Controle e fiscalização das fake news com uso de IA são desafio das campanhas

A dificuldade de lidar com o problema pode se ampliar com o avanço da tecnologia

2 de fevereiro de 2024 às 21h35

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Crédito: Adobe Stock

São Paulo – O avanço da inteligência artificial desenha um cenário desafiador em relação ao combate à desinformação nas eleições de 2024. Ferramentas para a produção de deepfake, que permite a criação de vídeos e áudios falsos, por exemplo, estão mais acessíveis e modernas, com resultados que podem confundir até os mais treinados.

Além do avanço na tecnologia, as eleições deste ano se destacam das últimas eleições nacionais em outro aspecto: o pleito pulverizado em mais de 5,5 mil municípios dificulta a fiscalização.

As últimas eleições no Brasil já foram marcadas pelo desafio de combater as fake news nas campanhas, que por vezes envolviam meramente informações descontextualizadas.

Para especialistas, embora a desinformação associada à política não seja novidade, a dificuldade de lidar com o problema pode se ampliar com o avanço da tecnologia, capaz de deixar um número maior de eleitores em dúvida sobre o que é mentira ou verdade.

Segundo o doutor em Ciência da Computação pelo University College London, do Reino Unido, e professor emérito da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Alberto Ferreira de Souza, 2023 foi um ano divisor de águas no desenvolvimento de softwares de deepfake.

“As imagens se tornaram quase indistinguíveis [das reais]”, afirma. “Não se pode mais acreditar no que se ouve ou vê nos dispositivos eletrônicos. É preciso pesquisar e não sair compartilhando, por mais que pareça real”, aconselha.

A diretora do Instituto de Referência em Internet e Sociedade (Iris), Paloma Rocillo, afirma que o uso de inteligência artificial na elaboração de fake news as tornam mais sofisticadas, o que dificulta a checagem de conteúdos manipulados.

“Faltam ferramentas automatizadas de identificação de conteúdos fabricados com o uso de inteligência artificial. Considerando que o volume de conteúdos que circula na rede é muito grande, a inexistência dessas ferramentas prejudica bastante a contenção dos impactos de viralização. Mesmo a identificação por humanos é bastante difícil devido à verossimilhança”, observa.

Caso real

Exemplifica a preocupação com as deepfake nas eleições de 2024 um caso investigado pela Polícia Federal (PF) do Amazonas desde dezembro passado.

De acordo com a instituição, uma análise de áudio comprovou a manipulação por meio de inteligência artificial de um áudio atribuído ao prefeito de Manaus, David Almeida (Avante), que buscará a reeleição.

No conteúdo divulgado nas redes sociais, uma voz atribuída a Almeida insulta professores da cidade.

Dois suspeitos foram identificados. O caso foi noticiado pelo jornal O Globo.

Segundo a PF do Amazonas, a investigação segue em sigilo. O uso da tecnologia para criar fake news nas campanhas, inclusive de candidatos em pré-campanha, configura crime de difamação eleitoral, com pena de detenção, comunicou a PF.

Para o diretor do Instituto Vero e especialista em inteligência artificial e desinformação, Caio Machado, o pleito de 2024 traz como desafio a fiscalização.

“Estamos falando de mais de 5 mil municípios no País, fácil acesso a celular e recursos financeiros mais abundantes em razão do período de campanha. Como fiscalizar isso? Por mais que as autoridades estejam empenhadas, acredito que não vão dar conta”, diz.

Outro aspecto que torna desafiador o cenário, segundo a diretora do InternetLab, Heloisa Massaro, é a capacidade de fiscalização da imprensa nas diferentes cidades do País.

“Como as eleições municipais são mais pulverizadas, não há uma cobertura midiática sobre todas as campanhas. Muitos lugares no Brasil são basicamente desertos de notícias, sem veículos de mídias locais robustos e imparciais”, analisa.

Corte especializada

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) tem tentado atuar em relação à desinformação nas eleições. Em discurso na abertura dos trabalhos do tribunal na última quinta (1º), o presidente da corte, Alexandre de Moraes, disse que a “perigosa utilização de inteligência artificial” se tornou um dos grandes riscos da campanha.

O tribunal está tratando a temática por meio de alteração da resolução sobre propaganda eleitoral. Na minuta da resolução, uma das propostas é instituir a obrigatoriedade de informar o uso de tecnologias digitais “para criar, substituir, omitir, mesclar, alterar a velocidade, ou sobrepor imagens ou sons, incluindo tecnologias de inteligência artificial” na propaganda eleitoral.

Há a especificação de que a obrigação se refere à criação ou edição de conteúdo sintético que “ultrapasse ajustes destinados à melhoria da qualidade da imagem ou som”.

A minuta, debatida em audiência pública no dia 25 de janeiro que contou com a presença de entidades, especialistas, advogados e representantes de empresas, ainda vai ser submetida a análise do plenário do TSE, o qual deve aprovar os normativos até o dia 5 de março.

Durante o evento para recebimento de sugestões, representantes de plataformas como Google e Meta afirmaram que as empresas estão empenhadas no combate às fake news, mas defenderam que a resolução saliente que a responsabilidade pelas informações é dos produtores de conteúdo. (Ana Gabriela Oliveira Lima)

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