Mais de 90% das empresas de transportes foram prejudicadas pelo Covid-19 | Crédito: Divulgação

A pandemia trouxe consigo a necessidade do isolamento social e, com isso, toda a cadeia logística e de transportes viu a sua lógica de funcionamento passar a ser inútil. Cidades e estradas desertas, portos e aduanas paradas, pilotos, comandantes e caminhoneiros de braços cruzados em todo o mundo anunciavam um verdadeiro apocalipse à espreita.

A Pesquisa de Impacto no Transporte – Covid-19, realizada pela Confederação Nacional do Transporte (CNT) no início de abril, mostrou que mais de 90% do setor havia sido afetado negativamente; 71,1% das empresas estavam enfrentando problemas de caixa; 53,7% delas disseram que não suportariam mais do que um mês de operação sem socorro financeiro.

Mas no momento seguinte, a necessidade de abastecer as populações – independentemente da distância e das dificuldades -, inclusive com itens de combate ao Covid-19, fez com que governos e iniciativa privada se reorganizassem com medidas de emergência tentando focar na segurança dos trabalhadores e em preservar o caixa das empresas.

Os números mostram que o desafio tem dimensões planetárias e no Brasil a situação é um pouco mais complicada. O País de dimensões continentais, com modais pouco integrados e burocrático, apesar de tudo, continua sendo um mercado atrativo para players de todo o mundo.

Para o ministro da Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas, que participou da webinar “Panorama atual e futuro da infraestrutura brasileira de transportes”, promovida pela Fundação Getulio Vargas (FGV), existe uma boa expectativa e grande convicção de que, em 2021, as ações do Ministério da Infraestrutura (Minfra) contribuirão para catalisar e acelerar a retomada da economia, do emprego e da geração de renda.

Obras garantidas – Para que isso seja possível, ele garantiu que as 54 obras públicas e projetos de concessões estão sendo executados e serão entregues, conforme o planejamento do início do ano.

Além disso, afirmou que o programa Pró-Brasil, que prevê investimentos em obras públicas como forma de retomar a atividade econômica após a pandemia do Covid-19, deverá ficar pronto entre agosto e setembro e terá um papel importante na modernização da regulamentação e legislação do setor de infraestrutura, além de impulsionar investimentos privados de até R$ 250 bilhões no Ministério.

“Mesmo com o comércio fechado era preciso que as estruturas de suporte ao transporte continuassem abertas para abastecer os supermercados, por exemplo. E ainda tivemos uma demanda extra com o recorde de produção agrícola. O importante é que todo o sistema de transporte funcionou e o abastecimento foi mantido. Também todas as obras federais foram mantidas. Não paramos com os editais para concessão”, pontuou Freitas.

Que pessoas e cargas continuarão atravessando nossos seis biomas, isso é certo, mas a qual custo é a pergunta que atormenta empresários e consumidores. A exemplo de outros setores, estaria na tecnologia a sustentabilidade dos transportes no Brasil? Novos hábitos de consumo e tecnologias limpas podem ser as catalisadoras de inovação? Especialistas se mostram cautelosamente otimistas.

O certo é que muitas oportunidades estão surgindo e ainda surgirão, mas quem estará pronto e vivo para aproveitá-las no novo normal dos transportes?

Cadeia produtiva cobra liberação de linhas de crédito

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A Pesquisa de Impacto no Transporte – Covid-19, realizada pela Confederação Nacional do Transporte (CNT) no início de abril, revelou que os principais impactos do Covid-19 nas empresas de transportes foram: queda no faturamento (71,13%), paralisação total ou parcial das atividades da empresa (38,92%); redução da frota em operação (31,06%); dificuldade de operação por restrições de movimentação (28,48%); queda de produtividade (21,91%); inadimplência por parte de embarcadores (16,11%); cancelamento de contratos (15,99%); cancelamento de passagens vendidas antecipadamente (5,93%).

