Política

Aliados de Lula pedem aos EUA investigação sobre relação de Vorcaro com família Bolsonaro

Em Washington, deputados aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva solicitaram que parlamentares democratas investiguem uma suposta rede financeira ligada ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro
Aliados de Lula pedem aos EUA investigação sobre relação de Vorcaro com família Bolsonaro
Foto: Divulgação Banco Master

Em Washington, deputados aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva solicitaram que parlamentares democratas investiguem uma suposta rede financeira ligada ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro que teria operado em território norte-americano em benefício de integrantes da família Bolsonaro, entre eles o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro.

No documento assinado por Pedro Uczai (PT-SC), Pedro Campos (PSB-PE), Jandira Feghali (PCdoB-RJ) e André Janones (Rede-MG), o foco central do pedido é uma suposta conexão entre recursos ligados a Vorcaro, estruturas financeiras relacionadas à Reag Investimentos e atividades atribuídas a Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.

Com maioria republicana na Câmara e no Senado, um pedido de abertura de investigação desse tipo tem poucas chances de avançar neste ano. No entanto, as eleições legislativas norte-americanas de 2026 poderão alterar a composição do Congresso.

Além disso, investigações conduzidas pelo Legislativo costumam se concentrar principalmente em ações do Poder Executivo, e não em casos de corrupção envolvendo empresas privadas.

Nessas situações, os parlamentares poderiam solicitar ao Departamento de Justiça que conduzisse uma apuração. Há, porém, outro obstáculo: esse tipo de iniciativa tende a ter maior peso político quando parte de congressistas alinhados ao partido do presidente dos Estados Unidos.

À Folha, o deputado democrata Jim McGovern, de Massachusetts, que se reuniu com os parlamentares brasileiros na manhã desta quinta-feira (4), afirmou que o encontro foi positivo. Segundo ele, é “muito solidário a muitas das preocupações que eles levantaram” e pretende manter o diálogo com o grupo.

Sobre o pedido de investigação, McGovern afirmou que não tem poder para abrir uma apuração, mas disse que os fatos relatados representam “claramente problemas de grande preocupação para mim”.

O parlamentar também declarou que, durante a reunião, houve consenso de que “a corrupção, seja no Brasil ou nos EUA, precisa ser denunciada”. Em relação às eleições brasileiras, afirmou que cabe aos brasileiros decidir o próprio futuro e que “isso não cabe aos EUA”.

Os deputados sustentam que o pedido se baseia em informações públicas, reportagens jornalísticas, documentos e investigações em andamento no Brasil. Ao longo de oito páginas, o texto argumenta que existem elementos suficientes para justificar a análise de movimentações financeiras, contratos, empresas, fundos de investimento, escritórios de advocacia e estruturas corporativas submetidas à jurisdição norte-americana.

Segundo os autores, uma das hipóteses a serem investigadas é a existência de um fluxo financeiro que teria partido de estruturas ligadas ao Banco Master, controlado por Vorcaro, e alcançado empresas ou prestadores de serviços nos Estados Unidos, com eventual benefício direto ou indireto a Eduardo Bolsonaro.

De acordo com reportagem publicada pelo Intercept Brasil, Flávio Bolsonaro teria solicitado recursos a Vorcaro para a produção do filme “Dark Horse”, sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro. Em áudios divulgados pela imprensa, o senador aparece fazendo o pedido.

A Polícia Federal investiga se repasses realizados por Vorcaro, por meio da Entre Investimentos e do fundo Havengate, sediado nos Estados Unidos, foram utilizados para custear despesas de Eduardo Bolsonaro, que vive no país desde o ano passado.

O documento também menciona suspeitas envolvendo fundos ligados à Reag Investimentos e cita investigações sobre possíveis esquemas de lavagem de dinheiro relacionados ao Primeiro Comando da Capital (PCC). Os deputados pedem que autoridades norte-americanas verifiquem se recursos oriundos desse ambiente financeiro foram utilizados para financiar atividades políticas, jurídicas, de comunicação ou de lobby nos Estados Unidos.

