Brasileiro planeja compras com antecedência e troca marcas para manter o carrinho cheio
Durante a apresentação na Convenção Abad 2026, realizada pela Associação Brasileira de Atacadistas e Distribuidores (Abad), em Atibaia (SP), o diretor de atendimento ao varejo da NielsenIQ, Domenico Tremaroli Filho, ressaltou que a redução do consumo observada nos últimos anos é um movimento global, acompanhado pela diminuição do número de pontos de venda. Entre os fatores que explicam esse cenário estão o novo patamar de preços mais elevados e desafios estruturais enfrentados pelo setor.
Dados da NielsenIQ mostram que o preço do café em pó e em grãos, por exemplo, aumentou 248% em 2025 na comparação com 2019. Já produtos como óleo e azeite registraram alta de 118%, enquanto o arroz ficou 78% mais caro no período. Segundo o especialista, esse cenário levou o brasileiro a redefinir sua forma de consumir, deixando em segundo plano características tradicionalmente associadas ao mercado nacional, como a forte fidelidade a determinadas marcas.
“Estamos vendo o brasileiro cada vez mais disposto a trocar de marca para poder manter o carrinho cheio”, afirmou.
A pressão inflacionária tem ampliado a busca por alternativas mais baratas. Prova disso é que 66% dos consumidores estão dispostos a migrar para opções com preços mais baixos, 45% afirmam fazer essa troca independentemente da marca e 40% costumam monitorar o custo total da cesta de compras.
O especialista destacou que os canais mais frequentados pelas classes de menor renda tendem a ser os mais penalizados nesse contexto. É o caso dos supermercados independentes e das mercearias, que registraram retração de 2,5% em valor, queda de 6% no volume de vendas e aumento de 7% nos preços dos produtos.
As estimativas da NielsenIQ para este ano apontam retração entre 0,8% e 1,4%, a depender do desempenho do segmento de bebidas e dos produtos tradicionalmente associados ao período da Copa do Mundo.
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Esse cenário mais adverso tem transformado o brasileiro em um consumidor mais seletivo e estratégico na hora de comprar. A maioria (80%) afirma planejar as compras com antecedência, enquanto 30% declaram realizá-las semanalmente. Além disso, 48% das categorias perderam penetração nos lares entre 2024 e 2025, e 60% registraram queda na frequência de compra.
Tremaroli relatou que os consumidores têm buscado marcas mais baratas principalmente nas categorias essenciais, como produtos de limpeza, itens para cuidados com a casa e alimentos básicos. Além disso, 28% dos brasileiros pretendem gastar menos com mantimentos nos próximos 12 meses, enquanto mais de 40% querem reduzir as despesas com alimentação e entretenimento fora do lar.
Queda do consumo fora do lar abre novas oportunidades

Essa mudança de comportamento também tem gerado oportunidades para o mercado. A redução do consumo de refeições fora de casa é um dos fatores que impulsionaram o aumento de 14% nas vendas de panelas elétricas de arroz, de 65% nas de micro-ondas e de 136% nas de lava-louças no último ano, em comparação com 2024. “Existem grandes desafios, mas também existem oportunidades”, ressaltou.
O volume de alimentos relacionados ao preparo de refeições em casa cresceu 3,5%, enquanto o conjunto da categoria de alimentos registrou queda de 0,6%. Outro segmento positivamente impactado é o e-commerce, com destaque para a estabilidade do delivery e das compras voltadas ao abastecimento doméstico. Atualmente, 3,1 milhões de lares realizam compras on-line, o que representa um avanço de 5,1 pontos percentuais (p.p.) em penetração e coloca o canal na quarta posição entre os que mais ganharam espaço.
A maioria (88%) dos consumidores já compra bens de consumo rápido pela internet, e 64% dos brasileiros afirmam ter deixado de comprar no varejo físico para consumir no ambiente digital. “O e-commerce é uma realidade e quem não está olhando para ele deveria prestar mais atenção”, ressaltou.
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O diretor de atendimento ao varejo da NielsenIQ destacou que o brasileiro está cada vez mais familiarizado com esse canal, que já responde por 3,3% das vendas dos supermercados. Além disso, 86% das categorias presentes tanto no varejo físico quanto no on-line apresentam crescimento mais acelerado no ambiente digital, enquanto 11% crescem exclusivamente nesse canal.
Produtos premium e marcas próprias ganham espaço
Apesar da maior preocupação com a redução dos gastos, também há uma tendência de aumento do consumo de marcas mais sofisticadas. A busca por produtos premium acessíveis tem se tornado cada vez mais comum no mercado brasileiro, com destaque para categorias como beleza e cuidados pessoais, alimentos indulgentes e bebidas alcoólicas.
O especialista explica que, em muitos casos, o consumidor opta por uma marca premium com preço ligeiramente superior à média da categoria, buscando equilibrar custo e valor percebido. “O brasileiro vem fazendo essas escolhas e equilibrando seu carrinho. Nós vemos isso acontecendo de forma cada vez mais intensa”, acrescentou.

Nesse cenário de busca por qualidade sem abrir mão do controle dos gastos, os produtos de marca própria, ou private label, surgem como uma oportunidade relevante. Tremaroli ressaltou que os grandes varejistas brasileiros já vêm adotando essa estratégia, embora esse tipo de produto ainda tenha participação limitada no mercado alimentar.
Segundo ele, a cada R$ 100 gastos no varejo alimentar brasileiro, apenas R$ 1 é destinado a produtos de marca própria, enquanto nas farmácias esse valor chega a R$ 10. Em outros países, a participação desses itens alcança até 40% dos gastos do consumidor. “Existe uma questão cultural no Brasil. O consumidor sempre foi muito ligado às marcas, o que fez com que os produtos de marca própria ficassem para trás, além de outros fatores logísticos”, explicou.
Além disso, o diretor destacou que os produtos que não levam a marca do varejista tendem a vender até dez vezes mais do que aqueles identificados com a marca da rede. Já o presidente da Abad, Leonardo Miguel Severini, avaliou que a perda de qualidade observada em parte desses produtos ao longo dos anos acabou comprometendo sua credibilidade. Como consequência, muitos consumidores deixaram de considerar essas marcas no momento da compra.
No entanto, ele afirmou que, recentemente, é possível observar um esforço conjunto dos agentes envolvidos nesse ecossistema para fortalecer a curadoria dos produtos e desenvolver uma identidade de marca mais consistente.
“Isso contribui para restabelecer a credibilidade e faz com que o consumidor volte a olhar para essas marcas. É muito mais difícil construir uma marca própria forte do que simplesmente desenvolver um produto de qualidade”, disse.
Severini explicou que os produtos de marca própria ocupam um espaço intermediário entre preço, qualidade e proposta de valor. Ele reforçou que os players desse segmento vêm desenvolvendo esses itens de forma mais estruturada e alinhada às expectativas dos consumidores.
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