Parceiros do Futuro

Mulheres constroem o futuro há séculos, apesar das barreiras

Da Colônia aos dias atuais, mulheres impulsionam inovação, geração de renda e desenvolvimento econômico, apesar das desigualdades históricas
Ouvir a matéria 0:00 / 0:00
Mulheres constroem o futuro há séculos, apesar das barreiras
Denise Lemos, proprietária da marca de perfumes Amakha Paris, é um exemplo do protagonismo feminino em Minas | Foto: Divulgação Amakha Paris

A construção de um futuro mais próspero e sustentável passa, necessariamente, pela ampliação do protagonismo feminino na economia. Apesar de representarem 49,7% da população mundial, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), e 51,5% da população brasileira, de acordo com o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as mulheres ainda enfrentam obstáculos que limitam seu acesso a oportunidades e reconhecimento.

Historicamente responsáveis por gerar renda, criar oportunidades e impulsionar inovação mesmo em contextos adversos, elas desempenham papel fundamental em pilares defendidos pelo projeto Parceiros do Futuro, como a diversificação econômica, a agregação de valor, a geração equilibrada de riquezas e a integração entre sociedade, setor produtivo, academia e poder público.

Muito antes de o empreendedorismo feminino ganhar espaço no debate público, mulheres já encontravam formas de produzir riqueza, sustentar famílias e influenciar o desenvolvimento econômico de suas comunidades. Em diferentes momentos da história brasileira, elas ajudaram a construir alternativas produtivas, romper dependências econômicas e criar caminhos de inovação, ainda que raramente reconhecidas por isso.

Em Minas Gerais, a história registra exemplos emblemáticos desse protagonismo. Senhoras de terras como Dona Beja, em Araxá (Alto Paranaíba), Joaquina de Pompéu, em Pompéu (Centro-Oeste), e Chica da Silva, em Diamantina (Vale do Jequitinhonha), exerceram influência econômica e política em suas regiões entre os séculos XVIII e XIX.

Sinhá Moreira
Do Sul de Minas, Sinhá Moreira, nos anos 1930, viajou o mundo e conheceu diferentes culturas | Foto: Reprodução Arquivo Sindivel

Do Sul de Minas, Sinhá Moreira, nos anos 1930, viajou o mundo e conheceu diferentes culturas. Em 1935, mudou-se para o Japão com o marido, que assumiria o cargo de primeiro-secretário da embaixada brasileira. De volta a Santa Rita do Sapucaí, em 1959, entusiasmada pelos avanços tecnológicos que testemunhou em diferentes países, fundou a Escola Técnica de Eletrônica Francisco Moreira da Costa (ETE FMC), primeira escola técnica de eletrônica de nível médio da América Latina e uma das instituições que ajudaram a consolidar o atual Vale da Eletrônica.

Protagonistas invisíveis da economia, mulheres seguem construindo o futuro

Mas a construção de um futuro próspero e sustentável, objetivo do projeto Parceiros do Futuro, passa pelo empreendedorismo feminino desde o início da história do Brasil.

No Brasil Colônia, as mulheres já empreendiam. Escravas, chamadas ganhadeiras, e mulheres brancas pobres fabricavam e vendiam produtos nas ruas das cidades, garantindo recursos para a sobrevivência de suas famílias e, no caso das escravizadas, a compra da própria alforria e de outros membros da comunidade.

De acordo com o pesquisador sênior da Universidade do Estado do Maranhão (Uema) e professor aposentado da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Luiz Carlos Villalta, embora o termo empreendedorismo não se aplique integralmente a uma sociedade escravista, com pouca mobilidade social e na qual a desigualdade de direitos fazia parte do ordenamento jurídico, essas mulheres, negras e brancas, não eram minoria e tinham peso na economia cotidiana daquela sociedade, embora invisibilizadas.

Nos tempos em que Minas Gerais abastecia a Europa de ouro e o dinheiro corria pelas ladeiras da província, mulheres obrigadas pela necessidade própria e de suas famílias sustentavam 35% dos domicílios da antiga Vila Rica, atual Ouro Preto (região Central), na primeira década do século XIX.

