Aliados de Lula propõem a construção de pontes entre os governos federal e de Minas

Governador eleito de Minas, que apostou em vitória de Flávio Bolsonaro para renegociar dívida de cerca de R$ 180 bi com a União, agora corre risco de não pagar funcionalismo em fevereiro
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Aliados de Lula propõem a construção de pontes entre os governos federal e de Minas
Fotos: Divulgação/ Republicanos | Gil Leonardi/ Imprensa MG

Com a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), nesse domingo (25), o governador eleito de Minas Gerais, Cleitinho Azevedo (Republicanos), vai precisar dialogar com o Palácio do Planalto a partir de 2027 para viabilizar seu governo. Aliados próximos de Lula, responsáveis, inclusive, pela coordenação de sua campanha no Estado, se dispuseram a construir pontes e intermediar o diálogo entre o Palácio Tiradentes e o Planalto. Em pauta, a dívida de Minas com a União e o déficit projetado para 2027.

O problema é político, uma vez que Cleitinho declarou apoio ao adversário de Lula no segundo turno, o senador Flávio Bolsonaro (PL), na certeza de que, se ele ganhasse, faria a revisão da dívida. Em vídeo gravado com Cleitinho, Flávio se comprometeu a renegociar e a converter pagamentos em investimentos no Estado. Agora que Lula ganhou, outras conversas terão que acontecer. E é nesse cenário que aliados do presidente Lula prometem entrar em campo.

Para a deputada federal eleita Gleide Andrade (PT), uma das coordenadoras da campanha de Lula no segundo turno e secretária nacional de Finanças do PT, o recado de Lula na avenida Paulista durante seu discurso após a eleição foi claro. O presidente prometeu que vai trabalhar para pacificar o País e governar para todos. “Esse recado com certeza serve para Minas. O presidente Lula sabe que os problemas que Cleitinho tem nas mãos não foram causados por ele, apenas herdados, e por isso acredito que ele vai acolher, ajudar e estender a mão para o governador, independente de diferenças político-partidárias”, afirma.

“Como deputada federal eleita, quero muito poder contribuir para a reconstrução do Estado para que os servidores mineiros não corram o risco de ficar sem salário”, assinala. Gleide se colocou como parceira do governo mineiro para construir pontes e lembrou que sempre foi uma pessoa de diálogo. Ela chegou a citar o a relação com o irmão de Cleitinho, então prefeito de Divinópolis, Gleidson Azevedo (Republicanos), para levar o Hospital Regional para o município. “Não sou extremista e não faço política de lacração para as redes sociais. O governador Cleitinho pode ter certeza de que o presidente Lula vai recebê-lo a hora que ele quiser. O problema de Minas é gigantesco e, por isso, teremos que unir todas as forças a favor de Minas e dos mineiros”, completa. Para ela, não é um problema localizado, mas uma herança antiga, passivo que aumentou substancialmente nos oito anos do governo Romeu Zema (Novo).

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O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, reforçou a linha republicana. Segundo ele, o trabalho no segundo turno em Minas foi mostrar a prefeitas e prefeitos tudo que o governo Lula fez nos últimos quatro anos sem distinção partidária. “Mostramos que as entregas e os programas não faziam distinção por partido ou apoio político. Mostramos como um governo republicano trabalha para todos, e isso não foi diferente nos estados”, afirma. “E o resultado na eleição, a vitória histórica que tivemos em Minas, mostrou o reconhecimento do povo mineiro. Vou continuar trabalhando nesta interlocução do governo federal com o governo mineiro para buscar soluções e caminhos para resolver esses problemas”, completa Silveira.

Já o deputado federal reeleito Rogério Correia (PT), vice-líder do governo na Câmara, disse que também vai atuar diretamente como intermediário para ajudar Minas a renegociar a dívida com a União. A avaliação dele é que o Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag) foi um passo importante, mas precisa ser revisto. “Vamos trabalhar para promover esse diálogo tão necessário entre o presidente Lula e o governador Cleitinho. Estamos abertos para ajudar nessa interlocução, apesar das diferenças políticas e ideológicas. O presidente Lula sempre fala que o nosso compromisso é com o povo de Minas Gerais”, diz. Correia afirmou que essa relação já foi muito difícil por causa do ex-governador Romeu Zema que não queria conversar com o presidente Lula.

A senadora eleita Marília Campos (PT), que também trabalhou na coordenação da campanha de Lula em Minas neste segundo turno, tem feito a mesma leitura nos bastidores: só com bancada unida (federal e estadual) será possível garantir que Minas não pare em 2027. Ele também defende a revisão do Propag e se coloca como interlocutora para ajudar o governo de Minas a sair das dificuldades.

Dívida de R$ 180 bilhões pressiona as contas de Minas

O Estado tem uma dívida da ordem de R$ 180 bilhões com a União no âmbito do Propag, aderido em 31 de dezembro de 2025 pelo então governador Zema. O acordo firmado prevê o pagamento de parcelas mensais que já comprometem o caixa do Estado. Desde a adesão, Minas pagou R$ 1,03 bilhão à União, sendo R$104,5 milhões só na décima parcela em 15 de outubro. O governo ainda ofereceu R$ 35,8 bilhões em ativos, para quitar 20% do débito, mas aguarda o aceite de Brasília sobre quais bens serão aceitos.

A situação é dramática. O projeto da Lei Orçamentária Anual de 2027 encaminhado pelo governador Mateus Simões (PSD) à Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) revisou o déficit de R$ 8,87 bilhões para R$ 10,51 bilhões – mais que o dobro dos R$ 5,22 bilhões previstos para 2026, com despesas de R$ 155,50 bilhões para receita de R$ 144,99 bilhões. Se o governador não negociar com o governo federal, corre o risco de não pagar o funcionalismo já em fevereiro de 2027.

A reportagem procurou integrantes da equipe de transição do governador eleito para se posicionarem, mas sua assessoria respondeu que “não vamos falar sobre isso hoje”. O espaço segue aberto para o caso de algum integrante da equipe de Cleitinho se manifestar.

Sobre o autor

Ana Karenina Berutti

Repórter do Diário do Comércio. Graduada em Jornalismo e mestre em Letras pela PUC Minas. Experiência de 30 anos em cobertura política e econômica.