Shopping Cidade chega aos 35 anos com retrofit e 99% de ocupação
Inaugurado em abril de 1991 sob o conceito vertical, o Shopping Cidade consolidou-se como um dos principais centros comerciais de Belo Horizonte e de Minas Gerais. O empreendimento, que completa 35 anos de operação em 2026, mantém taxa de ocupação de 99%, a maior entre os shoppings da Capital, reforçando a força do comércio físico mesmo diante do avanço do e-commerce.
O complexo soma 21.855 metros quadrados de Área Bruta Locável (ABL), distribuídos em seis andares que abrigam mais de 180 operações, entre lojas e quiosques. A cada mês, circulam cerca de 2 milhões de clientes, muitos deles pessoas que residem nas proximidades.
Para manter o espaço sempre atrativo, a administração estrutura projetos de modernização, aliados ao jeito mineiro de atender clientes e lojistas. Além do retrofit previsto para começar no ano que vem, o shopping se reinventa ao adaptar espaços às tendências de mercado, que hoje estão direcionadas à construção de hubs de conveniência, serviços e entretenimento.
À frente desse processo, a superintendente do Shopping Cidade, Janaína Lima, recebeu o Diário do Comércio, com exclusividade, para relembrar o legado do mall e detalhar ações que pretendem elevar a competitividade do espaço, que se atualiza junto ao projeto de requalificação do Hipercentro de Belo Horizonte.

O Shopping Cidade está completando 35 anos. Como foi essa trajetória até os dias atuais e o que representa esse legado para a cidade?
O Shopping Cidade foi o primeiro shopping tradicional da área central de Belo Horizonte. Na inauguração, ele foi pioneiro em trazer marcas nacionais que ainda não estavam na cidade. Isso foi um marco para os mineiros. Na época, tínhamos filas para entrar no estacionamento e precisávamos fechar as vagas em vários momentos, especialmente aos sábados.
Ao longo desses 35 anos, o shopping entregou muito para a sociedade: projetos sociais, oportunidades de novos negócios e histórias afetivas entre clientes e lojistas. Temos lojistas que abriram negócios sentados na praça de alimentação, pedidos de casamento feitos no cinema e muitas outras histórias emocionantes.
Do ponto de vista ambiental, fomos o primeiro shopping de Minas Gerais a substituir toda a iluminação por LED, gerando economia de até 70% na conta de energia, e a operar com energia 100% hídrica. Também fomos pioneiros em trazer grandes exposições para a cidade, como a do corpo humano. São muitas entregas ao longo desses anos para toda a sociedade mineira.
O shopping está em uma das localizações mais densamente habitadas de BH. Como é a relação com os moradores da região?
Estar no coração da cidade é um grande privilégio e, ao mesmo tempo, uma grande responsabilidade. Além de estarmos na área central, somos cercados de prédios residenciais, o que às vezes surpreende alguns lojistas em fase de prospecção. Existe toda uma responsabilidade social, como controle de ruído e resolução de questões da operação que possam afetar a vizinhança.
Considero uma relação de muita parceria. O edifício ao lado, por exemplo, tem uma síndica que tem o telefone direto do nosso gerente de operações. Ela liga a qualquer hora e é atendida com prioridade.
Além disso, temos o projeto Melhor Cidade, com mais de 10 anos de existência, que atende mais de 100 idosos. Ele oferece aulas gratuitas de artesanato, dança, inglês e costura, além de festa junina e festa de Natal exclusivas para os participantes, realizadas aqui no shopping.
É uma alegria encontrá-los pelos corredores. Muitas pessoas de 70, 80, 90 anos com energia, vitalidade e orgulho de usar a camisa do projeto. Se a gente abrisse mais vagas, elas seriam ocupadas. A demanda existe e nós temos muito orgulho disso.

O Brasil passou por vários desafios ao longo desses 35 anos, e um dos mais intensos foi a pandemia em 2020. Como o shopping atuou para se manter relevante e vivo diante disso?
A pandemia foi um marco para todo o varejo. Belo Horizonte foi a capital que mais sofreu com as medidas de fechamento. Ficamos quase seis meses fechados, depois abrimos com horário reduzido e fechamos de novo. Eu costumo dizer que vivemos uma pandemia dentro de outra pandemia. Desmobilizar um shopping foi a primeira vez na minha vida e foi um processo muito dolorido.
