Memorial Brumadinho transforma memória em debate sobre o futuro da mineração e da transição energética

“Mande notícias do mundo de lá” reúne pesquisadores, artistas, lideranças comunitárias e familiares de vítimas para debater a vida como principal valor em meio à transição energética
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Memorial Brumadinho transforma memória em debate sobre o futuro da mineração e da transição energética
Memorial Brumadinho é espaço de memória ativa e uma conquista coletiva das famílias das vítimas do rompimento da barragem de rejeitos da Vale, em 2019 | Foto: Divulgação Nitro

Sete anos e meio depois da maior tragédia humanitária e trabalhista do Brasil, que interrompeu 272 vidas após o rompimento de uma barragem de rejeitos de minério da Vale, a cidade de Brumadinho começa a se afirmar como território de memória e construção de futuro. É desse lugar que o Memorial Brumadinho realiza, de 13 a 15 de agosto de 2026, o primeiro seminário internacional num momento em que o Brasil discute seu papel na nova economia, impulsionada pelas terras-raras, pelos minerais críticos, pela transição energética e pela neoindustrialização. Intitulado “Mande notícias do mundo de lá”, o encontro propõe uma reflexão sobre os paradoxos desse novo ciclo, incluindo o papel dos museus e memoriais na reparação simbólica, na formação de consciência e na transformação da realidade.

O evento contará com a participação de especialistas, pesquisadores e artistas nacionais e internacionais, jornalistas, lideranças comunitárias e familiares de vítimas que vão discutir direito à memória, justiça ambiental, mineração responsável, cultura de prevenção e não repetição. Para a diretora-presidente da Fundação Memorial de Brumadinho, Fabíola Moulin, o memorial carrega a responsabilidade, que é de caráter coletivo, de transformar dor em legado, escuta em conhecimento e memória em compromisso com a vida. “Este seminário é um convite para que o Brasil discuta o seu futuro, considerando aquilo que Mariana e Brumadinho já nos ensinaram”, assinala.

O seminário internacional vai além de trazer uma programação acadêmica ou cultural, pois posiciona o Memorial Brumadinho como espaço de memória ativa, produção de conhecimento e compromisso público com a vida. Segundo a diretora-presidente da instituição, a premissa é destacar que lembrar não significa permanecer preso ao passado, ou seja, é construir uma cultura de responsabilidade para que nenhuma outra família precise enfrentar a dor por perdas prematuras e que poderiam ser evitadas.

Memorial Brumadinho
Foto: Divulgação Nitro

A programação articula mesas de debate, visitas mediadas ao Memorial, intervenções artísticas e exposições fotográficas que valorizam o ser humano e o ambiente natural. A proposta é possibilitar trocas e a aquisição de conhecimento nos debates, nas caminhadas pelo bosque, na escuta das comunidades, na partilha da comida, na arte e na experiência concreta do território. Durante os três dias, o bosque do Memorial abrigará duas exposições fotográficas: as imagens da fotógrafa Ísis Medeiros sobre os modos de vida do território, e Florescer em meio à lama: Memórias que brotam, exposição de fotos concebida pelos moradores do Córrego do Feijão em parceria com o Instituto Cordilheira. As inscrições podem ser feitas no site do memorial.

Segundo Fabíola Moulin, o memorial, que nasceu do luto e da luta dos familiares das 272 vítimas do rompimento da barragem da Mina Córrego do Feijão, em 25 de janeiro de 2019, será palco deste encontro com o objetivo de promover reflexões sobre o passado e projeções de um futuro possível para todos. Três temas atuais serão debatidos no seminário. O primeiro deles é Transição Energética – Notícias raras, com a abordagem dos paradoxos da transição energética global e seus impactos territoriais e socioambientais. Outro tema em debate será o Cultura em Disputa – Notícias em disputa, que vai abordar o uso da cultura como instrumento de legitimação corporativa e greenwashing. E o terceiro assunto em pauta é o Direito à Memória – Notícias memoráveis, ocasião em que os palestrantes convidados vão falar sobre a memória como prática de justiça e regeneração coletiva.

Sobre o autor

Ana Karenina Berutti

Repórter do Diário do Comércio. Graduada em Jornalismo e mestre em Letras pela PUC Minas. Experiência de 30 anos em cobertura política e econômica.

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