Economia

Supermercados de Minas voltam a ganhar eficiência operacional após três anos de queda

Indicador avançou de 97,65% para 97,88% em 2025, mas Estado segue abaixo da média nacional; açougue e hortifruti concentram as maiores perdas e revelam oportunidades de melhoria
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Supermercados de Minas voltam a ganhar eficiência operacional após três anos de queda
Foto: Verdemar / Divulgação

Após três anos de queda, o varejo supermercadista de Minas Gerais voltou a ganhar eficiência operacional em 2025. O indicador avançou 0,23 ponto percentual, passando de 97,65% em 2024 para 97,88% no último exercício, mas o Estado ainda permanece abaixo da média nacional, de 98,18%, segundo levantamento da Associação Brasileira de Supermercados (Abras).

O levantamento revela que, a cada R$ 100 em vendas das redes supermercadistas mineiras, R$ 97,88 foram preservados na operação, enquanto R$ 2,12 corresponderam a perdas. Durante apresentação no evento Abras em Ação nas Estaduais, realizado na última quinta-feira (25), a diretora do Comitê Abras de Eficiência Operacional, Flávia Borges, destacou que, embora o percentual pareça pequeno, essas perdas representam valores expressivos diante do volume movimentado pelo setor.

Entre as empresas mineiras participantes da Pesquisa de Eficiência Operacional Abras 2026, 75% atuam exclusivamente no Estado, concentrando todo o faturamento bruto em Minas Gerais. Nesse grupo, a eficiência operacional foi de 97,79%, apenas 0,09 ponto percentual abaixo da média estadual. Segundo o estudo, essa proximidade indica que o desempenho está mais relacionado à maturidade da gestão, dos processos e dos controles internos do que à abrangência territorial das operações.

Em Minas Gerais, a taxa de ineficiência das empresas variou entre 1,3% e 2,85%. Na distribuição por faixas, cerca de metade das varejistas mineiras concentrou-se no nível intermediário, com índices entre 2,01% e 2,5%. Outros 25% registraram perdas de até 2%, enquanto o restante apresentou taxa superior a 2,5%.

O evento, realizado em Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), também contou com a participação do coordenador do Comitê Abras de Eficiência Operacional, Samuel Peixoto. Segundo ele, o estudo avalia apenas os resultados obtidos pelas empresas, e não os processos que levam a esses indicadores. O especialista acrescentou que as redes apresentam diferentes níveis de maturidade e que, em alguns casos, as perdas sequer são contabilizadas.

Na análise por formato de operação, o levantamento mostra que Minas Gerais apresentou índices de perdas superiores à média nacional tanto no varejo convencional quanto no atacado e atacarejo. Ainda assim, o comportamento foi semelhante ao observado no restante do País, com o atacado e atacarejo registrando desempenho melhor que o modelo convencional.

No modelo convencional, a taxa de ineficiência foi de 3,24% em Minas Gerais, ante 2,15% na média nacional. Já o atacado e atacarejo registraram índice de 2,07% no Estado, frente a 1,54% no País. Para Peixoto, o varejo convencional, predominante no setor, ainda apresenta amplo espaço para evolução, já que o desempenho está significativamente acima da média brasileira.

“O atacarejo mineiro também tem grandes oportunidades para melhorar sua eficiência em relação aos resultados observados nacionalmente”, acrescentou.

Açougue e FLVO concentram os maiores desafios

supermercado verdemar
Foto: Diário do Comércio Arquivo Filó Alves

Entre as seções analisadas, os principais destaques foram o açougue e o setor de frutas, legumes, verduras e ovos (FLVO), que concentraram os maiores índices de perdas. O FLVO, em especial, apresentou taxas elevadas tanto na análise nacional quanto no mercado mineiro.

Em Minas Gerais, o açougue registrou perdas de 4,79% no varejo convencional e de 2,42% no atacarejo. No cenário nacional, porém, o comportamento foi diferente: a taxa foi de 4,14% no convencional e de 3,24% no atacarejo. Na avaliação do coordenador do estudo, essa diferença pode estar relacionada a características regionais, já que grande parte das empresas mineiras ainda trabalha com desossa.

Segundo Peixoto, a desossa, prática mais comum nos supermercados convencionais, tende a gerar índices de quebra superiores aos da chamada caixaria, modelo predominante nos atacarejos, em que os cortes já chegam separados e embalados para venda.

A carne bovina concentra a maior participação no faturamento da seção, com 43,5%, e também registra o maior índice de ineficiência no Estado, de 5,13%. Já a carne suína responde por 14,22% do faturamento, mas apresenta uma elevada taxa de ineficiência, de 4,81%. As aves, por outro lado, registraram o menor índice de perdas (1,82%) e a segunda maior participação no faturamento da categoria, com 42,28%.

De acordo com Flávia Borges, a prática da desossa já não é tão comum no restante do País, o que ajuda a explicar a diferença de rendimento da carne bovina em relação às demais proteínas comercializadas em Minas Gerais. “Essa é uma ineficiência da desossa. Se observarmos esse indicador nas aves e até mesmo na carne suína, ele será menor”, explicou.

Além das perdas, Peixoto destacou que as aves têm participação maior nas vendas em Minas Gerais do que na média nacional. Segundo ele, esse comportamento está relacionado tanto à busca por uma alimentação mais saudável quanto à renda das famílias, que têm priorizado proteínas mais compatíveis com o orçamento.

No FLVO, o varejo convencional mineiro apresentou a maior taxa de perdas, de 7,62%, ante 7,2% no atacarejo. No cenário nacional, porém, o comportamento foi inverso: o atacarejo registrou índice de 5,45%, enquanto o varejo convencional ficou em 5,04%.