Como empreendimento de administração própria, atuamos de forma rápida nas negociações com fornecedores. Foram negociações quase diárias, porque no início ninguém sabia por quanto tempo ficaríamos fechados. Atendemos todos os lojistas, um por um, com a ajuda de uma equipe que ama o que faz e que já estava no shopping havia muitos anos.
Nossa localização central, que é nossa fortaleza, virou um desafio durante a pandemia: o centro esvaziou com o home office, o que afetou muito o fluxo do almoço. O cinema foi o último segmento liberado, só em julho de 2021, com 50% da capacidade. De fato, foi em meados de 2023 que sentimos a virada de chave em relação ao impacto da pandemia.
A pandemia deixou marcas que não vão mudar, principalmente no comportamento do consumidor. Ela mexeu com toda a cadeia do varejo: marcas que antes só existiam em shopping passaram a ocupar bairros, e a venda on-line se intensificou muito, embora o Shopping Cidade já estivesse trabalhando com marketplace antes mesmo da pandemia.
O que hoje já está provado é que o on-line não mata o físico. Ele é mais um canal de venda, mas é preciso aprender a fazer essa multicanalidade funcionar. Nossa área de performance ajuda lojistas que ainda não têm essa expertise a entender como aplicar isso na operação deles.
Como vocês estudam a renovação do mix de portfólio, mantendo ao mesmo tempo marcas tradicionais que os clientes valorizam?
A renovação do mix é necessária e acontece de forma natural, às vezes até independente da nossa vontade. Trabalhamos para trazer marcas que o cliente deseja e, ao mesmo tempo, reter e apoiar marcas que já têm aderência ao público.
Temos marcas antigas, como a Lacqua di Fiori, que estão aqui por uma demanda do cliente. Mantemos um sistema de controle em que registramos as marcas sobre as quais os clientes perguntam para os vigilantes se estão no shopping. Isso é um dos nossos balizadores para o planejamento comercial.
É um equilíbrio constante: precisamos renovar, mas também precisamos manter marcas que têm mais de 30 ou 35 anos de mercado. Esse é um dos grandes desafios da nossa gestão.
Como está a taxa de ocupação do shopping e como ela se diferencia em comparação com outros shoppings?
Estamos com taxa de ocupação acima de 99%, o que, para o mercado, é um índice muito saudável. Esse resultado é fruto de uma atuação comercial forte: trazer marcas novas que o cliente quer e, ao mesmo tempo, fazer a retenção das boas marcas que já estão.
O lojista é a nossa prioridade principal. Se ele precisa de uma reunião, de atenção, de solução para um problema operacional, nossa equipe está orientada a oferecer o máximo de suporte para que ele fique livre para fazer o que precisa, que é vender. Não queremos que ele gaste tempo e energia resolvendo questões que a gente pode resolver por ele.
Quais são os desafios e as oportunidades de gerir um shopping independente no coração de Belo Horizonte?
São desafios gigantes. Temos um fluxo de mais de 60 mil pessoas por dia, quase 2 milhões por mês, dentro de uma área central com restrições de entrada para caminhões em determinados horários. A gente já não pensa fora da caixa, precisa pensar fora do universo.
Temos 22 escadas rolantes, mais de seis elevadores e banheiros em cada andar. Manter tudo funcionando exige uma equipe treinada constantemente. Nossa equipe de segurança é própria, não terceirizada, o que nos permite fazer atualizações de procedimento com muito mais agilidade. Temos funcionários com até 25 anos de casa, que são peças fundamentais na manutenção do padrão de atendimento.
Depois da pandemia, ainda tivemos que adaptar a operação para o aumento de motoboys realizando retiradas. Adequamos a doca para recebê-los com bebedouro e banheiro, porque são parceiros, são pessoas dentro da nossa estrutura, e a gente quer que todo mundo saia com a melhor experiência possível.
Uma curiosidade muito frequente é sobre como funcionam os bastidores do shopping, desde a instalação de uma loja até o recebimento de mercadorias. Como vocês organizam tudo isso?
É a mágica da noite: tudo acontece basicamente à noite. Desde a assinatura do contrato, a obra passa por uma área especializada de análise de projetos, com restrições de horário bem definidas. Durante todo o período de obra, o cliente não vê cimento, tijolo nem estrutura de ferro. Ele vê o tapume com a marca que está chegando e, quando abre, a loja está pronta.
