A Vale é uma das três mineradoras com maior valor de mercado no mundo, aponta o relatório Mine 2020 | Crédito: Divulgação

Apesar de a pandemia do Covid-19 ter afetado os mais diferentes segmentos da economia, o setor de mineração segue suas atividades e planejamentos sem grandes problemas ou retrações.

Isso é o que mostra o relatório Mine 2020, da PwC, que indica que as 40 maiores mineradoras do mundo deverão ter um impacto de 6% em suas receitas neste ano, o equivalente a US$ 649 bilhões.

A Vale é a única representante brasileira da pesquisa e encabeça a lista em relação a valor de mercado junto as anglo-australianas BHP e Rio Tinto.

Ainda segundo os dados do estudo, essa diminuição de 6% deve se dar por causa da queda dos preços das commodities. No entanto, no caso do Brasil, a situação pode ser um pouco diferente.

Conforme destaca o sócio da PwC, Ronaldo Valiño, o País tem a seu favor a questão do câmbio, o que favorece ainda mais as exportações. “O real se depreciou em relação a outras moedas. Portanto, provavelmente, o Brasil é mais beneficiado”, ressalta ele.

O relatório também aponta que o Ebitda das empresas pesquisadas deve apresentar queda de 6% (US$ 157 bilhões). Diante de todo esse cenário, a conclusão da PwC é a de que as mineradoras estão em uma boa posição para enfrentarem os reflexos da pandemia.

“Essas empresas têm se mostrado resilientes. Além disso, já estão acostumadas à flutuação de preços e a ações de enfrentamento de crise”, salienta Valiño.

O sócio da PwC também lembra que algumas situações externas já foram controladas. A China, grande compradora de minério, chegou a reduzir as compras no período mais grave da pandemia por lá. No entanto, voltou rapidamente aos negócios de antes.

Porém, apesar do cenário mais promissor, o estudo também alerta as empresas em relação à necessidade de elas se adaptarem aos reflexos da pandemia no longo prazo.

Uma das possibilidades nesse sentido é uma aproximação maior das cadeias de suprimentos às comunidades locais, o que contribui para a diminuição de custos.

Transformações – A pesquisa também revela que as mineradoras vêm mudando um pouco a forma de agir. “O endividamento das empresas vêm diminuindo. Há uma preocupação em dar retorno aos acionistas”, diz Valiño. Dessa forma, apesar de os investimentos em novos ativos terem apresentado crescimento no ano fiscal de 2019, a tendência é de desaceleração em 2020.

Além disso, megatransações também não estão previstas para este ano, por motivos como o aumento das incertezas econômicas e restrições a visitas e inspeções.

“O cenário de incertezas não é propício para grandes operações. Além disso, as empresas de mineração têm tido mais cuidado nas aquisições. No início dos anos 2000 houve uma corrida quase que frenética para operações de compras. Foram feitos investimentos em projetos em lugares de difícil logística. A maioria não deu certo, o que gerou perdas relevantes”, diz.

Ataques cibernéticos – Por fim, o estudo da PwC também mostra que somente 12% dos CEOs de empresas de mineração e metais estão extremamente preocupados com a cibersegurança. No ano fiscal de 2019 eram 14% e no de 2018 eram 21%.

No entanto, a pesquisa mostra que o número de violações à cibersegurança está crescendo. De acordo com Valiño, é preciso que as empresas aumentem o cuidado com o tema.

Preços do minério de ferro devem recuar

São Paulo – Os preços internacionais do minério de ferro tendem a recuar no segundo semestre, à medida que a mineradora brasileira Vale pretende retomar parte de seu potencial produtivo, disse o CFO da companhia, Luciano Siani, na sexta-feira (3).

Após um primeiro trimestre fraco, no qual a companhia teve de reduzir seu guidance para 310-330 milhões de toneladas em 2020, em meio a atrasos na retomada de produção de minas paradas após a tragédia em Brumadinho (Região Metropolitana de Belo Horizonte) e impactos do coronavírus, o executivo sinalizou que a empresa estará em posição de ofertar maior volume.

Para o segundo semestre, o CFO disse que a meta da Vale é acelerar o ritmo de produção, em relação ao registrado nos seis primeiros meses de 2020, e atingir o objetivo anual, que já considera um provisionamento de perdas associadas à pandemia em 2020 de até 15 milhões de toneladas.

“(Com isso), os preços do minério de ferro devem cair no segundo semestre… mas é melhor a companhia produzir com sua potencialidade em um mercado menor (de valor) do que ficar (com preços altos) na situação de restrição (de produção) e favorecendo seus concorrentes”, explicou ele em live promovida pela XP Investimentos.

Durante a pandemia do novo coronavírus, a Vale viu algumas de suas minas do Complexo de Itabira (na região Central) serem interditadas judicialmente devido ao surto da doença entre funcionários, mas as operações já foram retomadas.

Anteriormente, a Vale disse à Reuters que está “enfrentando o desafio da Covid-19, atuando em suas operações com um contingente mínimo de pessoas de forma a manter apenas as atividades com segurança”. A empresa chegou a informar que tinha cerca de 60% de trabalhadores nas operações. “A companhia quer retomar a produção, mas retomar de maneira segura”.

Siani admitiu que a alta nas cotações externas do minério de ferro registrada nos últimos meses foi causada, inclusive, pelo cenário desafiador da companhia, tradicionalmente a maior produtor global de minério de ferro, que em 2019 perdeu o posto para a Rio Tinto, como consequência de Brumadinho.

“A razão do preço elevado no minério de ferro foi a própria incapacidade da Vale de trazer produção para o mercado”, enfatizou.

No início de junho, o minério de ferro no mercado físico da China atingiu o maior nível em quase um ano, em meio a preocupações com Itabira, a commodity perdeu um pouco da força recentemente, mas ainda está sendo negociada acima de US$ 100 por tonelada.

Dividendos – Na ponta da demanda, a percepção do executivo é de que a China, até o momento, teve uma recuperação muito rápida depois do início da pandemia do Covid-19, o que favorece o consumo de produtos como o aço.

“Se a geração de caixa se mantiver forte e a companhia voltar com a produção maior, a companhia poderá voltar a pagar dividendos”, estimou Siani.

Ele afirmou que a Vale encontra-se apta para retomar a política de pagamento de dividendos a investidores, interrompida após a tragédia em Brumadinho, e, para tanto, depende apenas da redução de incertezas relacionadas à pandemia do coronavírus.
Siani destacou que a Vale já indenizou mais de 7 mil pessoas, com pagamentos que alcançaram cerca de R$ 3 bilhões aos indivíduos afetados pela tragédia.

O CFO afirmou ainda que, atualmente, a mineradora é negociada “muito aquém” de que deveria, com base em sua capacidade de geração de riquezas. “A Vale tem uma valorização de mercado que é penalizada em função dessa percepção de risco e práticas que precisam evoluir… Estamos avançando nessas práticas (porque) podemos criar valor para a companhia”, disse.

Segundo Siani, às vésperas do rompimento da barragem de Brumadinho, o valor de mercado da Vale estava cerca de US$ 5 bilhões abaixo da Rio Tinto, sua principal concorrente. Essa distância se ampliou para US$ 30 bilhões depois de Brumadinho, comparou o CFO, e depois se ampliou novamente para US$ 40 bilhões por dificuldade de produzir em meio à pandemia. (Reuters)