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Crédito: REUTERS/Ueslei Marcelino

Aristoteles Atheniense*

O episódio que vivemos no dia 19 de abril haverá de passar à história como um dos fatos mais deprimentes, tanto pelos seus objetivos como por quem o liderou, para a vergonha da Nação.

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Não podemos confundir os discursos retóricos, que possam despertar o sentimento patriótico, com os arroubos temerários que estiolam os princípios subjacentes e norteadores das grandes causas cívicas.

O ato que reuniu algumas centenas de possessos ganhou maior repercussão com a presença de seu mentor, no discurso golpista proferido em frente ao quartel-general do Exército, desafiando os poderes da República.

O desfile de veículos trazendo em seu interior a gentalha arruaceira, que se agasalhava no pavilhão nacional, reclamava pronta e severa punição por parte dos policiais, que deveriam impedir a mazorca. Isto não aconteceu, por motivos óbvios.

Os berros e cartazes, pugnando pelo aferrolhamento do Supremo Tribunal Federal e do Congresso, denunciavam a existência de incitadores ocultos que camuflavam o seu propósito criminoso, contaminados pela turbulência sórdida que os congregava.

O movimento assumiu novas proporções na medida em que aumentava o número de vadios, fomentados pelos carros de som que lançavam aos ares clamores histéricos, atacando nominalmente os presidentes das Casas Legislativas, exaltando o alijamento político do ex-ministro Luiz Henrique Mandetta.

O evento, levado a efeito em local propício, no Dia do Exército, patrocinava abertamente o AI-5, com o restabelecimento do militarismo, sob o comando exclusivo do atual presidente da República.

Todos os ingredientes para a concentração de forças somente no Palácio do Planalto foram postos em prática, de modo a solenizar a chegada triunfal do corifeu, como se fosse César entrando em Roma.

Algumas horas antes, conforme divulgado pela imprensa, Bolsonaro, trajando camisa vermelha, reuniu-se com seus três filhos, armando o esquema que seria adotado assim que ele chegasse ao local da concentração. Seria o ápice da apoteose.

Da carroceria de uma camioneta, cercado de fiéis seguranças, Bolsonaro, embora tossindo, instigou os grupos desvairados a resistirem aos que não comungavam de seu credo. Pregou, entusiasticamente, a queda do Estado de Direito. Foi vivamente aplaudido na proposta de desfalecimento das instituições e na decantada inutilidade da mídia.

Buscava, a seu bel prazer, assumir o controle das garantias contidas na Lei Maior. O seu desvairo era tamanho que se equiparou à própria Constituição Federal, arrogando-se a possibilidade de fazer o que bem entendesse, como se estivesse exaltando a máxima “L’ etat c’est moi”.

Ante a repercussão negativa dessa conduta, que beirava a insensatez, já no dia seguinte de sua alocução, persuadido por alguns de seus antigos companheiros de caserna, desdisse o que proclamara, alegando que na véspera somente procurara combater o isolamento social, de forma a satisfazer o projeto do ministro Paulo Guedes, ou seja, impulsionando a economia com o fito de criar condições favoráveis a novos empregos.

A sua fala, a esta altura, só encontrou eco em uma falange parcialmente desiludida, que não conviveu com o AI-5, nutrindo esperança na sua volta. Negar hoje o que falara ontem, para adaptar-se a uma situação inesperada, continuará a ser a característica maior de quem persegue a reeleição de 2022.

O procurador-geral da República, Augusto Aras, embora omitindo o nome do presidente na investigação a ser feita pelo STF, sob o comando do ministro Alexandre de Moraes, não afirmou que o mandatário supremo esteja imune aos efeitos do processo já instaurado no Pretório Excelso.

O apologista do coronel Ustra é a mais trágica experiência com que passamos a conviver desde a redemocratização. Ainda que Bolsonaro já tenha incorrido em vários crimes, se constatada agora a sua participação no grave delito cometido, o inquérito que originar um processo por crime comum poderá subsidiar um eventual pedido de impeachment.

Certamente que, para isso, concorrerão seus asseclas, que o ovacionaram no último domingo. Todos sujeitos aos rigores da lei.

*Advogado, Conselheiro Nato da OAB e Diretor do IAB

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