Inovação no Brasil: desafio é transformar ciência em competitividade
O Brasil ocupa a 53ª posição entre 139 economias no Global Innovation Index (GII) 2026, ranking da Organização Mundial da Propriedade Intelectual (Ompi) que mede a capacidade de inovação dos países. É a terceira queda consecutiva desde 2023, quando alcançamos o 49º lugar. Mas o resultado pede uma leitura mais cuidadosa do que a simples comparação de posições.
A oscilação de uma posição em relação a 2025 está dentro do intervalo de confiança do próprio índice, que, para o Brasil, vai do 49º ao 55º lugar. O País segue na 2ª colocação entre as economias da América Latina e do Caribe e, pelo sexto ano consecutivo, é reconhecido por inovar acima do esperado para o seu nível de renda. Há motivos para reconhecer o que funciona. E há motivos para não se acomodar.
O ponto mais revelador do ranking é a distância entre o que o País entrega e as condições que oferece para isso. Em resultados de inovação, que medem conhecimento, tecnologia e propriedade intelectual, estamos em 50º lugar. Em insumos, que reúnem instituições, capital humano, infraestrutura e sofisticação de mercado, caímos para o 66º lugar (éramos 58º em 2024). Em outras palavras, a ciência brasileira avança, mas o ambiente ainda não acompanha o seu ritmo.
O principal gargalo é institucional. O Brasil está em 129º lugar em ambiente de negócios e em 128º em estabilidade das políticas regulatórias. Há também um problema de conexão: ocupamos o 90º lugar em colaboração entre universidades e empresas em P&D e o 101º em graduados em engenharia e ciências exatas. Sem pessoas qualificadas e sem pontes entre a pesquisa e o mercado, o conhecimento não vira produtividade.
Os ativos, porém, são reais. Na ciência, o Brasil ocupa a 24ª posição no índice H, que combina produtividade e impacto da produção científica. No mercado, somos o 8º maior do mundo em escala, o 16º em capital de risco para empresas em fase de expansão e o 18º no uso de energia de baixo carbono. O País tem tamanho, ciência e capital. Falta alinhar o ambiente para que isso se converta em competitividade.
Isso exige ação coordenada de três atores, e nenhum deles consegue agir sozinho. Sem sintonia, o subsídio vira gasto isolado, a regulação vira entrave e o investimento privado vira exceção.
Ao governo cabe garantir previsibilidade regulatória e tributária, tornar a Lei do Bem mais ágil para alcançar médias empresas e usar o poder de compra do Estado como indutor de inovação, por meio de instrumentos como o Contrato Público de Soluções Inovadoras e as encomendas tecnológicas.
As agências de fomento, federais e estaduais, têm papel decisivo no financiamento do risco que o mercado não assume, da ciência básica à prototipagem. Precisam de mecanismos flexíveis de coinvestimento com o setor privado e de foco no adensamento de ecossistemas regionais, o que só se sustenta com orçamento previsível. Iniciativas como as unidades da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii) e os programas de apoio a ecossistemas locais ajudam a descentralizar a inovação e a conectar instituições de pesquisa ao mercado.
Às empresas cabe deixar de ser apenas usuárias de tecnologia. Isso significa coinvestir continuamente em P&D, em laboratórios conjuntos e na formação de pessoal qualificado, além de ampliar o capital de risco corporativo e os centros privados de pesquisa.
A inovação não pode ser tratada como ação isolada ou intermitente. Ela é a base de uma política de desenvolvimento que transforma patrimônio científico em produtividade, empregos qualificados e presença competitiva no mundo. O Brasil tem escala e ciência. O desafio é construir, com Estado, fomento e iniciativa privada atuando juntos, o ambiente que faça essa ciência render.
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