A limpeza de escadas, estacionamento, pinturas, tudo é feito à noite, com o desafio adicional de não fazer barulho para não incomodar os vizinhos residenciais. Operações especiais, como colocar um carro no mall ou subir o Megaband para montar a árvore de Natal, exigem profissionais especializados.
O Shopping Cidade não tem galeria técnica, o que é um desafio a mais. Diferente de outros shoppings que conseguem movimentar mercadoria por corredores internos durante o dia, precisamos fazer o abastecimento pelo mall, com acompanhamento de vigilante. É uma logística muito bem desenhada e executada para garantir a constância das operações.
Essa gestão parece ter um toque muito mineiro, como a proximidade com vizinhos e a parceria com lojistas. Como você avalia esse diferencial para o shopping chegar aos 35 anos com 99% de ocupação?
O mineiro é muito receptivo e acolhedor. Quando levamos esse jeito para reuniões em outros estados, somos bem recebidos e bem lembrados. Isso abre portas de uma forma natural.
Existe o estereótipo de que o mineiro é mais difícil de fechar negócio: ele vai conversar com a esposa, com o cunhado, dá uma volta. Mas a gente, que é mineira, já sabe como lidar com isso. E às vezes até usamos isso a nosso favor.
Para mim, o grande diferencial desses 35 anos é o jeito como tratamos os lojistas: sentar para tomar um café, entender a necessidade, buscar viabilizar o que é possível dentro dos nossos limites, inclusive quando é hora de uma transição, fazendo isso da melhor forma para o lojista. Esse coração quentinho, esse jeito mineiro de fazer negócio, de receber o cliente, isso não vai mudar.
O shopping está em processo de reformulação, alinhado à revitalização do Hipercentro. Como vocês desenharam esse projeto e o que já foi feito?
Ficamos muito felizes quando a prefeitura lançou o projeto de retrofit do centro. Estamos próximos de instituições extremamente relevantes, como Palácio das Artes, Sesc Palácio, Teatro Alterosa e Minascentro, e somos parceiros dessas instituições. Quando vimos que as coisas começaram a sair do papel, como edifícios antigos sendo convertidos para uso residencial na rua São Paulo, isso nos deu força para atrair novas marcas.
Toda vez que vamos ao mercado falar do Shopping Cidade, apresentamos junto o processo de retrofit do centro, e isso atrai muito a atenção dos investidores. Em linha com esse movimento, o Shopping Cidade também tem seu próprio projeto de retrofit.
Inauguramos a sala Premiere do cinema junto com o aniversário de 35 anos. Também recebemos a expansão da Trackfield, a chegada da Milky Mouse e, no ano passado, a expansão da Centauro, que teve a primeira loja de shopping em Belo Horizonte justamente no Shopping Cidade.
]Para os próximos anos, preparamos o nosso retrofit, que já está sendo projetado, e esperamos entregar uma primeira fase no ano que vem. Como somos um shopping vertical, temos limitações de execução. Muitas obras precisam ser feitas durante o dia, e há períodos como o Natal em que a obra precisa pausar. Mas em breve todos os mineiros verão o início da transformação.
Como vocês estão se preparando para os próximos cinco anos e para chegar aos 40 anos do shopping?
O varejo muda diariamente, então a gente precisa estar não só antenada, mas com profundidade nas análises. O que funciona em outro empreendimento não necessariamente funciona para o Shopping Cidade. O pilar de serviços, lazer e entretenimento já vinha sendo trabalhado antes da pandemia e só se intensificou.
Já inauguramos, por exemplo, a Alameda de Serviços com lavanderia, lotérica realocada e um lojista de quiosque que se transformou em loja de conserto de joias e relógios. O melhor dia de movimento da lavanderia, aliás, é domingo, o que faz todo sentido, porque o Shopping Cidade é o único shopping que abre às 10h aos domingos.
Também instalamos lockers para guarda de malas e bolsas, com adesão acima da nossa expectativa. Quando há um grande show no Sesc Palácio ou no Palácio das Artes, o fluxo aqui é impressionante e contínuo.
A ideia é continuar buscando operações de serviço que resolvam as necessidades de quem mora, trabalha ou visita a região, sempre valorizando a mineiridade, com produtores e fornecedores mineiros.
Ouça a rádio de Minas