Eleito melhor doce de leite do Brasil, mineiro Alferes do Tacho já tem lista de espera

Produzido em São João del-Rei, doce de leite artesanal conquista o primeiro lugar no Prêmio CNA Brasil Artesanal 2026

Minas Gerais, estado reconhecido nacionalmente pela produção de queijos e cafés especiais, também se destaca na fabricação de doces de leite artesanais. Um exemplo vem de São João del-Rei, no Campo das Vertentes, onde o Alferes do Tacho conquistou o primeiro lugar na categoria doce de leite em barra do Prêmio CNA Brasil Artesanal 2026.

O certame reconhece a produção de pequenos empreendedores e a diversidade dos alimentos artesanais brasileiros. A conquista nacional já ampliou a procura pelo doce de leite e trouxe novos desafios para a capacidade de produção da agroindústria de São João del-Rei.

Criado em 2022, o Alferes do Tacho nasceu com a proposta de desenvolver um produto que preservasse a identidade mineira, mas apresentasse características próprias no mercado. Os produtores Lorena Barcelos e Leonardo Chagas encontraram no formato triangular e nas referências da arquitetura barroca de São João del-Rei elementos para construir a identidade da marca. A receita também foi desenvolvida para valorizar o sabor do leite e reduzir a quantidade de açúcar.

Segundo a produtora, Lorena Barcelos, a escolha da matéria-prima é determinante para o resultado, assim como o controle da composição do leite utilizado na fabricação. “É um doce que tem muito sabor e pouco açúcar. A qualidade do leite e da matéria-prima é imprescindível, é fundamental. A gente procura um leite que tenha uma composição controlada e os sólidos ideais para dar o resultado que esperamos”, explicou.

O desenvolvimento da textura exigiu uma sequência de testes até que os produtores chegassem ao ponto considerado ideal, com consistência macia e formação de uma fina camada externa. Diferentemente dos doces moldados em formas, o produto é modelado manualmente, unidade por unidade, depois de pronto. O processo permite a cristalização do leite na superfície, característica do doce em ponto de bala.

A redução do açúcar é outro diferencial da receita. Enquanto doces de leite convencionais podem apresentar cerca de 30% do ingrediente, o Alferes do Tacho trabalha com aproximadamente 20%. A proposta é manter o sabor e a consistência sem comprometer as características do produto.

A identidade visual também acompanha a proposta de valorização da cultura regional. As embalagens utilizam referências do barroco e do rococó, com símbolos associados à tradição religiosa e à bandeira de Minas Gerais. A intenção, segundo Chagas, é fazer com que o produto também remeta à memória afetiva dos consumidores.

“Nós buscamos o coração da cultura mineira, do barroco mineiro. Trouxemos essas referências, tanto na paleta de cores quanto nas características do rococó nas igrejas, que se caracteriza por imagens mais carregadas, com muitos símbolos. O intuito sempre foi resgatar a memória afetiva das pessoas, com um produto inovador, mas com gostinho de doce de leite de vó”, disse.

Chagas explica que os pedidos cresceram depois da premiação e que a pequena estrutura da empresa passou a trabalhar com fila de espera. A decisão, neste momento, é preservar o caráter artesanal, sem ampliar a produção a ponto de comprometer a qualidade.

“Eu fiquei bastante surpreso quando recebi a ligação da CNA. Só de estar entre os cinco melhores já era uma vitória muito grande. Mas receber o primeiro lugar mudou nossas vidas. A procura pelo doce de leite doce Alferes do Tacho aumentou bastante e estamos com fila de espera”, conta.

Atualmente, a comercialização do doce de leite está restrita à região do Campo das Vertentes, em razão dos limites do serviço de inspeção ao qual a produção está submetida. Porém, a meta é buscar por registros e certificações, como o Selo Arte, que permitam ampliar a distribuição para outros mercados. Enquanto isso, Lorena Barcelos e Leonardo Chagas preparam a abertura de uma loja em São João del-Rei, prevista para novembro, com produtos e sabores exclusivos para os visitantes.

A capacitação também faz parte dos planos de desenvolvimento. Os produtores já participaram de vários cursos do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), por meio do Sindicato Rural de São João del-Rei, nas áreas de produtos lácteos, doce de leite, marketing e queijos especiais. Para o próximo ano, a expectativa é participar do Programa de Assistência Técnica e Gerencial (ATeG), com foco no aprimoramento dos processos produtivos e administrativos.

“ Nossa ideia é ampliar a capacitação e aprimorar ainda mais o negócio. Acreditamos que o programa ATeG será muito importante, pois vai contribuir tanto para a melhoria dos processos de produção quanto para a gestão. Apostamos nesse acompanhamento e temos certeza de que será muito positivo. Para mim, os pilares do sucesso são técnica, tradição, ciência e tecnologia. Esses quatro elementos são fundamentais para que a gente continue evoluindo”.

Sobre o autor

Michelle Valverde

Repórter do Diário do Comércio desde 2009. Graduada em Jornalismo pela Newton Paiva.