Clima irregular muda estratégia de estoque e liquidações no comércio de Minas Gerais
Com o ‘clima maluco’ muitos mineiros têm sofrido na pele as alterações climáticas repentinas que ocorrem no Estado. Já para quem vende e organiza o estoque conforme a época do ano, o cenário tem mudado aos poucos. A chegada da primavera continua funcionando como referência para a renovação de vitrines e coleções no comércio de Minas Gerais, mas deixou de ser, sozinha, um parâmetro suficiente para definir as decisões dos empresários.
Com períodos de frio mais irregulares e temperaturas fora do padrão esperado, o varejo passou a combinar o calendário das estações com o comportamento efetivo do clima, o ritmo das vendas e o nível dos estoques.
A avaliação é da economista da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de Minas Gerais (Fecomércio MG), Gabriela Martins, a partir dos resultados da pesquisa de expectativa de vendas para o inverno de 2026. O levantamento mostra que a estação ainda tem forte impacto comercial: 92,1% dos estabelecimentos dos segmentos pesquisados afirmaram que a chegada do inverno influencia positivamente as vendas.
Segundo Gabriela, setembro continua associado ao lançamento das coleções de primavera, especialmente nos segmentos de vestuário, calçados, acessórios e artigos para o lar. No entanto, a efetivação dessa mudança depende cada vez mais das condições climáticas observadas.
“A primavera ainda é muito importante, porque é nesse período que muitas empresas renovam vitrines, lançam produtos mais leves e começam a encerrar a comercialização das coleções de inverno. Portanto, o calendário das estações não perdeu totalmente a sua relevância”, comenta.
A pesquisa da Fecomércio MG foi realizada entre 4 e 12 de maio de 2026 com 407 empresas dos segmentos de vestuário e acessórios, calçados e artigos de viagem e tecidos, cama, mesa e banho.
Temperatura pesa nas vendas
Na visão da economista, a temperatura passou a funcionar como uma variável operacional para o varejo. O calendário define, em linhas gerais, quando uma coleção deve chegar às lojas, mas a demanda é ativada pelas condições efetivamente registradas.
“Hoje o varejista combina o calendário tradicional com a temperatura realmente observada. A previsão do tempo, o comportamento do consumidor e a velocidade de saída dos produtos. Na moda, por exemplo, setembro costuma marcar o lançamento da coleção de primavera, mas o clima pode antecipar ou postergar a mudança efetiva da vitrine”, pondera.
A percepção é ancorada nos dados da pesquisa, embora 59,3% dos empresários esperassem vendas melhores no inverno de 2026 em relação ao ano anterior, 32% projetavam estabilidade e 8,2%, resultados piores. Entre os que esperavam desempenho inferior, 25% apontaram que “não está frio” como motivo e 18,8% citaram “clima/tempo”. A crise econômica apareceu como principal justificativa, mencionada por 40,6% dos entrevistados.
“Uma frente fria pode levar rapidamente à procura por casacos, calçados fechados, roupas de cama e alimentos mais quentes. Da mesma forma, um período de calor fora de época pode reduzir a saída desses produtos mesmo durante o inverno”, diz.
Na avaliação de Gabriela, a irregularidade do frio aumenta o risco de decisões equivocadas de estoque. Dias frios curtos ou descontínuos podem levar o consumidor a adiar a compra ou utilizar peças que já possui. Por outro lado, uma queda repentina da temperatura pode concentrar a demanda em poucos dias e exigir reposição rápida.
Estoque ganha importância
Esse cenário também interfere no planejamento das compras. A pesquisa mostra que 79,8% das lojas já haviam recebido todas as encomendas quando foram entrevistadas, enquanto 17,9% ainda não estavam preparadas e 0,8% ainda não haviam realizado os pedidos. Na comparação com o ano anterior, 59,3% dos empresários informaram ter solicitado a mesma quantidade de unidades. Outros 25,6% disseram ter comprado mais e 14,3%, menos.
A economista avalia que a adaptação pode aparecer na composição das coleções, com maior espaço para peças de meia-estação, sobreposições e produtos que possam ser utilizados em diferentes condições de temperatura. A pesquisa, no entanto, não mensurou especificamente essa mudança no mix de produtos.
Liquidação segue o calendário, mas depende do giro
O momento das liquidações também mostra que o calendário da estação continua relevante, embora não seja o único gatilho. Entre as empresas pesquisadas, 34% disseram que não pretendiam realizar liquidações. Entre as que planejavam a estratégia, 19,4% indicaram o fim de agosto, 17,1% o início de setembro e 15,9% o início de agosto.
Para Gabriela, o encerramento do inverno ainda estabelece uma janela tradicional para a redução de preços, mas a velocidade de venda e o estoque remanescente podem antecipar ou reduzir essa necessidade.
“Hoje, esses três fatores influenciam, mas o estoque remanescente e a velocidade de venda tendem a definir o movimento efetivo da liquidação. A chegada da nova estação continua funcionando como limite comercial, porque o lojista precisa liberar espaço e capital para a próxima coleção. Porém, se os produtos tiverem boa saída, a liquidação pode ser menor ou até mesmo desnecessária”, avalia.
A própria pesquisa registra respostas que vinculam a decisão à demanda e ao estoque, como “depende da demanda”, “se sobrar muito estoque” e “só haverá se não acabar o estoque”. Embora representem parcelas pequenas da amostra, elas indicam que parte dos empresários não trabalha apenas com uma data fixa para definir a estratégia.
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