Escândalo da vacina desgasta o governo Bolsonaro

3 de julho de 2021 às 0h15

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Crédito: REUTERS/Ueslei Marcelino

Brasília – O presidente Jair Bolsonaro está entre a cruz das ameaças de impeachment e a espada do apoio público declinante enquanto escândalos de corrupção envolvendo acordos de compra de vacinas contra Covid-19 rondam seu governo.

Por um lado, se denunciar aliados do Congresso ligados a supostas tentativas de lucrar com encomendas de vacinas, Bolsonaro arrisca perder o apoio do grupo volúvel de partidos do centrão aos quais se aliou para garantir que as iniciativas de impeachment naufraguem.

Por outro, se escolher proteger políticos atingidos por escândalos e seus partidos, Bolsonaro pode ficar maculado por acusações de corrupção antes da eleição presidencial do ano que vem – e já está em baixa nas pesquisas.

O escândalo envolvendo a vacina indiana contra Covid-19 Covaxin, no qual aliados de Bolsonaro são acusados de fazer pressão indevida em autoridades do Ministério da Saúde para acelerarem a compra do imunizante, torna-se um pesadelo para o presidente, em parte porque ele supostamente envolve o líder do governo na Câmara dos Deputados, Ricardo Barros (PP-PR).

Bolsonaro e Barros negam qualquer irregularidade.

As acusações dão aos oponentes de Bolsonaro ampla munição para atacá-lo, e a dependência do presidente das siglas de centrão, das quais vários líderes enfrentam investigações de corrupção, desmente a promessa de campanha de limpar a política brasileira que o elegeu em 2018.

“Bolsonaro caminha para um processo contínuo de enfraquecimento. É difícil ainda dizer se isso pode possibilitar a abertura de um processo de impeachment, mas tende a fragilizá-lo na disputa eleitoral”, disse o cientista político da Fundação Getulio Vargas, Claudio Couto.

Mais de meio milhão de brasileiros já morreram de Covid-19, e mesmo assim o Brasil está atrás de muitos outros países na vacinação – só 11,8% de sua população está totalmente inoculada, o que torna as alegações de corrupção a respeito de encomendas de vacinas particularmente prejudiciais para o presidente.

A CPI da Covid do Senado descobriu uma suposta corrupção envolvendo elementos do Ministério da Saúde e parlamentares pró-Bolsonaro acusados de tentar pagar a mais pela Covaxin.

É improvável que o inquérito derrube Bolsonaro, mas produz manchetes diárias que aumentam as percepções públicas de incompetência e suspeitas de corrupção no governo.

Na sexta (2), após pedido de três senadores da oposição, a Procuradoria-Geral da República (PGR) pediu a investigação de Bolsonaro por prevaricação. Os parlamentares argumentam que o presidente não tomou providências após ser alertado sobre supostas irregularidades envolvendo a Covaxin.

Na quarta-feira (30), o Ministério da Saúde anunciou a exoneração do cargo do então diretor de Logística da pasta, Roberto Dias, após ele ser acusado de pedir propina para fechar um outro acordo de compra de vacinas contra a Covid-19.

Também na quarta, parlamentares de todo o espectro político, grupos sociais e advogados apresentaram um “superpedido” de impeachment coletivo, combinando dezenas de pedidos anteriores que o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), outro aliado de Bolsonaro, ignorou.

Alguns políticos começam a desertar o centrão que blinda Bolsonaro.

Gilberto Kassab, ex-prefeito de São Paulo e presidente do PSD, o fez no mês passado, cogitando apresentar um candidato presidencial próprio no ano que vem.

Popularidade em queda – Uma pesquisa publicada na semana passada pelo instituto Ipec mostrou que a desaprovação ao governo Bolsonaro subiu para 49%, mais do que o dobro da taxa de aprovação de 24%. O Ipec confirmou outras sondagens que mostram que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva derrotaria Bolsonaro facilmente se a eleição presidencial do ano que vem acontecesse agora.

“Agora, com a popularidade declinante e com os recursos também minguantes do governo cada vez menores, pode ser que o centrão mais na frente o abandone, porque já fez isso no passado”, opinou Carlos Melo professor e cientista político do Insper.

Os casos anteriores de impeachment no Brasil são Fernando Collor, que renunciou para evitá-lo em 1992, e Dilma Rousseff, do PT, afastada do cargo em 2016.

Melo diz que Bolsonaro buscou blindagem com o centrão no momento em que Fabrício Queiroz – ex-assessor do senador Flávio Bolsonaro, filho do presidente-  foi preso o ano passado e ele estava pressionado.

“Bolsonaro é mais dependente do centrão que o centrão dele. É um jogo de interesses. Enquanto Bolsonaro tiver algo a dar –cargos, recursos– isso tende a continuar. Quando não ha mais nada a dar do ponto de vista fisiológico, e quando esse projeto de poder parece entrar em perigo, o centrão muda de barco, e adere rapidamente a outro projeto de poder. Não seria a primeira vez”. (Reuters)

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