Cota zero para importação de eletrificados preocupa indústria de autopeças, que deve rever projeções para 2026
A indústria mineira de autopeças, que estava confiante para 2026, agora demonstra preocupação com o fechamento do ano. Um dos principais motivos para isso é a renovação da cota zero para importação de veículos eletrificados semidesmontados (SKD) e desmontados (CKD), anunciada pelo governo federal nesta semana.
O setor tinha expectativa de crescer impulsionado por planos robustos das montadoras no Estado, que envolvem investimentos bilionários, aumento produtivo e lançamento de produtos. Contudo, diante da medida, as perspectivas positivas – não só de produção, como também de geração de empregos – devem ser revistas e, provavelmente, ficarão negativas.
Quem afirma é o diretor do Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos Automotores (Sindipeças) em Minas Gerais, Fábio Sacioto. Conforme ele, ao conceder o incentivo para kits importados de montagem de carros elétricos e híbridos até o fim deste ano, o Brasil deixa de comprar autopeças no próprio País para trazer da China, o que afeta o mercado local, gerando problemas tanto para as fabricantes das peças quanto dos veículos.
“Isso nos impacta porque os veículos que as montadoras produzem no Estado e em todo o Brasil vão ter uma concorrência ainda maior com o carro chinês”, salienta.
Segundo Sacioto, a medida caiu como um “balde de água fria” no setor, que também estava otimista com o lançamento da linha de crédito de até R$ 30 bilhões para a aquisição de veículos novos por taxistas e motoristas de aplicativos no programa federal Move Brasil. O diretor regional diz que o financiamento a ser pago pelos brasileiros agora servirá para comprar autopeças e gerar postos de trabalho na China por consequência da cota zero.
Ele ressalta que o momento é de notícias negativas para a competitividade da indústria de autopeças. Além do anúncio sobre importação, os Estados Unidos, segundo principal cliente no exterior, podem aplicar novas tarifas sobre produtos brasileiros, ao mesmo tempo em que o Brasil pode aprovar a redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais, elevando os custos das empresas, que já subiram em meio à guerra no Oriente Médio.
Entenda a decisão do governo federal
Na terça-feira (23), o Comitê-Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior (Gecex-Camex) decidiu pela aplicação de cotas adicionais com alíquota zerada para kits de carros elétricos e híbridos importados, que somam US$ 463 milhões (cerca de R$ 2,4 bilhões), patamar idêntico ao que vigorou até janeiro deste ano. A medida, que terá validade de seis meses, entra em vigor a partir da próxima quarta-feira (1º de julho).
Fora do limite de isenções, passa a valer, também em julho, a tarifa de importação de 35% para os veículos eletrificados semidesmontados, além dos veículos montados, que não terão cotas. Para os veículos desmontados permanece a taxa de 14%, que sobe para 35% em janeiro de 2027. Essas alíquotas já estavam previstas no cronograma de recomposição tarifária definido anteriormente após pleito das montadoras nacionais.
Já a renovação da cota zero atende a um pedido do governo da Bahia, conforme nota técnica da medida, e tende a beneficiar principalmente a BYD. A montadora chinesa tem fábrica no município baiano de Camaçari desde 2025, opera com o sistema SKD e planeja nacionalizar gradualmente a produção, passando ainda pelo sistema CKD.
Anteriormente, a empresa chegou a pedir que fosse fixada uma alíquota de até 10% para os kits importados por 36 meses, o que foi negado em julho de 2025 pelo Gecex-Camex. À época, o comitê decidiu pela criação das cotas adicionais com imposto zero por seis meses.
Na segunda-feira (22), o vice-presidente sênior da BYD no Brasil, Alexandre Baldy, disse à imprensa que a montadora não apresentou um novo pedido ao governo federal, mas que foram prometidos 12 meses de cota zero, o que a empresa espera que se cumpra.
Por outro lado, a decisão pela renovação das cotas com alíquota zerada gerou apreensão nas fabricantes nacionais de veículos e de autopeças, que repudiaram a medida. Em nota conjunta, o Sindipeças e a Associação Brasileira da Indústria de Autopeças (Abipeças) afirmaram que a medida coloca em risco empresas, empregos e aportes planejados. “Montadoras e fabricantes de autopeças anunciaram vultosos investimentos, que podem ser reduzidos ou até eliminados pela falta de previsibilidade”, sublinharam.
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