Produtos importados ganham espaço no e-commerce e já alcançam 81,2 milhões de brasileiros

Preço é o principal atrativo das compras internacionais, enquanto inteligência artificial ganha espaço na busca por produtos e melhores ofertas
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Produtos importados ganham espaço no e-commerce e já alcançam 81,2 milhões de brasileiros
Foto: Adobe Stock

O avanço das compras internacionais no comércio eletrônico brasileiro deixou de ser um movimento pontual e passou a representar um desafio para o varejo e a indústria nacional. Pesquisa da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e do SPC Brasil, em parceria com a Offerwise, mostra que 61% dos consumidores digitais fizeram ao menos uma compra de produto importado nos últimos 12 meses. O número de clientes alcança 81,2 milhões, 13,1 milhões a mais do que no levantamento realizado no ano anterior.

Para o gerente executivo da CNDL, Daniel Sakamoto, o resultado mostra uma mudança consolidada no comportamento do consumidor. “A compra de produtos internacionais não pode ser considerada mais como uma tendência ou uma fase. Já é uma realidade que a indústria e o comércio nacional precisam considerar”, afirma.

O principal fator por trás desse movimento é o preço. Entre os consumidores que compram em sites estrangeiros, 39% apontam os valores mais baixos como um dos principais motivos para optar pelos produtos importados. Também aparecem entre os fatores de decisão a confiabilidade da plataforma (37%), o custo do frete (37%) e a possibilidade de encontrar produtos que não estão disponíveis no mercado brasileiro (32%).

“A facilidade com que o consumidor está comprando coisas produzidas de fora do País representa um risco para a própria indústria e para o comércio nacional”, alerta Sakamoto. Segundo ele, a diferença de preços, beneficiada por subsídios governamentais, leva o consumidor a comparar produtos nacionais e importados antes de fechar a compra.

O executivo avalia que o cenário também deve provocar uma reflexão sobre as políticas públicas voltadas à concorrência. “A pesquisa acende esse sinal de alerta e serve, inclusive, para uma reflexão por parte do poder público: se estamos com as políticas públicas adequadas para isso”, avalia.

IA entra na jornada de compra

Além da expansão das plataformas internacionais, o levantamento identifica uma novidade no comportamento do consumidor: a utilização da inteligência artificial (IA) para encontrar produtos e comparar oportunidades. Ferramentas como ChatGPT, Gemini, Claude e DeepSeek já são utilizadas por 15% dos consumidores para descobrir produtos e melhores oportunidades. O percentual sobe para 23% entre as classes A e B e chega a 20% entre os homens.

Na prática, a IA passa a funcionar como um novo mecanismo de busca e recomendação. “As ferramentas de inteligência artificial já servem como motor de indicação. Quando o consumidor pede para fazer uma pesquisa de um produto específico nos sites, para ver onde está mais barato, a própria inteligência artificial já mostra que a compra internacional, muitas vezes aqui no Brasil, está com melhor condição de preço”, explica Sakamoto.

Para ele, a novidade reforça o alerta e mostra que o consumidor está pesquisando mais antes da compra. “O consumidor está comparando e pesquisando mais, justamente para conseguir encontrar as melhores oportunidades”, avalia.

As redes sociais continuam sendo o principal canal de descoberta das plataformas estrangeiras, citadas por 41% dos entrevistados. Em seguida, aparecem os anúncios na internet, com 40%, e os buscadores, como o Google, com 37%.

Entre as plataformas utilizadas para comprar produtos importados, Shopee e Shein aparecem na frente, com 73% e 50% das citações, respectivamente. Na sequência, estão Amazon e Mercado Livre, ambos com 44%, além de AliExpress (25%) e Temu (15%).

A procura se concentra principalmente em produtos de vestuário e uso pessoal. Roupas lideram, com 45% das citações, seguidas por acessórios de moda, como bolsas, cintos, óculos e carteiras (28%), calçados (25%), cosméticos e perfumes (25%) e acessórios para celulares e informática (22%).

