seis livros lançados por editoras brasileiras ajudam a olhar para esses temas por ângulos diferentes, da história da República ao papel dos algoritmos na decisão do voto.

Em “Falo, logo existo! Da praça de Atenas ao feed: como a palavra sequestrou o pensamento” (LC Books Editora), Luciano Claudino percorre a história do debate público, de Sócrates às redes sociais, para discutir por que ficou mais difícil ouvir o outro e formar opinião própria num ambiente de reações instantâneas. O autor defende o hábito de questionar antes de responder e propõe a conversa como espaço de troca, e não de disputa.

A fragilidade das instituições é o tema de “Constitucionalismo abusivo” (Editora Contracorrente). A partir de estudos teóricos, decisões judiciais e direito comparado, Anna Catharina Machado Normanton mostra como instrumentos constitucionais legítimos podem ser usados para enfraquecer a democracia aos poucos. A autora amplia o conceito ao descrever estratégias que mantêm a aparência de legalidade enquanto corroem as instituições.

A polarização, por sua vez, não é novidade no País, como mostra Ely Carneiro de Paiva em “1897: A República Polarizada e o Atentado Contra Prudente de Morais” (Editora Ayran). Com base em mais de 600 referências, o autor reconstitui os bastidores do governo de Prudente de Morais e os conflitos de 1897, ano marcado por disputas políticas acirradas, atentados, corrupção e notícias falsas, e aponta no início da República raízes de problemas atuais.

Para quem busca formas de lidar com a divergência no dia a dia, o professor Lucas Nascimento apresenta em “Comunicação Responsiva” (Alta Books) técnicas para conduzir discordâncias no debate político, nas relações pessoais e no trabalho. A proposta é trocar a reação impulsiva por uma argumentação mais ética e eficiente em momentos de tensão, sem abrir mão do direito de discordar.

O peso das plataformas digitais nas eleições é o foco de “Democracia Híbrida e Sistema Eleitoral no Brasil” (Tirant lo Blanch). O advogado Bento José Lima Neto parte de uma pergunta direta, se quem decide o voto é o eleitor ou o algoritmo, para analisar uma democracia que se divide entre a urna física e o ambiente das redes, e examina como os mecanismos dessas plataformas interferem no debate público e nas escolhas individuais.

Fechando a lista, “Política: decifra-me ou te devoro” (Cortez Editora) contraria o velho ditado de que política não se discute. O professor Edson Gabriel Garcia propõe uma introdução à alfabetização política, trata de voto, fake news e polarização e sustenta que ficar fora do debate também tem consequências para o cidadão.

Autora vê na briga ideológica uma ameaça à conduta de fiéis

A jornalista Poliana Tupinambá Timóteo, sobrinha e ex-assessora do cantor e ex-parlamentar Agnaldo Timóteo, lançou o livro “Esquerda ou Direita? Escolho a Bíblia.”, em que analisa como a disputa entre os dois polos políticos afeta o comportamento de cristãos. A obra tem mais de 300 páginas e ganhou também edição em inglês, com o título “Left or Right? I Choose the Bible.”.

O ponto de partida do livro é uma contradição que a autora identifica em fiéis dos dois lados: pessoas que, convencidas de estar defendendo uma causa moral, passam a adotar atitudes que o próprio evangelho condena. Entre elas, Poliana Tupinambá Timóteo cita a hostilidade e o desprezo pelo adversário, a agressão verbal e física, o compartilhamento de informações sem checagem e a satisfação diante do sofrimento alheio. Segundo ela, a convicção de estar do lado certo dificulta que essas pessoas reconheçam o efeito do próprio comportamento.

A maior parte do texto é dedicada à leitura bíblica. A autora reúne centenas de versículos para sustentar a tese de que a polarização funciona como um ataque espiritual ao cristianismo, ao estimular condutas contrárias aos ensinamentos de Jesus em nome de causas consideradas nobres. Na interpretação dela, a disputa real não é contra o oponente político, mas contra o que a Bíblia chama de “potestades”.

O livro também recorre à neurociência, à psicologia e à sociologia para explicar por que as pessoas se tornam vulneráveis a esse processo. Poliana Tupinambá Timóteo descreve mecanismos de influência como o uso de rótulos depreciativos e de estratagemas de argumentação que distorcem informações ou desqualificam o interlocutor, e o que chama de “as manobras ocultas do mal”.

A autora atribui parte da análise à própria trajetória. Além do jornalismo, ela trabalha com estratégia de posicionamento de marcas, tem experiência em campanhas eleitorais, assessoria e comunicação pública, e estudou ciência política e marketing político. Segundo ela, essa vivência ajudou a identificar como narrativas políticas criam vínculo emocional com o eleitor.

Como saída, o livro propõe o autoexame individual, para que o leitor reconheça quando a lealdade a um movimento político entra em conflito com a fé. A autora recomenda a obra a leitores de qualquer orientação política.

Sobre o autor

Luciana Montes

Editora Executiva do Diário do Comércio desde 2019. Atuou como repórter e editora de Economia e Negócios entre 2004 e 2018. Graduada em Comunicação Social pela Fafi-BH, com pós-graduação em Tecnologias da Informação e Marketing em Comunicação. LinkedIn: https://www.linkedin.com/in/luciana-montes