Economia

Sem demanda garantida, cadeia do lítio esbarra em desafio para agregar valor no Brasil

As lideranças defendem a criação de políticas públicas que estimulem a verticalização da produção no País
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Sem demanda garantida, cadeia do lítio esbarra em desafio para agregar valor no Brasil
Foto: Reuters/ Washington Alves

O Brasil tem potencial, know-how, talentos e custos competitivos para adensar a cadeia produtiva do lítio, mas esbarra, assim como outros países, na ausência de demanda garantida para produtos intermediários e finais, na avaliação de executivos do setor.

A leitura é de que existe um desajuste entre oferta e necessidade industrial imediata que inviabiliza investimentos em refino, produção de componentes de células e montagem de baterias sob a ótica de uma análise estritamente econômica por parte de investidores.

As lideranças defendem a criação de políticas públicas que gerem uma demanda garantida e estimulem o avanço da cadeia do lítio, como fez a China já há algumas décadas. Sem incentivos, não há como competir com o ecossistema chinês e a verticalização do setor não deve acontecer tão cedo no País, já que a conta não fecha.

Neste momento, o próprio mercado chinês opera com forte ociosidade na etapa de refino e algumas empresas oferecem serviços de conversão a valores marginais para evitar elevados custos com a paralisação das plantas, segundo os executivos. Esse cenário reforça as análises de que aportes em refinarias, fábricas de componentes de células e fábricas de baterias tornam-se inviáveis em curto prazo no mercado brasileiro, se não houver subsídios.

O tema foi discutido no painel “Conferência CEOs”, no Lithium Business 2026, evento realizado entre os dias 7 e 9 deste mês, em Salinas, no Norte de Minas Gerais, idealizado pelo professor Rossandro Ramos e apresentado pela R2 Valor Público.

Moderado pelo analista principal de lítio da Benchmark Mineral Intelligence, Federico Gay, o encontro reuniu a diretora de sustentabilidade e assuntos corporativos da PLS, Marisa Cesar, o vice-presidente de relações internacionais e desenvolvimento de negócios da Sigma Lithium, Daniel Abdo, o CEO da AMG Brasil, Fabiano Costa, e o CEO da Companhia Brasileira de Lítio (CBL), Vinicius Alvarenga.

Três das quatro empresas participantes operam no Brasil e são as únicas do setor de lítio com produção em escala comercial. Entre elas, apenas a CBL atua com a etapa intermediária da cadeia produtiva no País, ao produzir carbonato e hidróxido de lítio no Norte de Minas, além de concentrado de espodumênio no Vale do Jequitinhonha.

Já a AMG, que anteriormente anunciou planos que não avançaram de construir uma planta química no Estado, produz concentrado no Campo das Vertentes. A Sigma, por sua vez, produz concentrado no Vale do Jequitinhonha. Enquanto isso, a PLS desenvolve projeto no Norte de Minas Gerais, para também produzir concentrado, embora avalie trazer para o Estado, posteriormente, uma planta de refino intermediário.

“Importamos produto de lítio no Brasil porque não tem demanda suficientemente forte para fazer tudo aqui. Temos a BYD, por exemplo, que vai somente montar veículos elétricos, mas se tivesse uma demanda garantida mais forte, com certeza faria mais”, disse Alvarenga.

“Temos também um dos maiores fabricantes da área de equipamentos elétricos, uma empresa brasileira de classe mundial que é a Weg. Por que ela não faz toda a bateria aqui? Porque falta demanda garantida. Um dos maiores fabricantes de cátodos do mundo é a Basf, que está muito bem sediada no Brasil com ‘n’ atividades fabris. Por que ela não faz cátodo no Brasil? E por aí vai. Tudo passa pela demanda”, reiterou o CEO da CBL.

Incerteza regulatória atrasa perspectivas de desenvolvimento

Além de subsídios governamentais, a verticalização acelerada da cadeia do lítio no Brasil, bem como a expansão das operações de mineração, depende de um cenário regulatório estável. Nesse sentido, as lideranças demonstram preocupação com alguns pontos sugeridos no projeto de lei (PL) 2780/2024, que propõe a criação da Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (PNMCE), em tramitação no Senado Federal.

Para a diretora de sustentabilidade e assuntos corporativos da PLS, a proposta traz questões positivas, como benefícios fiscais para quem investir em unidades de refino no País. No entanto, também apresenta tópicos que podem afastar investidores, como a criação de um conselho para coordenar a PNMCE, cujas reais atribuições e poderes não estão claros, inclusive havendo a possibilidade de vetar operações e contratos.

Segundo Marisa Cesar, a falta de clareza sobre as responsabilidades do conselho e sobre quais tipos de projetos estarão sujeitos à sua avaliação traz imprevisibilidade regulatória e atrasa as perspectivas de desenvolvimento do setor. Para a executiva, isso afeta tanto a entrada de novos players quanto as empresas que já atuam no Brasil e que continuam fazendo captação de investimentos para ampliar as capacidades de produção.

Valor agregado na mineração

Em paralelo às discussões sobre o avanço da cadeia produtiva, os executivos do setor argumentam que a indústria brasileira de lítio já é um caso de sucesso consolidado, entregando tecnologia de ponta, inovação e ótimos índices de sustentabilidade.

As lideranças também rebatem críticas de que a mineração não gera valor agregado. Conforme o CEO da CBL, a empresa aumenta em seis vezes o teor metálico do minério bruto para vender concentrado de espodumênio. Ainda de acordo com Alvarenga, o produto vale cerca de 50 vezes mais do que o minério in situ.

*O repórter viajou para Salinas a convite da PLS

Sobre o autor

Thyago Henrique

Repórter do Diário do Comércio desde 2022. Jornalista pela Una, eleito entre os 100 mais admirados da imprensa de Economia, Negócios e Finanças (2024) e 3º lugar no Prêmio Riquezas dos Vales (2025)

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