Economia

Varejo supermercadista prevê alta de 3% em 2026 e acelera investimentos em tecnologia

Abras estima avanço real do varejo alimentar em 2026 e afirma que automação, autoatendimento e canais digitais ajudam o setor a enfrentar mais de 375 mil vagas abertas no País
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Varejo supermercadista prevê alta de 3% em 2026 e acelera investimentos em tecnologia
Foto: Grupo Bahamas / Divulgação

O varejo supermercadista brasileiro projeta crescimento real de 3% em 2026, já descontada a inflação, na comparação com o ano passado, quando o faturamento do varejo alimentar alcançou R$ 1,1 trilhão. Só em Minas, a expectativa de alta é de 3,45%. Paralelamente, o setor tem intensificado os investimentos em tecnologia para reduzir os impactos da escassez de mão de obra.

A avaliação é do vice-presidente comercial da Associação Brasileira de Supermercados (Abras), Rodrigo Segurado, em entrevista ao Diário do Comércio durante o evento Abras em Ação nas Estaduais, realizado nesta quinta-feira (25), em Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH). Segundo ele, eventos como a Copa do Mundo tendem a impulsionar o consumo.

“Todo momento de festa e de comemoração acaba gerando confraternizações entre as pessoas e elas consomem mais”, explicou.

Segurado explicou que o setor registra picos de consumo em períodos como o verão e datas comemorativas, como Natal e Dia das Mães. Ainda assim, segundo ele, o crescimento permanece consistente e deve encerrar o ano próximo de 3%.

Em 2025, o varejo alimentar registrou crescimento nominal de 7,32% e avanço real de 3,68% no consumo anual das famílias brasileiras em relação ao ano anterior. Segundo Segurado, esse desempenho mantém a trajetória de crescimento observada nas últimas décadas.

O vice-presidente da Abras também ressaltou o papel do setor como infraestrutura essencial para o abastecimento da população. Por outro lado, destacou que fatores como os juros elevados dificultam o cumprimento das metas de crescimento.

Segundo ele, muitas redes que expandiram suas operações quando os juros estavam em torno de 7% ao ano agora enfrentam um cenário mais desafiador, com taxas próximas de 15% ao ano. “Isso significa uma retração nos investimentos em expansão das redes de supermercados no Brasil”, afirmou.

Segurado ressaltou que esse movimento não ocorre como uma evolução tecnológica natural, mas como uma necessidade para manter a operação funcionando.

Entre os reflexos desse movimento estão a expansão dos caixas de autoatendimento (self-checkout) e o fortalecimento dos canais digitais, como o e-commerce e os aplicativos de last mile delivery.

Consumidor mais seletivo amplia diversidade de produtos

Loja da rede Supermercados BH em Cariacica, Espírito Santo.
Foto: Divulgação Supermercados BH

O dirigente destacou que o consumidor passou a contar com uma oferta mais ampla de preços e categorias de produtos, permitindo adequar as compras ao momento econômico de cada família. “O varejo alimentar sempre vai oferecer opções”, garantiu.

Para ele, algumas categorias poderão ser impactadas por mudanças de comportamento do consumidor. Como exemplo, ele citou o crescimento do uso das canetas de GLP-1, também conhecidas como canetas emagrecedoras, utilizadas no tratamento da obesidade, que já influencia o mix de produtos dos supermercados, ampliando a demanda por proteínas e reduzindo o consumo de carboidratos e bebidas alcoólicas.

“As lojas vêm ajustando, ao longo do tempo, o mix de produtos para acompanhar essa tendência de saúde e bem-estar”, afirmou.

De acordo com Segurado, a recém-aprovada autorização para funcionamento de farmácias em supermercados também deverá impactar o mix de produtos, com a introdução de medicamentos. Com isso, a mudança pode abrir novas oportunidades de crescimento em categorias até então pouco exploradas pelo varejo alimentar.

O executivo destacou que a indústria disponibiliza cerca de 230 mil SKUs (unidades de manutenção de estoque), enquanto um supermercado convencional trabalha com aproximadamente 15 mil itens. Segundo ele, isso oferece amplo espaço para que cada rede defina o mix de produtos mais adequado ao perfil de seus consumidores.

Perfil do consumidor e busca por saudabilidade

Sobre o perfil do consumidor brasileiro, Segurado lembrou que 74% da população pertence à faixa de baixa renda. Segundo ele, esse cenário ajuda a explicar o crescimento do atacarejo, que já responde por quase metade do varejo alimentar ao atender tanto bares e restaurantes quanto o consumidor final.

Sobre o processo de decisão de compra, o dirigente da Abras avaliou que o preço continua sendo o principal fator para o consumidor, seguido pela conveniência e pelo tempo. Nesse cenário, os canais que oferecerem uma experiência de compra mais rápida e prática tendem a ganhar vantagem competitiva.

O consumidor brasileiro tem reduzido a fidelidade a um único ponto de venda em busca das melhores oportunidades de compra. “Ele tem buscado abastecer em diferentes pontos de venda, de acordo com sua rotina, e se fidelizando menos a uma única rede”, relatou.

Ele afirmou que a busca por saúde e bem-estar é uma tendência consolidada no mercado. No entanto, ressaltou que parte significativa da população, especialmente a de baixa renda, ainda precisa ampliar o acesso à alimentação básica. Para ele, esse desafio passa pela valorização da tecnologia e da engenharia de alimentos utilizadas pela indústria.

Segundo o executivo, existe a percepção de que os produtos in natura são sempre mais saudáveis. Embora reconheça a importância desses alimentos, ele ressaltou que isso não significa que os industrializados sejam, necessariamente, prejudiciais à saúde. Para Segurado, cabe ao consumidor fazer escolhas conscientes com base em informações confiáveis.

A força do varejo alimentar

Apresentação do vice-presidente da Abras, Rodrigo Segurado, no evento Abras em Ação nas Estaduais em Minas Gerais.
Foto: Diário do Comércio / Leonardo Leão

Durante a apresentação, Segurado destacou indicadores que demonstram a relevância do varejo alimentar no País. Em 2025, o setor respondeu por 9,02% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, empregou cerca de 9 milhões de pessoas, direta e indiretamente, e reuniu 438.728 lojas, responsáveis por atender aproximadamente 30 milhões de consumidores por dia.

Apesar de operarem com margem média de lucro de cerca de 2%, as empresas supermercadistas alcançam eficiência operacional de 98,11%, a maior da cadeia de abastecimento. “Ou seja, deixamos de vender apenas cerca de 2% de tudo o que compramos dos fornecedores”, explicou.

O vice-presidente da Abras destacou que o varejo, mesmo operando em um ambiente aberto ao público, alcança índices de eficiência operacional semelhantes aos da indústria, cuja operação ocorre em ambientes fechados.

Outro aspecto destacado foi a maior desconcentração de poder econômico dos grandes players nacionais em comparação com outros países. No Brasil, as três maiores empresas respondem por cerca de 22% do setor. Na Alemanha e na Itália, essa participação chega a 82%; no Chile, a 91%; e, no Peru, praticamente 100%.

Segundo Segurado, esse cenário resulta em um ambiente altamente competitivo, o que beneficia diretamente o consumidor e estimula ganhos de eficiência entre os varejistas.

“Isso para nós é considerado uma preciosidade, porque nós conseguimos com a competição desafiar cada vez mais cada uma das empresas a prestar o melhor serviço e a praticar o melhor preço”, completou.

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