A frequência das compras também chama atenção. Para 41% dos consumidores, a aquisição de produtos internacionais ocorre mensalmente. A média foi de quatro pedidos nos três meses anteriores à pesquisa. O valor médio da última compra internacional, entretanto, foi inferior ao registrado no comércio eletrônico nacional: R$ 188, contra R$ 225. Em 41% dos casos, os consumidores não souberam informar quanto haviam gasto na última compra.

Pix supera cartão de crédito

O Pix se consolidou como o principal meio de pagamento nas compras internacionais. A modalidade foi utilizada por 61% dos entrevistados, sete pontos percentuais acima do resultado de 2025, enquanto o cartão de crédito apareceu com 52%.

Entre os consumidores da Geração Z, de 18 a 28 anos, a preferência pelo Pix é ainda mais acentuada: 76% utilizaram o meio de pagamento, contra 38% que recorreram ao cartão de crédito.

Sakamoto, no entanto, pondera que o resultado não significa necessariamente uma preferência espontânea pelo Pix. Segundo ele, o nível de endividamento das famílias está alto. “A gente percebe que o Pix, para muitos consumidores, é uma preferência mesmo, mas para outros é uma consequência da falta de um cartão de crédito. O Pix vira a única alternativa”, pontua.

Segundo ele, os elevados níveis de endividamento e inadimplência das famílias brasileiras fazem com que parte dos consumidores tenha dificuldade de acesso ao cartão de crédito.

Tributação divide consumidores

A cobrança de 20% de imposto de importação também aparece como um dos pontos de tensão. Para 58% dos consumidores, a tributação prejudica as famílias de menor renda. Outros 30% consideram que a cobrança contribui para equilibrar a concorrência e apoiar o comércio nacional.

Para Sakamoto, a diferença entre a tributação dos produtos nacionais e importados deve ser considerada. “O consumidor brasileiro está comprando internacionalmente porque está valendo a pena em termos de custo”, afirma.

Na avaliação do executivo, embora alguns produtos disponíveis no exterior não sejam encontrados no mercado brasileiro, o preço é o principal fator responsável pelo volume das compras internacionais.

Ele chama atenção ainda para o impacto do limite de US$ 50. “O pequeno valor é relativo. Quando se fala em US$ 50 hoje, são quase R$ 300. Para uma renda média da população que é pouco acima do salário mínimo, esse montante todo mês, com compras internacionais não é pouco”, pondera.

Segundo Sakamoto, o efeito se estende ao varejo brasileiro: “No final das contas faz muita falta para a indústria e para o comércio nacional”.

Varejo nacional ainda tem espaço

Apesar do avanço das compras internacionais, o levantamento mostra que o consumidor brasileiro não necessariamente prefere comprar no exterior. Se preço e variedade fossem equivalentes, 61% afirmam que dariam preferência aos sites nacionais.

O dado mostra que o varejo brasileiro ainda possui espaço para recuperar consumidores, principalmente por meio de preço, disponibilidade e velocidade de entrega. Mais da metade dos entrevistados (53%) sempre verifica se o produto está disponível no Brasil antes de comprar no exterior. Outros 33% fazem essa pesquisa às vezes.

A diferença no prazo de entrega também pode favorecer as empresas nacionais. Diante da possibilidade de receber um produto brasileiro em até três dias, pagando até 10% a mais do que pela compra internacional, 33% dos consumidores afirmam que escolheriam a entrega mais rápida. Outros 46% dizem que a decisão dependeria da necessidade.

Para o presidente do SPC Brasil, Roque Pellizzaro, o cenário exige atenção especial aos pequenos negócios. “Os micro e pequenos empreendedores são a espinha dorsal da nossa economia e os mais vulneráveis à concorrência desleal.”

Segundo Pellizzaro, quando produtos estrangeiros chegam ao consumidor sem arcar com a mesma carga tributária das empresas brasileiras, o pequeno comerciante perde competitividade. “É fundamental criar condições de igualdade para que o comércio brasileiro consiga crescer, investir e continuar impulsionando o desenvolvimento da economia”, diz.

Sobre o autor

Juliana Sodré

Repórter do Diário do Comércio. Graduada em Jornalismo pela PUC Minas, com especialização em Imagens e Culturas Midiáticas pela UFMG.

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