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O impulso de crédito: parte 2

Governo federal anunciou um amplo conjunto de medidas voltadas à expansão do crédito nos últimos meses
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No artigo anterior, discutimos como o conceito de impulso de crédito ajuda a entender a dinâmica da atividade econômica. A principal conclusão era simples: mais importante do que o estoque de crédito é a velocidade com que novos empréstimos entram na economia. Sob essa ótica, o Brasil vinha emitindo sinais claros de desaceleração. Mas há um novo elemento em cena.

Nos últimos meses, o governo federal anunciou um amplo conjunto de medidas voltadas à expansão do crédito. Entre elas estão a ampliação do crédito consignado para trabalhadores do setor privado, novas linhas para motoristas de aplicativos, programas de renegociação de dívidas, expansão do crédito imobiliário e financiamentos subsidiados para empresas. Juntas, essas iniciativas podem injetar cerca de R$ 150 bilhões adicionais no mercado de crédito ao longo de 2026.

A relevância dessas medidas fica evidente quando observadas pela ótica do impulso de crédito. Após atingir um pico em 2025, o indicador entrou em trajetória de deterioração, refletindo os efeitos dos juros elevados, do maior comprometimento de renda das famílias e do encarecimento das operações financeiras. Em abril deste ano, o impulso de crédito já alcançava -1,6% do PIB.

Sem as novas iniciativas, a tendência seria de aprofundamento dessa desaceleração. Estimativas indicam que o impulso de crédito passaria de -0,9% do PIB em 2025 para -1,2% em 2026. Com as medidas anunciadas, contudo, o indicador poderia melhorar para -0,3% do PIB, aproximando-se da neutralidade. Em outras palavras, o governo está tentando reacelerar o principal combustível da demanda agregada justamente quando ele começava a perder força.

Cabe destacar, porém, que grande parte dessas medidas possui caráter temporário. Menos de 30% do impacto potencial do pacote decorre de iniciativas com efeitos permanentes sobre o mercado de crédito. A maior parte depende de programas transitórios, subsídios ou liberações extraordinárias de recursos. Isso significa que o impulso gerado hoje pode se transformar em um desafio amanhã. Quando os estímulos se encerram, o impulso tende a cair novamente, trazendo consigo uma desaceleração da atividade.

Há ainda uma questão macroeconômica mais ampla. Enquanto o Banco Central mantém juros elevados para conter a inflação e moderar a demanda, o governo atua na direção oposta ao estimular consumo e crédito. Trata-se de uma combinação que pode reduzir a eficácia da política monetária e prolongar a necessidade de juros altos.

O risco, portanto, não é uma falta de crescimento em 2026. O risco é que parte desse crescimento seja antecipado às custas de um ambiente macroeconômico mais desafiador adiante. Pela lente do impulso de crédito, as medidas recentes podem, de fato, reacelerar a economia nos próximos trimestres. Mas, será que isso é tecnicamente desejável?

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