De acordo com o presidente da CNT, Vander Francisco Costa, para piorar a situação financeira e capacidade de cumprimento das obrigações como folha de pagamento, financiamentos, tributos, aluguéis, fornecedores e concessionárias, entre outros, ficou muito comprometida para a maior parte das empresas.

Apenas 18,7% relataram uma situação equilibrada, com capacidade de pagamento. 29,3% afirmaram estar com a capacidade parcialmente comprometida. Outros 41,4% tinham a capacidade muito comprometida e os demais não souberam ou não quiseram responder.

“A situação dos transportes é extremamente complicada. Até agora o governo federal não apoiou os empresários. Existem boas ideias mas falta efetividade. Não estamos pedindo nada de graça, mas, sim, linhas de crédito para que possamos continuar. Os custos estão subindo. A burocracia brasileira faz com que as empresas de transportes tenham um grande passivo e nós devemos ter uma concentração de mercado ao fim dessa crise, não porque haverá uma onda de fusões e aquisições, mas porque as pequenas vão quebrar”, explica Costa.

Automação – O processo de automação, especialmente no transporte de cargas, já estava em curso e deve ser acelerada no período pós-pandemia. Já no transporte de passageiros, a preocupação deve ser voltada especialmente para a sanitização, inclusive com a compra de novos equipamentos. A expectativa sobre as inovações vindas pelas startups é grande.

“O transporte aéreo deve mudar a condição de embarque. O transporte aéreo e o rodoviário vão fica mais caros. O modelo atual, com veículos superlotados não vai poder continuar. Mas a população tem que estar consciente para utilizar os equipamentos. O legado positivo de tudo isso é o foco em higiene, uma forma mais segura de conviver.

Mas não acredito em alterações radicais no pós-pandemia, isso é da natureza humana. Toda crise traz oportunidades e vemos muitas coisas interessantes no que diz respeito à saúde do motorista, conforto dos passageiros, controle de frotas”, pontua o presidente da CNT.

A integração entre os modais logísticos mais do que uma necessidade é visto pelos empresários do setor como uma oportunidade para fortalecer a retomada econômica através de investimentos.

Para Minas Gerais, estado que liga o Nordeste ao Sul/Sudeste do Brasil e é um caminho natural de escoamento da safra agrícola da região Centro-Oeste para os portos do Sudeste, a questão se torna ainda mais determinante. Minas, como um estado interiorano, não tem acesso direto ao mar e depende dos estados vizinhos para enviar e receber produto por transporte marítimo. Ao mesmo tempo, ostenta a maior malha rodoviária do País, com cerca de 16% do total.

“Acredito na integração como solução. O nosso modelo não privilegia essa situação, mas quem investe nesse setor tem que olhar no médio e longo prazo. A intermodalidade é o melhor caminho para solucionar o problema. Mas, para isso, temos que mudar o modelo. O que é utilizado hoje é focado no resultado das empresas proprietárias das ferrovias. Temos que trabalhar numa forma que garanta a concorrência. No caso das ferrovias temos que valorizar o transporte de passageiros. Se a proprietária não tem interesse em explorar esse ramo, deve deixar que empresas menores explorem pequenos trechos”, afirma.

Nova realidade – No debate virtual “A nova realidade dos transportes internacionais – Novos tempos, novas rotinas”, realizado pelo Conselho Empresarial de Seguros da Associação Comercial e Empresarial de Minas (ACMinas), o especialista em Direito do Seguro pela Universidade de Salamanca (ESP) e membro da Academia Nacional de Seguros e diretor Jurídico do Clube Internacional de Seguros de Transportes que (CIST), Paulo Henrique Cremoneze, também se dedicou ao tema.

“O Brasil precisa de malha ferroviária urgentemente e Minas Gerais pode ser o dínamo dessa transformação. Talvez sejamos o estado que mais precise disso e pode liderar esse processo. Enfrentamos problemas com cargas retidas que poderiam ser liberadas com muito mais facilidade. Toda carga tem que chegar ao seu destino. Se ela fica presa, além de não gerar lucro, vai gerar despesa”, destacou Cremoneze.