Apesar de dificuldades com vistos, brasileiros continuam ‘queridos’ nos EUA

Taxas de recusa, influência política e as mudanças nas regras de concessão para turismo, negócios e talentos
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Apesar de dificuldades com vistos, brasileiros continuam ‘queridos’ nos EUA
O visto brasileiro é negado menos que em 81% do mundo, considerando a média de 20 anos | Foto: Reprodução Adobe Stock

Nos últimos 20 anos, os turistas brasileiros viveram diferentes momentos na saga para conseguir um visto para visitar os Estados Unidos (EUA). Um levantamento feito pela Viaggi Vistos, com dados públicos oficiais do Departamento de Estado dos EUA (Adjusted Refusal Rate), revela que entre 2006 e 2025, a entrada no país da América do Norte já foi mais fácil, mas está longe de ser a mais complicada, inclusive entre os países da América Latina.

Essa métrica mede a proporção de vistos da categoria B (turismo e negócios, o famoso B1/B2) que foram negados, separando por nacionalidade do solicitante.

O Brasil está entre os mais fáceis do mundo: a média mundial de recusa subiu para 34,3% em 2025, e o Brasil ficou em menos da metade disso (14,87%). Na média de 20 anos, o Brasil aparece em 152º de 186 países, ou seja, o visto brasileiro é negado menos que em 81% do mundo.

De acordo com o fundador da Viaggi Vistos, Gianluca Ferro, a média de recusas está ligada, primordialmente, à política externa estadunidense, e também a outros fatores como a situação econômica no país de origem e à história pessoal do solicitante.

“A entrevista nos consulados tem como objetivo conter a imigração irregular, baseando-se na lei norte-americana de que todo solicitante de visto de turista é um potencial imigrante, invertendo a presunção de inocência, o que obriga o solicitante a provar que não pretende permanecer no país. A partir de 2015, com a crise econômica no Brasil e a gestão de Donald Trump (2015/2021), houve endurecimento nas regras, incluindo a redução do prazo de validade para renovação de vistos sem entrevista de 48 para 12 meses, além da instabilidade gerada pelos consulados fechados durante a pandemia. Tudo isso fez com que os índices de recusa para brasileiros subissem muito”, explica Ferro.

A Adjusted Refusal Rate é usada como critério oficial do Visa Waiver Program (o programa de isenção de visto): pela lei de imigração americana (INA, Seção 217(c)(2)(A)), um país só é considerado para a isenção se tiver uma taxa de recusa de visto de turismo abaixo de 3%. Mas esse é apenas um dos critérios. O mais perto que o Brasil chegou disso foi entre 2012 e 2014 (3,2%), quando os presidentes Barack Obama e Dilma Rousseff chegaram a assinar um protocolo de intenção que não teve prosseguimento.

Gianluca Ferro
Foto: Divulgação Viaggi Vistos

Já em 2020, ano da pandemia de Covid-19, a negativa chegou a 23,16%. Depois da pandemia houve uma certa acomodação, com a taxa oscilando entre 11,9% e 15,5%, fechando 2025 em 14,87%.

“A elegibilidade para o Visa Waiver Program não depende apenas de mérito econômico, mas de alinhamento político e estratégico com os Estados Unidos. O Chile e a Polônia, por exemplo, possuem situações distintas de integração aos interesses americanos”, pontua.

Os países com maior recusa média são, em geral, nações de baixa renda e forte pressão migratória: Laos (70,2%), Somália (68,4%) e Mauritânia (64,3%) lideram. Já os de menor recusa são economias estáveis e passaportes fortes ou extremamente alinhados com o governo dos EUA: Chipre e Argentina (3,5%), Hong Kong (4,4%) e Liechtenstein (4,5%).

Já na média histórica entre os latino-americanos, a Argentina (3,5%) e o Uruguai (5,4%) são os campeões de aprovação da região, em patamar de país europeu. O Brasil (10,7%) fica no meio do pelotão, à frente de México (15,9%), Bolívia (20,8%), Peru (25,2%) e Colômbia (26%).

A perspectiva para o curto prazo é que o Brasil mantenha a taxa de recusa estável, apesar da política de concessão de vistos ser uma arma de pressão política contra países que mantêm uma postura independente em relação à política externa dos EUA, especialmente durante o governo de Donald Trump.

“No caso dos Estados Unidos a concessão de vistos não obedece critérios objetivos, então, ela é muito suscetível aos humores do presidente do momento. Se Donald Trump fizer seu sucessor, essa política pode até endurecer, caso o vice-presidente, JD Vance; ou o secretário de estado, Marco Rubio, seja o eleito. Já um governo democrata tende a distensionar essa questão, mas nada disso é uma certeza”, analisa o especialista.

