A linguagem magistral do ecumenismo
“O que supera o fazer e o saber é o Amor.” (Oração do Bhagavad-Gita)
Constitui motivo de alegria, para este desajeitado escriba, anotar neste acolhedor espaço o tema ecumenismo. A linguagem ecumênica está sintonizada com o autêntico sentimento do mundo. Harmonizada com o projeto da Criação. Suas raízes estão fincadas na proposta de serena beleza vinda do alto e do fundo dos tempos.
As malquerenças de cunho religioso, que desembocam em tragédias, estão em dissonância com os textos de louvor à divindade, nas diferentes culturas. É o que se deflui da leitura prazerosa de livro especial do saudoso frei Raimundo Cintra, sacerdote da paróquia de São Domingos, Uberaba, onde se acham localizados a casa matriz dos dominicanos no Brasil e um lindíssimo templo.
Cintra produziu bela antologia, enfeixando orações que exprimem a relevância do ecumenismo, magistralmente captada pela empresária cultural Rose Muraro, responsável pela seleção dos textos. Assinalando que o livro constituiu “fenômeno único” em seu itinerário de vida, Rose diz que, por meio dele, “pude perceber como todas as religiões em seus cumes místicos falam a mesma linguagem em todos os espaços e tempos: a linguagem da ligação com a totalidade.”
O título do livro é “As mais belas orações de todos os tempos”. O prefácio é de ninguém mais, ninguém menos que Tristão de Athayde. A obra é um cântico universal por onde a voz da humanidade se eleva a Deus. O próprio frei fala dos caminhos que, desde sempre, conduzem o homem a Deus: na busca do amor, da verdade e da beleza. E que a oração é uma atitude vital. Uma forma de liberação dos mais nobres impulsos da alma em direção ao Absoluto, ao Inominado, a Deus.
Nas orações da coletânea, tanto nas dos povos da antiguidade quanto nas dos povos da era moderna, o que se percebe é uma identificação bastante forte em termos de sentimentos. Algo que extrapola tempo, território, conceitos culturais, dogmas, regras, latitudes físicas e psicológicas e que torna a aventura humana uma procura amorável e fascinante de integração com o cosmos.
“Deus é aquele que sentimos em nós quando praticamos uma boa ação.” Haverá quem discorde do teor da mensagem de singela beleza dessa prece do povo iename, que povoou as terras estadunidenses?
Em suas invocações ao Altíssimo, os gregos do século VIII a.C. chamavam Zeus de rei soberano, “pai dos deuses e dos homens”. E proclamavam: “Um sinal apenas de sua fronte basta para sacudir o Universo! És justo e poderoso, punes implacavelmente os maus, fulminas os orgulhosos, recompensas os bons e os humildes.”
Neste “versículo da luz”, atribuído a Maomé, os muçulmanos expressam devoção a Alá: “Deus é a luz dos céus e da terra. Sua luz é como um nicho onde se acha uma lâmpada. E este é como um astro brilhante. Seu óleo provém de uma oliveira abençoada. Que não vem do Oriente, nem do Ocidente.”
Em louvor a Viracocha, os Incas entoavam estas palavras: “Senhor antigo, Senhor longínquo que criou todas as coisas”, dizendo: “que seja o homem, que exista a mulher, permitirá que eu possa viver em bravura, em segurança.”
O “Hino a Horus”, dos egípcios, era dos faraós, invocava o “Pastor que apascenta o rebanho”, “habita nas profundezas do céu”, rogando-lhe assegure aos homens “vida e repouso.”
Palavras assim ajudam a entender o sentido da vida. Enaltecem o ideal ecumênico, cultivado pelas mentes mais espiritualizadas ao longo da jornada humana pela pátria terrena. Assim seja!
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