A Distribuidora Goitacazes, inaugurada em setembro de 2018, puxa a fila desse movimento - Crédito: Divulgação

Quem passa pelo Mercado Novo, no centro de Belo Horizonte, percebe – há algum tempo – uma movimentação diferente por lá. Há um ano, o espaço foi redescoberto por empreendedores, principalmente da gastronomia, que se juntaram em uma ação para revitalização do espaço e manutenção de sua cultura e aspectos históricos.

A iniciativa, que começou com uma distribuidora de bebidas e um restaurante, ganhou força e, 12 meses depois, exibe seus frutos: 40 estabelecimentos em pleno funcionamento e um movimento cultural que tem se destacado na Capital.

A iniciativa foi puxada pelos sócios da Cervejaria Viela, que fizeram um movimento parecido de resgate histórico do bairro Pompeia, na região Leste de Belo Horizonte, onde a cervejaria está instalada. Ao ver um andar inteiro de lojas fechadas em um ponto tão histórico como o Mercado Novo, os sócios decidiram começar o movimento.

“É um lugar incrível com comerciantes muito tradicionais, que estão aqui há décadas. As pessoas não sabem, mas temos coisas fantásticas, como uma fábrica de vela artesanal e outra de máquina de algodão-doce. Então, decidimos abrir uma distribuidora da marca e um restaurante para atrair o público para o mercado e ajudar a contar a história dele”, afirma o sócio da Cervejaria Viela, Rafael Quick.

Os dois empreendimentos foram abertos em setembro de 2018: a Distribuidora Goitacazes, que vende a cerveja engarrafada, e a Cozinha Tupis, que tem cardápio variado, focado na gastronomia mineira e que usa matéria-prima comprada no próprio mercado. Segundo o sócio, nos últimos meses, o movimento se intensificou e novos empreendedores chegaram.

Hoje, o segundo andar do Mercado Novo vende comida de boteco, massa, empada, sanduíche, cerveja, cachaça, vinho, entre outras opções.

Quick explica que o movimento tem regras específicas, como a manutenção da estética do Mercado Novo. Exatamente por isso que a iniciativa vem sendo chamada de “Velho Mercado Novo”: a ideia é valorizar o conceito de mercado.

“Não temos muitas mesas por aqui: as pessoas comem nos balcões de maneira informal e circulam de um lugar para o outro. Além disso, evitamos a concorrência direta, então cada estabelecimento vende apenas aquilo que é sua especialidade. Dessa forma, ninguém disputa o mesmo cliente e todo mundo cresce”, diz.

Os empreendedores também são estimulados a comprarem uns dos outros dentro do mercado, de forma a valorizar todos os comerciantes. Além dos estabelecimentos na área de gastronomia, há também algumas lojas ligadas a ofícios e à área cultural, como ateliê de cerâmica, barbearia, loja de vinil e espaço de exposição.

“Em um ano, saímos de dois para 40 negócios. Além disso, temos nos transformado em um dos movimentos de coletividade e identidade local mais interessantes de Belo Horizonte”, comemora Quick.

Localizado na avenida Olegário Maciel, o “velho” Mercado Novo ganha novos clientes – Crédito: Divulgação

Novos negócios – Entre os novos empreendedores do Mercado Novo, está o chefe de cozinha Alexandre Louzeiro, que há três meses abriu o Rei da Estufa. O estabelecimento resgata a tradicional estufa – muito comum nos antigos bares da Capital – onde fica exposta a comida de boteco feita na hora: almôndega, moela, jiló e o torresmo de barriga, que é o carro-chefe da casa. O tíquete médio no bar é R$ 22.

O estabelecimento foi montado no espaço de duas lojas do Mercado Novo e tem 24 metros quadrados. O chefe de cozinha afirma que investiu cerca R$ 70 mil na estrutura e, só nos primeiros três meses, teve retorno de 20% desse investimento. A expectativa é finalizar o ano com 50% de retorno.

Louzeiro afirma que o “Velho Mercado Novo” tem atraído muitos jovens. Alguns deles viveram os “tempos de mercado” e outros não. Mas, todos ficam muito encantados com a proposta do espaço. “Os estabelecimentos no País e no mundo estão cada vez mais homogêneos. Mas, aqui, nós temos identidade”, afirma.

Com inauguração prevista para este mês, a Massa Mercado é outro exemplo de estabelecimento que comprou o conceito do movimento no Mercado Novo. O restaurante servirá cerca de 40 tipos de massa, feitas na hora à vista do público. O chefe de cozinha e proprietário do restaurante, Eduardo Miranda, afirma que a ideia é mostrar aos clientes todo o processo de preparação da massa.

“Meu conceito é de cozinha ao vivo: eu faço a massa na hora e coloco para secar em um varal. É uma experiência gastronômica totalmente diferente: sofisticada e simples ao mesmo tempo. É comida boa sem frescura”, resume. O empreendedor já investiu cerca de R$ 80 mil no negócio e sua expectativa é que o retorno aconteça em seis meses.