Visto dos EUA “influencia” outros países

O endurecimento da política migratória dos Estados Unidos também influencia na concessão de vistos por outros países, ainda que isso não se dê de maneira formal. O México, por exemplo, que tem critérios objetivos para a concessão, aumentou a taxa de recusa nos últimos anos pressionado pelo governo Trump, numa tentativa de mitigar a migração ilegal pela fronteira entre os dois países, utilizada por migrantes de todo o mundo, especialmente das Américas Central e do Sul.

A resposta do governo brasileiro acontece via o “princípio da reciprocidade”, refletindo flutuações conforme o governo vigente e o momento político. Essa prática, que alcança mexicanos e estadunidenses, impacta o fluxo de viajantes e a diplomacia internacional.

Mudanças de regras e aumento de taxas também são utilizadas pelos EUA para desestimular os pedidos de vistos.

Residentes de cerca de 50 países, incluindo nações com situações de conflito, agora enfrentam a obrigatoriedade de pagar um calção de US$ 10 mil ao terem um visto americano aprovado. Esse valor, que serve como uma garantia de retorno e não como uma taxa governamental, é reembolsado caso a pessoa retorne ao seu país de origem.

Também foi criado um programa piloto que permite o pagamento de uma taxa de US$ 750 para agendar entrevistas de visto americano nos próximos 10 dias úteis, contornando longos tempos de espera, que chegam a ultrapassar a marca de seis ou sete meses em locais como São Paulo. Esse pagamento não garante a aprovação do visto, apenas a antecipação da entrevista. O programa ainda não está disponível no Brasil, mas pode entrar em vigor a qualquer momento.

Além disso, as isenções de entrevista para menores de 14 anos e maiores de 79 anos foram retiradas, aumentando a burocracia e a possibilidade de cancelamento de vistos existentes em situações de estadias prolongadas que sugerem violação dos termos de turismo.

“O custo atual do visto é de US$ 185, mas existe a previsão da taxa de integridade (Visa Integrity Fee), um valor adicional de US$ 250. Embora a taxa esteja suspensa atualmente por pressão do setor de turismo, ela pode entrar em vigor a qualquer momento, representando um custo adicional que impacta a acessibilidade do visto para famílias”, destaca o fundador da Viaggi Vistos.

Vistos de talento têm mais de 90% de aprovação

Apesar da retórica anti-imigratória de Donald Trump e das ações do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (Immigration and Customs Enforcement – ICE), a dependência americana de mão de obra imigrante força o governo dos EUA a criar alternativas para a entrada de migrantes qualificados.

Um levantamento da Jumpstart – especializada em assistência imigratória – baseado em dados oficiais do Serviço de Cidadania e Imigração dos Estados Unidos (USCIS) e do Departamento de Estado, mostra que entre os profissionais qualificados, os números indicam que as oportunidades permaneceram abertas. O visto O-1, destinado a pessoas com reconhecimento extraordinário em suas áreas de atuação, registrou taxa de aprovação de 93,1% em 2025, com mais de 34 mil pedidos analisados pelo USCIS. O H-1B, utilizado por profissionais em ocupações especializadas, teve aprovação de 97,8% no primeiro semestre.

Para o CEO da Jumpstart, Fabiano Rocha, o sistema passou a exigir mais evidências e diferenciação entre quem quer visitar, estudar, trabalhar temporariamente ou construir uma trajetória permanente nos Estados Unidos.

“Para brasileiros com carreiras consolidadas em tecnologia, ciência, negócios e outras áreas estratégicas, os caminhos baseados em qualificação continuaram funcionando, embora com maior exigência documental”, explica Rocha.

O impacto mais imediato apareceu entre os estudantes. Em maio de 2025, os Estados Unidos suspenderam temporariamente novos agendamentos para vistos acadêmicos e de intercâmbio, medida que afetou brasileiros próximos ao início do calendário universitário. Em junho, as emissões de vistos F-1 para brasileiros caíram 52% na comparação anual, antes de retomarem no mês seguinte.

A etapa mais sensível para quem busca morar definitivamente nos Estados Unidos veio no início de 2026, quando os Estados Unidos suspenderam temporariamente a emissão de vistos de imigrante para brasileiros nos consulados. A medida afetou principalmente processos de green card feitos fora dos EUA, embora categorias temporárias de trabalho e estudo tenham permanecido fora da suspensão.

“Os Estados Unidos continuam sendo um destino relevante para brasileiros qualificados, mas o planejamento migratório passou a exigir uma análise mais estratégica. A pergunta deixou de ser apenas ‘qual visto posso pedir?’ e passou a ser ‘qual caminho faz sentido para o meu perfil profissional e para o momento da minha carreira?’”, completa o CEO da Jumpstart.

Sobre o autor

Daniela Maciel

Repórter do Diário do Comércio desde 2011. Graduada em Jornalismo pelo UniBH e em História pela UFMG.

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