Super El Niño põe o setor elétrico e o mercado livre de energia em alerta, e conta de luz pode pesar para o consumidor

Fenômeno climático eleva aversão ao risco, exige medidas preventivas e pode impactar tarifas e geração, segundo especialistas
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Super El Niño põe o setor elétrico e o mercado livre de energia em alerta, e conta de luz pode pesar para o consumidor
Acionamento de térmicas por conta dos impactos do El Niño no sistema elétrico pode onerar a tarifa de energia | Foto: Gilberto Sousa / CNI

A chance de um El Niño de intensidade recorde no segundo semestre aumentou a preocupação geral no setor elétrico e no mercado livre de energia. O segmento está tentando antecipar e prever o máximo de situações possíveis, o que pode acarretar mudanças na distribuição e, por consequência, nas tarifas que serão pagas pelo consumidor.

Uma das medidas tomadas pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), que tem conversado com o Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE) sobre ações preventivas, é buscar proteger os estoques de água dos reservatórios e as fazendas de energia fotovoltaica.

Segundo a ex-superintendente da área de tarifas da Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig), sócia-proprietária e diretora da Powertrade Energia, Maura Galuppo, o Super El Niño tem potencial de interferir na forma de geração e distribuição de energia elétrica, pois as matrizes brasileiras de energia mudaram muito nos últimos anos.

O processo preventivo para evitar apagões pode impactar o bolso do consumidor, de alta e de baixa tensão, já que, talvez, seja necessário o acionamento de termelétricas fora da ordem de mérito econômico.

“Tanto o Super El Niño quanto a La Niña são fenômenos que alteram os padrões de chuva e de temperatura no planeta. A nossa matriz energética ainda tem uma predominância grande de hidrelétricas com grandes reservatórios, e a maior ou a menor quantidade de chuvas pode afetar diretamente o preço da energia”, disse Maura Galuppo.

“Estamos vivendo um momento um pouco diferente do que temos vivido ao longo dos anos, porque a nossa matriz energética mudou. Hoje temos um volume muito maior de energias intermitentes, que é o caso das usinas fotovoltaicas e eólicas. A característica de uma usina intermitente é que ela só gera energia em determinados horários. No caso das usinas fotovoltaicas, o período de geração é fora do horário de ponta, quando a demanda é menor. Elas ainda não entregam o volume gerado dentro do período de maior consumo. E aí temos que lançar mão das termelétricas”, explica a especialista.

Risco hídrico

Maura Galuppo assinala outro ponto: a influência dos fenômenos climáticos, como o Super El Niño, na precificação da energia de curto prazo. O Preço de Liquidação das Diferenças (PLD), que é o valor de referência da energia elétrica negociada no mercado de curto prazo do Brasil, pode afetar diretamente o CVaR, que é o componente de aversão ao risco.

Com um El Niño de alta intensidade, pode haver grande variação pluviométrica, com poucas ou muitas chuvas, o que terá efeito direto nos mercados de geração elétrica por hidrelétricas e fotovoltaicas.

“As métricas de definição do CVaR foram alteradas nos dois últimos anos, e com isso a nossa percepção de aversão a risco ficou mais forte. Estamos mais avessos ao risco de falta de energia nos nossos grandes reservatórios hidrelétricos. Por isso, estamos deixando de gerar com hidrelétricas e acionando as termelétricas, justamente para guardar mais energia nos reservatórios para um momento mais crítico no futuro”, comenta Maura Galuppo.

Pequenos impactos

Outro especialista no setor elétrico e no mercado livre de energia, o diretor da CMU Comercializadora de Energia, Walter Fróes, não vê o cenário do Super El Niño como algo avassalador para o segmento. Ele acredita que o agronegócio deve ter alguma preocupação, mas sem grandes contratempos.

“Não há expectativa de que o El Niño impacte fortemente o setor elétrico como um todo. Não existe essa expectativa. A previsão é de chuvas maiores no Sul do País, o que abastece vários reservatórios. E boa parte da energia que geramos hoje depende tanto das hidrelétricas quanto das térmicas. Então, a nossa expectativa é que não haja nenhum impacto no mercado de energia e, por conseguinte, também não haverá no mercado livre. Claro que pequenos impactos podem ocorrer, mas nada se compara, por exemplo, ao que está sendo esperado para o setor do agronegócio”, disse Walter.

Prevenção financeira

Maura Galuppo chama a atenção para outro elemento do atual cenário do setor elétrico brasileiro: a privatização da Eletrobras. A empresa era um agente que ajudava a regular e a prevenir possíveis apagões, racionamentos de energia e prejuízos financeiros ao setor.

No passado, as empresas se preparavam com base em modelos matemáticos e estatísticos que rodavam a previsão futura do preço da energia e, com isso, conseguiam planejar os meses seguintes. O modelo atual se baseia em operações back-to-back (venda e recompra de energia).

“Uma coisa importante é que, normalmente, as comercializadoras mais conservadoras de energia adotam a estratégia de fazer operações back-to-back. O que isso quer dizer? Você vende energia à medida que compra, ou seja, faz operações casadas de compra e venda e não fica exposto: não vende energia sem ter comprado, nem compra sem ter vendido. Essas operações back-to-back é que dão um certo conforto para que as comercializadoras não tenham problema de liquidez na hora de finalizar os seus contratos na CCEE”, explica Maura.

Sobre o autor

Anderson Gonçalves

Jornalista desde 2002, especialista em Projetos Editoriais e campanhas políticas. Desde 2025 é repórter de economia e negócios no Diário do Comércio.

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