Empreendedorismo feminino cresce, mas acesso a recursos ainda desafia mulheres

Falta de redes de apoio, acesso a mercados e ambientes de inovação também estão entre as principais barreiras enfrentadas pelas empreendedoras no País
Ouvir a matéria 0:00 / 0:00
Empreendedorismo feminino cresce, mas acesso a recursos ainda desafia mulheres
Foto: Reprodução Freepik

O empreendedorismo feminino está avançando no Brasil, seja por necessidade ou pelas oportunidades disponíveis no mercado. Porém, o cenário atual também é marcado por desafios que dificultam a jornada das empreendedoras, como a falta de acesso a capital, ambientes de inovação e redes de apoio

A fundadora e CEO da Rede Mulher Empreendedora (RME), Ana Fontes, destaca a importância da geração de renda por meio dos negócios para as mulheres. Ela explica que o empreendedorismo permite que muitas pequenas empresárias sustentem suas famílias e apoiem as comunidades ao seu redor.

De acordo com a especialista, metade dos pequenos negócios no Brasil é liderada por mulheres. A dirigente ressalta ainda que, quando têm condições de contratar mais pessoas, essas empreendedoras tendem a oferecer oportunidades a outras mulheres ou familiares.

Entre os desafios, Ana Fontes destaca a dificuldade de acesso a capital, incluindo linhas de crédito e microcrédito, fundos de investimento (FIs) e investidores-anjo. “O acesso a capital é a grande questão, então, ter plataformas que ajudem nisso faz a diferença na vida dessas mulheres”, completa.

Outro ponto citado é a falta de apoio, uma vez que, segundo a especialista, cerca de 70% das empreendedoras brasileiras começaram a empreender após a maternidade. Por isso, a flexibilidade para conduzir o próprio negócio é especialmente importante para essas mulheres. A CEO da RME relata que muitas foram “empurradas” para o empreendedorismo justamente em busca dessa flexibilidade.

Esse cenário, na visão de Ana Fontes, torna ainda mais evidente a necessidade de uma rede de apoio, que inclui locais seguros onde as empreendedoras possam deixar os filhos e disponibilidade de tempo para resolver questões pessoais e familiares. A dirigente lembra que as mulheres respondem por cerca de 80% da economia do cuidado.

Um terceiro fator apontado é o baixo acesso a ambientes de inovação. De acordo com a especialista, grande parte das mulheres empreende em áreas com maior presença feminina, como moda, beleza, serviços e alimentação fora de casa. Embora não veja problema nessa concentração, ela avalia que é preciso ampliar as condições para que essas empresárias inovem em suas respectivas áreas de atuação.

A fundadora da RME pontua que não se pode ignorar a chamada construção social ou o viés de consciência, que contribuem para direcionar as mulheres a essas áreas de atuação. No entanto, ela avalia que esse cenário já apresenta mudanças significativas.

“As mulheres já não se sentem mais presas nesse ambiente e mesmo aquelas que estão nele estão buscando inovar”, relata.

De acordo com a especialista, quando as mulheres têm acesso às possibilidades oferecidas pelos ambientes de inovação e ao capital, a distinção das áreas de atuação por gênero tende a diminuir.

A importância do acesso a mercados

Empreendedorismo feminino
Foto: Reprodução Adobe Stock

O acesso a mercados é outro desafio para as mulheres que empreendem no Brasil. Ana Fontes relata que a maioria das empreendedoras possui um produto ou serviço, mas enfrenta dificuldades para encontrar canais de comercialização. Segundo ela, o acesso a plataformas como a Shopee pode contribuir para superar essa barreira.

Já a head de Relações Institucionais da Shopee, Luciana Hachmann, destaca o fato de o empreendedorismo feminino ser, em muitos casos, uma jornada solitária. Das mais de 500 vendedoras inscritas no Prêmio Mulheres do Ano 2026, organizado pela Shopee em parceria com a RME, 84% não têm sócios.

Apesar dos desafios, ela destaca os avanços registrados no cenário atual. A executiva menciona um levantamento do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) que aponta crescimento de 30% do empreendedorismo feminino nos últimos dez anos, atingindo um recorde na série histórica.

“Isso mostra que as mulheres realmente estão buscando mais e empreendendo. Elas buscam ter mais renda, autonomia e flexibilidade. Esses dados mostram como o empreendedorismo feminino realmente está avançando no Brasil, apesar dos desafios”, afirma.

Um exemplo é que, entre as contas ativas no marketplace da Shopee no País, pouco mais da metade (51%) pertence a mulheres. O resultado é semelhante ao cenário nacional, em que elas respondem por 52% dos empreendedores brasileiros.

Oportunidade versus necessidade

Classe C empreendedorismo
Foto: Marcelo Camargo/ Agência Brasil

Quanto aos fatores que levam as mulheres a empreender, Ana Fontes explica que muitas são motivadas, inicialmente, pela necessidade, mas, ao longo da jornada, acabam identificando oportunidades de crescimento. Entre os fatores que contribuem para esse cenário, ela menciona a falta de oportunidades no mercado de trabalho, principalmente para as mães.

A especialista destaca que cerca de 55% das empreendedoras sustentam suas famílias com a renda obtida no próprio negócio. Ela lembra que, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), quase metade das mulheres é chefe de família e que, entre as empreendedoras, essa participação é ainda maior.

“Elas estão empreendendo e conseguindo sustentar suas famílias. Apesar de não ser um processo simples, é um processo possível”, completa.

A fundadora e CEO da Rede Mulher Empreendedora se diz otimista quanto às possibilidades de melhora no ambiente de negócios e ao potencial das mulheres para criar seus próprios empreendimentos e gerar impactos positivos para as famílias e comunidades ao redor.

Sobre o autor

Leonardo Leão

Repórter do Diário do Comércio desde 2022. Graduado em Jornalismo pela Estácio.

Rádio Itatiaia

Ouça a rádio de Minas