“A escravidão tira a possibilidade do empreendedorismo, mas isso não impede que reconheçamos que havia mulheres vivendo fora do guarda-chuva masculino. Um recenseamento em Vila Rica, em 1804, revelou as ‘chefes de fogo’, mulheres que, com os homens ausentes, tinham alguma fonte de renda para subsistir e pessoas sob sua guarda. Elas estavam na categoria dos ‘desclassificados’, os que não eram senhores nem escravos, e aquela sociedade via com muito maus olhos essas pessoas”, explica Villalta.

Ainda que a tecnologia e os hábitos tenham mudado substancialmente nos últimos 220 anos, a lógica que subalterniza as mulheres continua vigente, com salários menores do que os dos homens, assédio constante, maior dificuldade para ascensão na carreira, entre outros aspectos.

No país onde micro e pequenas empresas lideradas por mulheres sustentam lares e comunidades, as pesquisas anuais realizadas pelo Laboratório de Gênero e Empreendedorismo do Instituto Rede Mulher Empreendedora (IRME) traçam um diagnóstico consistente: empreender no Brasil é, para a maioria das mulheres, tanto um ato de autonomia quanto uma estratégia de sobrevivência diante de um mercado de trabalho que ainda marginaliza mães, negras e profissionais de baixa escolaridade.

As pesquisas mostram um perfil majoritariamente jovem-adulto e de baixa renda. Grande parte das empreendedoras concentra-se entre 30 e 49 anos e mora nas regiões Sudeste e Nordeste. Em 2023 e 2024, as análises apontaram alta presença de mulheres negras entre as respondentes e uma fatia substancial com escolaridade até o ensino médio, padrão que converge para rendas médias modestas. Em 2025, por exemplo, a renda média reportada ficou em torno de R$ 2,4 mil mensais. Muitas respondentes são chefes de família e sustentam outras pessoas com essa renda.

Inovação e propósito impulsionam trajetória de empreendedora mineira

Mesmo com as estatísticas demonstrando que a sociedade brasileira ainda tem um longo caminho para oferecer oportunidades parecidas para homens e mulheres, elas continuam trabalhando para um futuro melhor e ajudam a sustentar os pilares do Parceiros do Futuro:

  • Diversificação econômica, superação da dependência do extrativismo e agregação de valor a produtos, serviços e cadeias produtivas;
  • Tecnologia verde e regeneração, com linhas de crédito especiais e produtos de alto valor agregado;
  • Geração de riquezas de forma equilibrada, com o fomento à integração entre academia, setor produtivo, governo e sociedade civil.

Nascida em Passos (Sul de Minas), Denise Lemos já se mostrava uma empreendedora desde a infância, com as “vendinhas” de bonecas e as barracas de suco na calçada dos avós, no interior mineiro. Na adolescência, financiava seu lazer vendendo chocolates nos intervalos de eventos religiosos. Aos 19 anos, mergulhou de vez no atacado ao gerenciar um box de frutas no Ceasa de Campinas (SP). Foi lá, num ambiente majoritariamente masculino, que ela teve sua grande escola de negócios.

Impulsionada pela maternidade, uma crise financeira e bastante experiência com a venda de diferentes produtos, ela fundou, em 2017, Amakha Paris, marca brasileira de perfumes criada para tornar a perfumaria de qualidade acessível. A marca tem um portfólio de mais de 120 fragrâncias, além de linhas capilar, corporal e nutracêutica.

“Eu vendia doces e tinha uma grande base de clientes, mas entendi que precisava de um produto não perecível e que não precisasse ser produzido por mim. Troquei os doces pelos perfumes, vendendo para a mesma base de clientes. Me encantei por esse universo e passei a visitar as fábricas e a estudar até passar a dar treinamentos pela empresa”, relembra Denise Lemos.

Mais do que um novo negócio, a empresária apostou em inovação: o perfume de 15ml, ideal para levar na bolsa e no bolso, como carro-chefe. A escolha foi estratégica: oferecer produtos de alta qualidade a preços acessíveis, permitindo que o consumidor tenha fragrâncias premium sem o alto custo de um frasco grande e possibilitando que milhares de pessoas também pudessem empreender. Ainda assim, não escapou das críticas que diziam que o produto era uma amostra e não um perfume. O sucesso foi a resposta da empreendedora.