Ao mesmo tempo, os parlamentares ressaltam que não atribuem responsabilidade criminal definitiva a qualquer pessoa. Segundo eles, o objetivo é solicitar a abertura de procedimentos capazes de confirmar ou descartar as suspeitas apresentadas.

O documento pede a análise de registros bancários, contratos, comunicações empresariais, estruturas societárias, beneficiários finais de pagamentos e eventuais relatórios de atividades suspeitas sob jurisdição norte-americana. Os deputados também defendem a preservação imediata de documentos e a cooperação entre autoridades dos dois países.

Outro trecho relaciona a atuação política de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos a possíveis tentativas de pressão sobre autoridades brasileiras. Os autores argumentam que, caso atividades políticas ou campanhas de comunicação no exterior tenham sido financiadas com recursos de origem ilícita, a jurisdição norte-americana poderia ter sido utilizada para ocultar ou projetar internacionalmente esses recursos.

Os parlamentares também citam a mobilização recente de aliados de Jair Bolsonaro para que o governo de Donald Trump classificasse facções criminosas brasileiras como organizações terroristas. Segundo o texto, é necessário investigar se iniciativas desse tipo tiveram impacto sobre mecanismos de cooperação internacional voltados ao combate à lavagem de dinheiro e ao crime organizado.

Na semana passada, Eduardo Bolsonaro, Flávio Bolsonaro e o blogueiro Paulo Figueiredo estiveram na Casa Branca para uma reunião com Trump. Segundo eles, a principal demanda apresentada foi o pedido para que o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) fossem classificados como organizações terroristas. A designação foi anunciada na semana passada e será formalizada nesta sexta-feira (5).

Nesta semana, o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) concluiu uma investigação iniciada há um ano sobre supostas práticas de concorrência desleal envolvendo o Brasil, incluindo questionamentos relacionados ao Pix e à regulação das big techs. Outra investigação aberta neste ano também apontou falhas do País no combate ao uso de trabalho forçado.

Diante desse cenário, o USTR propôs a aplicação de uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros. A decisão final cabe ao presidente Donald Trump, que tem até 15 de julho para se manifestar. Em razão da proximidade entre a conclusão das investigações e a visita de Flávio Bolsonaro aos Estados Unidos, integrantes do governo Lula atribuem a medida ao senador.

Flávio, entretanto, negou ter feito qualquer solicitação nesse sentido às autoridades norte-americanas e informou ter enviado ao secretário de Estado, Marco Rubio, um pedido para que os Estados Unidos não imponham tarifas ao Brasil.

A congressista norte-americana Sydney Kamlager-Dove, copresidente da Bancada do Brasil (Brazil Caucus), afirmou à reportagem que analisará o pedido de investigação relacionado ao caso Vorcaro e às suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo integrantes da família Bolsonaro.

Durante reunião com os parlamentares brasileiros, Kamlager-Dove destacou que havia tomado conhecimento das denúncias naquele momento, mas avaliou que o pedido “faria sentido” diante do histórico de seu comitê, que já realizou audiências sobre corrupção no Brasil e ataques ao Supremo Tribunal Federal (STF).

A parlamentar ressaltou que a possível utilização do sistema financeiro dos Estados Unidos para atividades consideradas impróprias é uma questão de interesse público internacional.

“Se bancos dos EUA estiverem de alguma forma envolvidos em algo ilegal ou impróprio, o povo americano e o brasileiro precisam saber”, declarou.

Além da questão da corrupção, Kamlager-Dove afirmou ter discutido com a comitiva brasileira temas como integridade eleitoral, proteção da democracia e preocupações com tarifas comerciais, traçando paralelos entre os desafios políticos enfrentados pelos dois países diante do avanço da extrema direita.

Conteúdo distribuído por Folhapress

Rádio Itatiaia

Ouça a rádio de Minas