O coordenador ressaltou que o hortifruti representa um dos maiores desafios para o varejo, por concentrar elevados índices de perdas em razão da perecibilidade dos produtos e da intensidade operacional da seção. “Nós precisamos ter uma operação constante e que funcione o dia todo na loja para garantir a qualidade”, afirmou.

O estudo também destaca o desempenho dos ovos no mercado mineiro. O produto responde por 18% da categoria e registrou perdas de 5,56%, abaixo da média da seção, mas com impacto relevante devido ao seu peso nas vendas. “Os ovos têm sido o grande impulsionador do crescimento do hortifruti e apresentam uma quebra elevada, embora inferior à média do setor”, afirmou o especialista.

A diretora do Comitê Abras de Eficiência Operacional destacou ainda a influência do comportamento do consumidor mineiro, tradicionalmente ligado às feiras livres e ao consumo de produtos frescos. Segundo ela, essa característica torna as categorias de perecíveis mais sensíveis às perdas.

Entre as estratégias sugeridas está a ampliação da oferta de itens de conveniência nas lojas. “Temos observado supermercados que melhoraram a eficiência no FLV ao acompanhar toda a cadeia do produto, desde a fruta in natura até sua transformação em sucos, saladas ou preparações culinárias”, relatou.

Agregação de valor reduz perdas no FLV

Loja da rede de supermercados premium Verdemar.
Foto: Verdemar / Divulgação

Em relação às oportunidades de agregação de valor no FLV, a pesquisa mostra que 34% das empresas entrevistadas transformam produtos fora do padrão comercial em coprodutos. Desse total, 23% realizam essa prática de forma pontual, enquanto 12,5% adotam o processo de maneira estruturada e recorrente.

Entre os coprodutos mais comercializados estão os legumes higienizados e cortados. Na sequência aparecem sucos naturais e vitaminas, saladas prontas, mix de folhas higienizadas e frutas cortadas individualmente. Também se destacam sopas prontas e kits sazonais ou temáticos.

Peixoto ressaltou que muitas empresas já adotam essa estratégia, mas ainda sem os controles necessários. Segundo ele, o desafio é aperfeiçoar continuamente os processos operacionais para ampliar a eficiência. O coordenador também destacou a logística como um obstáculo em Minas Gerais, já que, em alguns casos, os produtos percorrem longas distâncias até chegar aos pontos de venda. “Isso também afeta a qualidade e aumenta a perecibilidade dos produtos”, acrescentou.

O levantamento também mostra que 78% das varejistas comercializam suplementos, como barras de proteína, cereais, vitaminas e outros produtos voltados à saudabilidade. Desse grupo, 56% mantêm a venda de forma regular, enquanto 22% oferecem esses itens apenas de maneira sazonal.

A pesquisa aponta que furtos e desvios são os fatores que mais impactam a eficiência dessa categoria, seguidos pelas perdas relacionadas ao prazo de validade. Em Minas Gerais, a taxa de ineficiência dos suplementos é de 1,5%.

Os cinco produtos com maiores perdas por unidade são vitaminas e polivitamínicos, barras de cereal, barras de proteína, whey protein e creatina. Na análise por valor, o cenário praticamente se repete, com a única diferença de que as barras de proteína aparecem à frente das barras de cereal.

O estudo também mostra que 34% das empresas classificam os suplementos como Produtos de Alto Risco (PAR). Desse total, 17% adotam essa classificação apenas para parte do portfólio. Entre as empresas que utilizam esse modelo de controle, a principal medida é a realização de inventários mais frequentes. Outra prática comum é restringir o acesso e o manuseio desses produtos como forma de proteção.

Onde o varejo ainda pode ganhar eficiência

Loja da rede Rena em Juatuba, Minas Gerais.
Foto: Supermercados Rena / Google Maps / Reprodução

O estudo também apresenta um mapa das principais oportunidades para ganho de eficiência no varejo supermercadista mineiro. Entre os destaques está o aumento da participação da quebra operacional na composição das perdas, que passou de 73%, em 2024, para 75% no último exercício. Esse avanço foi impulsionado principalmente pelos produtos com prazo de validade vencido, responsáveis por 40% das perdas, e pelos itens impróprios para consumo, que representam outros 32%.

Os dados indicam que a gestão de perecíveis, o controle da validade dos produtos e a rotina de abastecimento continuam sendo fatores centrais para preservar os resultados do varejo. Segundo Flávia Borges, a quebra operacional está diretamente relacionada a pessoas e processos, o que torna mais fácil identificar oportunidades de melhoria.

“O problema não está da porta para fora, mas da porta para dentro. O supermercado do futuro não será o que vende mais por metro quadrado, mas aquele que extrai o melhor desempenho de cada metro quadrado e potencializa a atuação dos seus colaboradores”, declarou.

O desvio operacional, por sua vez, recuou de 17%, em 2024, para 15% no último exercício. O furto externo permaneceu como o principal componente dessa categoria, embora sua participação tenha caído de 67% para 63%. Em contrapartida, o furto interno avançou de 20% para 23%, reforçando a necessidade de aprimorar os processos de controle, monitoramento e prevenção dentro das empresas.

No ambiente administrativo, a participação permaneceu estável em 10% das perdas. O principal destaque foi o aumento dos erros de inventário, que passaram de 39% para 44%. Segundo o estudo, esse resultado reforça a importância de aprimorar a acuracidade dos estoques, padronizar os processos e integrar operação, sistemas e gestão.

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