Denise Lemos
Ao transformar uma experiência pessoal de superação em oportunidade de negócio, Denise Lemos criou uma rede que alia inovação, geração de renda e inclusão produtiva; hoje, a empresária defende o empreendedorismo como ferramenta para ampliar a autonomia financeira e fortalecer o desenvolvimento econômico e social | Foto: Divulgação Amakha Paris

Com uma equipe interna composta majoritariamente por mulheres, Denise Lemos criou o Programa Divas, focado em capacitar e inspirar lideranças femininas e criar uma receita extra para centenas de famílias brasileiras.

“Fizemos parcerias com casas de fragrâncias internacionais e criamos um perfume inovador de bolso, com alta concentração de essências importadas. Também fizemos um plano de negócios para as revendedoras, com valor de investimento baixo. Criamos a loja do revendedor e, assim, a rede crescia muito rápido pela qualidade e pela democratização da perfumaria fina. Assim como a Cacau Show e a Chilli Beans democratizaram o acesso a produtos finos de alto custo. Em 2019, criamos o Divas. Sei as dores de uma mulher para entrar no mercado, de ter que dar conta de todos os outros papéis sociais que ocupamos. Hoje me orgulho de cada recomeço. Eles me permitiram hoje apoiar milhares de mulheres a serem independentes”, conclui a fundadora da Amakha Paris.

Intraempreendedoras promovem desenvolvimento e inovação

O empreendedorismo feminino não está ligado, necessariamente, à propriedade de um negócio. Muitas mulheres já aprenderam que é possível ser inovadora mesmo sendo empregada e, assim, promover o desenvolvimento do negócio, o seu próprio e o de outras mulheres.

Em Confins, na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), a gerente administrativa, financeira e de Pessoas do Aeroporto Internacional de Belo Horizonte (BH Airport), Dardânia Leite, desafia um dos setores mais masculinizados da economia: a aviação civil.

Desde que deixou uma carreira consolidada no setor farmacêutico, ela ocupou posições estratégicas como gestora administrativa e da Qualidade, coordenadora de Novos Negócios em Ciências da Vida e Quality Coordinator, consolidando uma carreira marcada por visão sistêmica e foco em resultados no BH Airport.

“Enfrentei muita resistência, principalmente quando comecei a ocupar cargos mais importantes no setor farmacêutico. Mas meu pai me ensinou que trabalho não tem gênero. Ele era um pecuarista que teve quatro filhas. Então, ele nos ensinou que trabalho tem a ver com responsabilidade, postura e competência e foi com base nisso que eu sigo. Além da capacitação, eu tenho como ferramenta a minha postura. Eu não deixo de me posicionar, mesmo quando o mais cômodo é me manter calada. Mas isso não é fácil, exige coragem e perseverança”, afirma Dardânia Leite.

Dardânia Leite
Dardânia Leite: ele nos ensinou que trabalho tem a ver com responsabilidade, postura e competência | Foto: Divulgação BH Airport

Empreender dentro de um negócio que não é seu foi a opção da executiva que conta com uma liderança que entende a diversidade como um pilar do negócio e promove a inserção de mulheres em toda a estrutura do empreendimento.

“Entendo que empreender dentro de uma empresa ou no próprio negócio não é diferente. No BH Airport, encontrei um espaço de valorização da presença feminina e para a atuação estratégica da mulher. A liderança tem um papel fundamental para a empresa ir além do discurso. Acredito que a gente ainda tem muito para andar, porque as pessoas não enxergam o quanto a mulher tem para contribuir. A grande vantagem que a mulher tem é construir um ambiente mais diverso. Ela consegue aliar a questão da estratégia e do resultado com uma visão mais humana, trazendo equilíbrio para as relações e para o negócio”, completa a gerente administrativa, financeira e de Pessoas do BH Airport.

Rádio Itatiaia

Ouça a rádio de Minas