O que fazemos com tudo o que sabemos?

Conhecimento ao alcance das mãos não significa saber o que fazer com ele
Ouvir a matéria 0:00 / 0:00
O que fazemos com tudo o que sabemos?
Foto: Reprodução Adobe Stock

Durante séculos, possuir uma biblioteca foi sinal de poder. Hoje, qualquer pessoa com um celular tem acesso a mais informação do que muitos estudiosos reuniram ao longo da vida. Ainda assim, ter conhecimento ao alcance das mãos não significa saber o que fazer com ele.

Talvez uma das questões mais importantes do nosso tempo esteja justamente aí. Acumulamos dados, opiniões, imagens, pesquisas e respostas prontas, mas nem sempre conseguimos transformar esse volume em compreensão. Falta, muitas vezes, aquilo que chamo de capital criativo intelectual: a capacidade de combinar repertório, experiência, curiosidade e sensibilidade para enxergar relações ainda pouco evidentes.

Esse capital não pertence apenas às empresas, às universidades ou aos chamados profissionais criativos. Ele aparece quando uma professora encontra uma nova forma de alcançar um aluno que não aprende pelos caminhos habituais; quando um médico percebe que a história de um paciente diz tanto quanto um exame; quando um artesão preserva uma técnica antiga e a adapta a outra geração; quando uma cidade olha para sua memória antes de decidir o que pretende construir.

Em todos esses casos, o conhecimento deixa de ser conteúdo e se transforma em leitura de mundo. Ao longo da minha trajetória em finanças, aprendi a respeitar a objetividade dos números. Eles organizam escolhas e ajudam a reduzir incertezas. Também aprendi que nenhuma planilha consegue, sozinha, interpretar as contradições humanas. A decisão mais consistente costuma nascer quando a técnica encontra repertório para compreender o contexto.

Essa discussão ganha novos pontos de atenção com o avanço da inteligência artificial e suas atualizações. As ferramentas já conseguem resumir documentos, cruzar informações, reconhecer padrões e produzir respostas em poucos segundos. O ganho é inegável, a questão, então, é: que tipo de inteligência humana queremos desenvolver quando parte crescente das tarefas pode ser automatizada?

Uma sociedade que valoriza apenas a rapidez da resposta corre o risco de perder a qualidade da pergunta. E perguntas melhores exigem tempo, leitura, escuta, convivência com diferenças e contato com campos que não parecem, equivocadamente, imediatamente úteis. Arte, história, ciência, filosofia, trabalho manual, tecnologia e experiência cotidiana não ocupam compartimentos separados. É do encontro entre esses territórios que surgem novas formas de compreender um problema.

Por isso, capital criativo intelectual também é uma questão de educação e cultura. Quando uma escola reduz o aprendizado à memorização, quando a vida profissional não permite reflexão, empobrecemos justamente o recurso de que mais precisaremos para lidar com mudanças complexas.

Não basta formar pessoas capazes de repetir o que já se sabe. Precisamos formar pessoas capazes de relacionar conhecimentos, rever certezas e imaginar alternativas. O futuro não dependerá apenas de quem tiver mais informação, tecnologia ou recursos. Dependerá também de quem souber transformar conhecimento em discernimento.

Uma sociedade pode ser rica em dados e, ainda assim, pobre de imaginação e criatividade para usá-los a seu favor.

Luciana  Zanini
Sobre o autor

Luciana Zanini

Investidora e Conselheira

Rádio Itatiaia

Ouça a rádio de Minas