Rastreabilidade da cadeia de alimentos

Confiabilidade da produção alimentícia depende do saneamento e a qualidade da água até a manipulação, a fiscalização e o consumo
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Rastreabilidade da cadeia de alimentos
Foto: Reprodução Adobe Stock

O maior surto já registrado de ciclosporíase nos EUA recolocou uma pergunta na mesa do consumidor: como confiar na salada que estamos comendo?

A ciclosporíase é uma infecção intestinal causada pelo parasita Cyclospora cayetanensis. Transmitida pela ingestão de água ou alimentos contaminados por fezes humanas, a doença provoca diarreia, cólicas, náuseas e fadiga. Os sintomas quando não tratados podem inclusive levar à morte.

De acordo com o levantamento oficial mais recente do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA são 4.173 casos confirmados em laboratório desde maio. A preocupação também pode afetar o Brasil.

Os dados oficiais mostram que surtos de doenças transmitidas por água e alimentos continuam recorrentes no país. O problema não se limita aos Estados Unidos e evidencia fragilidades conhecidas da nossa cadeia de abastecimento, desde o saneamento e a qualidade da água até a manipulação, a fiscalização e o consumo.

A resposta mais imediata costuma ser responsabilizar quem produz. Essa lógica vem sendo adotada há anos, enquanto o nível de exigência imposto ao produtor continua aumentando. O problema é que esse diagnóstico, assim como as soluções adotadas até agora, claramente não tem produzido os resultados esperados.

Há, pelo menos, quatro pontos que a cadeia de alimentos precisa enfrentar com mais honestidade. O alimento pode sair em perfeitas condições da propriedade rural e ser contaminado posteriormente. Em cadeias longas e complexas, responsabilizar apenas o produtor é uma solução conveniente, mas insuficiente.

A contaminação, ou mesmo a fraude, pode ocorrer em diferentes etapas do processo, e a responsabilidade também deveria ser compartilhada entre todos os elos da cadeia. No Brasil, isso se torna evidente em casos recorrentes de azeites fraudados e cafés impróprios, nos quais os problemas não se restringem à origem, mas envolvem falhas na mistura, no controle, na rotulagem e na circulação dos produtos até chegarem ao consumidor.

Ao mesmo tempo em que se exige mais do produtor, continua-se pagando muito pouco por aquilo que ele produz. Nos EUA, o Departamento de Agricultura (Usda) estimou que, em 2024, o produtor recebeu apenas 11,8 centavos de dólar gasto pelo consumidor com alimentos.

No Brasil, embora não exista um indicador nacional equivalente, a realidade é semelhante. Não se trata de defender menos controle, mas um controle mais eficiente, baseado em monitoramento contínuo. No fim, os dois extremos da cadeia continuam sendo os mais prejudicados.

Se quisermos responder seriamente à pergunta sobre como confiar na salada que estamos comendo, a solução não está em multiplicar exigências, mas em mudar a lógica da cadeia, o que significa fortalecer a comunicação entre os diferentes elos, ampliar a transparência e, substituir a cultura da auditoria pontual por uma lógica de melhoria contínua.

Valmir Rodrigues
Sobre o autor

Valmir Rodrigues

fundador da MyTS, plataforma de gestão da rastreabilidade da cadeia de alimentos

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