O dólar continua dominante

Entenda como a moeda influencia o comércio global e quais mudanças surgem no sistema financeiro atual
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O dólar continua dominante
Foto: Reuters/Dado Ruvic

O dólar está longe de perder sua posição central na economia global. Em abril de 2025, a moeda americana esteve em um dos lados de 89,2% das transações no mercado global de câmbio, que movimentou US$ 9,6 trilhões por dia, segundo o Banco de Compensações Internacionais (BIS). O número dimensiona a força de uma moeda que permanece no centro do comércio e das reservas internacionais, mas também provoca uma reflexão: se o dólar continua dominante, o que exatamente está mudando no sistema financeiro?

A resposta pode estar menos nas moedas e mais na infraestrutura que permite que o dinheiro circule entre diferentes mercados. Durante décadas, a movimentação internacional de recursos dependeu de redes de bancos correspondentes e processos de conversão que podem ser lentos e dispendiosos. Em uma economia na qual transações domésticas acontecem em segundos, pagamentos transfronteiriços ainda enfrentam custos e prazos incompatíveis com a realidade atual. É nesse gargalo que a transformação ganha força, impulsionada por tecnologias como blockchain e, especialmente, as stablecoins.

Longe de ameaçarem a moeda americana, os dados do BIS mostram que cerca de 98% do valor das stablecoins é denominado em dólar. A inovação, portanto, não necessariamente busca substituir a moeda dominante, mas criar novas vias para movimentá-la com mais eficiência, velocidade e menor custo.

O debate sobre o futuro das finanças frequentemente se limita a prever qual moeda ocupará o lugar do dólar. No entanto, uma transformação importante acontece de forma menos visível: a infraestrutura de circulação está mudando. Para empresas e consumidores, sobretudo em mercados emergentes, onde as barreiras do sistema tradicional pesam mais, isso pode significar pagamentos a fornecedores, remessas e gestão de liquidez mais simples e previsíveis.

Essa nova infraestrutura não elimina as instituições existentes, mas pode funcionar como uma camada de conexão capaz de reduzir fricções. Por isso, fatores como regulamentação, liquidez, segurança e interoperabilidade serão tão importantes quanto a própria tecnologia. A próxima geração de infraestrutura financeira tende a ser invisível para o usuário final: o avanço técnico acontece nos bastidores, enquanto a experiência se torna mais fluida na superfície.

O dólar pode continuar sendo a principal linguagem das finanças globais, mas a tubulação que permite a essa linguagem atravessar fronteiras já começou a mudar. Compreender essa transformação é também entender uma das próximas etapas da globalização financeira.

Hugo Rodrigues
Sobre o autor

Hugo Rodrigues

Vice-presidente & Head of Latin America da Yellow Card