Papa Leão XIV critica a fome em meio ao avanço tecnológico: “É intolerável que o pão seja considerado um privilégio”

Ouvir a matéria 0:00 / 0:00
Papa Leão XIV critica a fome em meio ao avanço tecnológico: “É intolerável que o pão seja considerado um privilégio”
Foto: Reprodução/Wikimedia Commons

O Papa Leão XIV aproveitou o Dia Mundial da Alimentação no último dia 16 para criticar a persistência da fome durante uma cerimônia oficial realizada na sede da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, a FAO, em Roma.

O documento assinado pelo pontífice destacou a contradição entre a fome e os avanços tecnológicos sem precedentes. O arcebispo Fernando Chica Arellano, observador permanente da Santa Sé junto à FAO, leu o texto durante o Fórum Mundial da Alimentação, realizado de 8 a 16 de outubro para repensar os sistemas agroalimentares do planeta.

A mensagem foi dirigida ao diretor-geral da FAO, Qu Dongyu, e assinada em 12 de outubro, um dia antes de o Papa ser internado no Hospital Gemelli para a cirurgia de remoção de um adenocarcinoma pulmonar.

Uma crise antropológica, não técnica

Para o Pontífice, o mundo vive um paradoxo: o progresso avança rápido, mas a fome e a pobreza persistem. Ele descreveu essa contradição como uma crise antropológica e ética, e não como um problema técnico ou financeiro a ser resolvido com mais dinheiro ou tecnologia.

A falta de vontade política e de solidariedade coletiva, segundo a mensagem, está na raiz do problema. Inovar, na visão de Leão XIV, não pode significar apenas otimizar algoritmos e dispositivos voltados ao lucro: “a verdadeira inovação não substitui a criação, mas implica uma investigação respeitosa das leis complexas que orientam a obra das mãos do Criador'”, escreveu.

Segundo a mensagem, quem se considera colaborador de Deus na criação deve usar a tecnologia para proteger a dignidade humana. Concentrar poder econômico em monopólios que sufocam a agricultura de pequena escala contraria esse princípio.

O pão não é mercadoria nem arma

“É intolerável que o pão seja considerado um privilégio”, afirma a mensagem, conforme informou o Vaticannews.

O Pontífice defende que é essencial libertar a produção de alimentos de uma mentalidade puramente especulativa. “O pão não deveria ser nem um instrumento de pressão geopolítica nem um bem financeiro volátil. Tampouco deve jamais ser usado como arma de guerra”, argumentou.

O Papa defende o redirecionamento de recursos hoje destinados à indústria militar para a pesquisa agrícola sustentável e a recuperação de solos. Leão XIV também criticou a ideia de crescimento infinito em um planeta de recursos limitados.

Para ele, esse modelo já chegou ao limite, e a inovação de agora em diante exige “responsabilidade intergeracional”, conciliando avanço tecnológico com a sabedoria acumulada por quem trabalha a terra.

Direito humano fundamental

“A fome não pode ser considerada uma anomalia estatística, pois é causada principalmente pela falta de vontade política e de solidariedade coletiva. Nem a escassez de alimentos é geograficamente inevitável. De fato, em uma época caracterizada por um progresso tecnológico sem precedentes, é intolerável que o pão seja considerado um privilégio e a água, uma mercadoria disputada. O acesso regular a uma alimentação segura, adequada e suficiente, em consonância com a dignidade de cada pessoa, é um direito humano fundamental”, escreveu o Papa Leão XIV na mensagem.

A água também aparece no texto como bem comum inalienável, que precisa ser protegida junto com a terra cultivada pelos agricultores. Para Leão XIV, dignidade e solidariedade entre as nações são o ponto de partida de qualquer transformação real nos sistemas agroalimentares do mundo.

Quando a inovação tecnológica não é o problema

O Papa não rejeita a tecnologia em si. A mensagem distingue dois tipos: a que protege a dignidade humana e respeita a ordem natural da criação e a que destrói solos, afasta agricultores de suas terras ou favorece apenas monopólios.

Usar máquinas e técnicas para aumentar a produção sustentável é legítimo, desde que não viole esses princípios. A inovação, portanto, não é o alvo da crítica do Papa. A questão é como e para quem ela funciona.

Sobre o autor

Laura Silveira

Rádio Itatiaia

Ouça a rádio de Minas