Giro pelo mundo

Da bola e do mundo redondos

Torneio mundial de futebol traz uma reflexão sobre o momento brasileiro 12 anos após sediar a competição da Fifa
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Duas notícias que movem o mundo redondo prenderam a atenção de todos: o anúncio de uma trégua no conflito Irã-EUA e a bola rolando na Copa 2026 nos EUA, México e Canadá. Os dois eventos têm em comum o fato de atingirem o mundo inteiro, de forma paradoxalmente diferente, de entretenimento a efeitos econômicos, mas também neste momento, pelos resultados incertos no seu final. O documento que sela a trégua no conflito iraniano ainda não foi divulgado e nesse jogo a invasão do Líbano por Israel também não terminou. E na Copa, a bola está rolando até o final, apostando-se muito, mas sem ter qualquer certeza de quem vai levantar a Taça.

Quem ainda se lembra da Copa de 2014 no Brasil? Provavelmente, pelo resultado final de derrota brasileira contra a Alemanha, 7×1. As diferenças conceptuais entre a Copa no Brasil e a de hoje são enormes. Para começar, enquanto o evento no Brasil foi o mais caro até hoje, a atual, mesmo disputada em 3 países por 48 seleções e em 16 cidades, custa por jogo 60 milhões de dólares, enquanto no Brasil custou 90. No Brasil houve 32 seleções, agora 48, 64 jogos, agora 104, e a Fifa recebeu da Copa brasileira 5.7 bilhões de dólares, e agora vai receber 9 bilhões.

Sem mencionar as dificuldades de movimentação entre os três países, problemas de vistos impostos pelos EUA, tanto para delegações como para visitantes, horários difíceis de seguir, o fato é que a Copa é domínio financeiro da Fifa, uma organização que depois de inúmeros escândalos equilibrou as finanças e só pensa naquilo. O show é para encher o caixa.

A reflexão sobre o que sobrou da Copa no Brasil, onde se investiu em estádios novos, alguns elefantes brancos como o de Manaus, Pantanal, Dunas e Pernambuco, obras prometidas de mobilidade e não terminadas, como o monotrilho em São Paulo, melhoria de segurança, dos aeroportos e mais e mais, ninguém quer fazer no Brasil. Não quer porque, sob uma falsa denominação de investimento que fica para sempre, gastou-se exagerado e ficou a falsa impressão da derrota final para a Alemanha, como desculpa para “vamos esquecer essa Copa”. As consequências financeiras de como manejamos os gastos estão até hoje nas finanças públicas. Nem Lula fala mais em Copa. Tudo abaixo do tapete. E o nosso futebol? Entrou numa decadência ímpar, viramos a piada melhor expressa pelos jogadores de Curaçao, que antes do jogo contra a Alemanha afirmavam que o exemplo deles era o Brasil. Foi, perderam para a Alemanha igual ao Brasil em 2014.

A bola é redonda e até o apito final tudo pode acontecer. Mas a reflexão sobre as copas que organizamos e a que está em curso, como também sobre o estágio do nosso futebol, reflete como gestionamos os recursos financeiros e humanos. Os dois parecem um desastre. No futebol perdemos a marca de excelência e referência mundial. Essa, mesmo com eventual esforço nos dias de hoje e surpresas que podem vir na Copa, será mais difícil de recuperar. Bom, o dinheiro, esse já foi.

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