Entre cartões e tarifas
O que um cartão vermelho aplicado a um jogador americano na Copa do Mundo tem em comum com as tarifas comerciais impostas ao Brasil? À primeira vista, nada. Um é futebol, o outro é comércio internacional. Um se decide em campo, o outro em gabinete. Mas basta olhar com um pouco mais de atenção para descobrir que os dois episódios compartilham exatamente as mesmas duas figuras.
A primeira é Donald Trump. Essa era fácil. A segunda, bem menos óbvia, é um brasileiro. No caso das tarifas, o Brasil inteiro. O que as tarifas comerciais impostas ao Brasil revelam vai muito além do comércio internacional. Elas ilustram um modo de exercer poder em que a decisão precede a justificativa. Primeiro escolhe-se o alvo; depois procura-se, no passado, algum motivo para explicar a punição.
O que chama atenção não é a tarifa em si, mas o método. De um lado, um homem convencido de que o mundo lhe deve obediência. Do outro, um país colocado na posição permanente de quem precisa se explicar. Pode mudar o assunto, o pretexto, mas o roteiro permanece o mesmo. Trump acusa; Brasil se defende.
Pudemos ver recentemente um claro retrato dessa realidade na Copa do Mundo, quando o presidente americano disse que o árbitro brasileiro Raphael Claus seria “um tanto suspeito”. Isso aconteceu após o profissional, que acumula dezoito anos de carreira, duas Copas do Mundo, ter expulsado, corretamente, um atacante dos EUA. Fiquei genuinamente curioso para saber o que existe no passado de um árbitro brasileiro capaz de torná-lo suspeito aos olhos da Casa Branca. Uma marcação equivocada em 2019. Um impedimento mal anulado. Ou, quem sabe, o pecado original, aquele que dispensa investigação porque já vem provado de nascença: ser brasileiro.
Porque o traço que Claus divide com a nação tarifada é precisamente esse. Não é ter feito algo errado. É ser de onde é. O brasileiro, nessa lógica, não precisa cometer falta para ser expulso, nem praticar deslealdade comercial para ser tarifado. Basta existir do lado de cá do equador e desagradar. A culpa é presumida, e o passado é apenas o lugar onde se vai procurar, depois, a prova de um veredicto já dado antes.
Vale rever a cena do cartão com calma, porque ela seria cômica se não fosse trágica. O homem mais poderoso do planeta admite ter telefonado ao presidente da Fifa para reverter a expulsão. Admite, no mesmo fôlego, que não achou que houve falta, e completa dizendo que sequer sabia o que era um cartão vermelho até aquele momento. Ou seja, a integridade do maior torneio do mundo pode agora ser revista por um telefonema de alguém que acabara de aprender as regras do jogo.
Fica a lição, que serve tanto para o gramado quanto para a balança comercial. Quando as regras passam a valer conforme o humor de um homem só, deixa de importar o que se fez e passa a importar apenas quem se é. E, se o alvo for brasileiro, já entrou em campo levando o cartão no bolso e a tarifa na conta, à espera apenas do momento em que alguma autoridade, esportiva ou aduaneira, resolva finalmente verificar o seu passado.
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