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Novos livros unem negócios, política e neurociência para explicar desafios do Brasil

Gestão, filosofia e neurociência revelam como filtros culturais, políticos e cognitivos influenciam a compreensão da realidade
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Novos livros unem negócios, política e neurociência para explicar desafios do Brasil
Foto: Reprodução Adobe Stock

Um empresário que percorreu regiões ribeirinhas para expandir uma rede de franquias, uma filósofa que disseca o populismo como forma de ocultamento da realidade e uma neurocientista que propõe interromper respostas automáticas do cérebro formam, juntos, um retrato inesperado e coerente dos obstáculos que atravessam o País, do mercado à política, da cognição à cultura.

Em “Franquia, Estrada & Conhecimento – Uma Jornada pelo Brasil”, Lisandro Corazza, fundador da UpVet e com 16 anos no franchising, parte de uma constatação que o mercado costuma ignorar: estratégias bem-sucedidas em São Paulo podem fracassar no Norte de Minas. Não por incompetência operacional, mas por desconsiderar que cultura, hábito e contexto econômico produzem realidades que nenhum manual de expansão contempla.

Lançado na ABF Expo 2026, o livro argumenta que o sucesso de uma franquia depende menos da replicação de processos e mais da capacidade de ler o território. Ao afirmar que o franchising costuma ser analisado apenas pelos números, Corazza aponta um déficit de percepção que reaparece, sob outras formas, nos outros dois livros.

Marilena Chaui chega a um diagnóstico semelhante, mas pela via filosófica. Em “Democracia e Populismo – A nova classe trabalhadora”, publicado pela Cortez Editora, a professora argumenta que o Brasil opera sobre um “mito fundador”, uma narrativa de harmonia e predestinação que encobre desigualdades estruturais e alimenta formas renovadas de autoritarismo. Para Marilena Chaui, o populismo não é apenas um estilo de governo: é um mecanismo de personalização do poder que substitui direitos por favores.

Um dos pontos mais instigantes da obra é a recusa da ideia de “nova classe média”: o que emergiu nas últimas décadas não foi ascensão estrutural, mas uma nova camada trabalhadora marcada pela precarização e pela ampliação do consumo sem correspondência em direitos. A conexão com Corazza é direta; ambos denunciam a redução de fenômenos complexos a métricas superficiais. Um critica o franchising que enxerga expansão como número de unidades; a outra critica a política que enxerga ascensão social como capacidade de consumo.

Juliana Zellauy fecha o triângulo com uma abordagem neurológica. Em “Neurociência Positiva – Uma rota prática para cultivar o equilíbrio, desenvolver clareza mental e viver com mais leveza”, a especialista propõe que o equilíbrio mental não é um estado espontâneo, mas uma habilidade treinável, e que boa parte dos problemas humanos decorre de respostas automáticas que o cérebro repete sem revisão.

A Teoria da Interface Executiva, desenvolvida pela autora, organiza o papel das funções executivas (atenção, controle emocional, tomada de decisão) como instrumentos de ruptura com o piloto automático. Juliana Zellauy também confronta a “positividade tóxica”, a tendência de evitar emoções difíceis em vez de utilizá-las como fonte de aprendizado, assim como Corazza questiona o olhar que simplifica a diversidade regional em modelos únicos e Marilena Chaui questiona a narrativa que apresenta o país como harmônico e sem conflito.

Os três livros não dialogam entre si, mas chegam a um ponto comum: a crítica às formas de não ver. O empresário que não enxerga o território. O político que não enxerga o conflito. O indivíduo que não enxerga seus próprios automatismos.

Em cada caso, o problema não é a ausência de informação, mas a presença de um filtro (cultural, ideológico ou neurológico) que organiza a realidade de modo a confirmar o que já se sabe. Lidos juntos, os três funcionam como camadas de um mesmo problema: a diversidade regional que Corazza percorreu de estrada em estrada é, em parte, produto das desigualdades que Marilena Chaui denuncia como estruturalmente ocultadas, e a incapacidade de agir diante dessa realidade é, em parte, o que Juliana Zellauy chama de piloto automático.

Entender o Brasil, parece sugerir essa coincidência editorial, exige ao mesmo tempo sair das cidades para ouvir o interior, sair das narrativas fundadoras para ver o conflito e sair da própria cabeça para revisar o que se chama de certeza.

Franquia, Estrada & Conhecimento – Uma Jornada pelo Brasil

Franquia, Estrada & Conhecimento
Foto: Reprodução

Autor: Lisandro Corazza
Defende que a expansão de franquias exige compreender as diferenças culturais, econômicas e sociais entre as regiões brasileiras. A obra sustenta que conhecer o território é tão importante quanto dominar indicadores de mercado.

Democracia e Populismo – A nova classe trabalhadora

Democracia e Populismo
Foto: Reprodução

Autora: Marilena Chaui
Analisa como o populismo, o mito da harmonia nacional e a precarização do trabalho moldam a democracia brasileira. Questiona a ideia de uma “nova classe média” e propõe uma leitura crítica das desigualdades estruturais.

Neurociência Positiva – Uma rota prática para cultivar o equilíbrio, desenvolver clareza mental e viver com mais leveza

Neurociência Positiva
Foto: Reprodução

Autora: Juliana Zellauy
Apresenta estratégias para desenvolver funções executivas do cérebro, reduzir respostas automáticas e fortalecer a tomada de decisões conscientes. Também critica a chamada “positividade tóxica” como obstáculo ao desenvolvimento emocional.

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