Terceiro setor pode ser um dos maiores motores de transformação de uma cidade, diz fundadora do Garotos da Vila
Num festival dedicado à tecnologia, também há espaço para a transformação social feita da forma mais humana possível: pessoas cuidando de pessoas. Foi esse o mote levado ao HackTown 2026, realizado de 3 a 7 de setembro em Santa Rita do Sapucaí, pela fundadora e diretora do Instituto Garotos da Vila, Isabel Ferreira. Em entrevista a Sílvia Castro, para o podcast Na Boa, parceria do Diário do Comércio, ela contou como o festival mudou a trajetória da organização, criada há nove anos na cidade.
Um instituto com fila de espera maior que a capacidade atual
Ao longo do ano, na sede em Santa Rita do Sapucaí, o Garotos da Vila atendia, à época da entrevista, 712 crianças e adolescentes, com uma fila de espera de mais de 600 nomes. A programação regular do instituto incluía oficinas de balé, jazz, karatê, futebol, futsal e vôlei, além de atendimento psicológico, serviço de convivência e fortalecimento de vínculos, aulas de inglês, informática e teatro musical.
“A gente trabalha com muito cuidado, com muita qualidade, para passar aos nossos adolescentes a intenção de se sentir pertencente a algo, para que eles possam ter a vida transformada”, explicou Isabel Ferreira.
Aproximação com o HackTown fez o instituto crescer 250%
Para Isabel Ferreira, a proximidade com o HackTown foi um divisor de águas para o instituto, mesmo sem o festival integrar a rotina de atividades do Garotos da Vila. Desde que passou a participar ativamente do evento, inclusive no credenciamento e nas atividades abertas à comunidade, o instituto teria crescido 250% (em número de atendimentos), segundo a fundadora, com acesso a cursos de gestão do terceiro setor e à primeira emenda internacional recebida pela organização.
Apesar do avanço, ela reconheceu que o terceiro setor de Santa Rita ainda enfrentava uma limitação de recursos se comparado a organizações de Belo Horizonte. “A gente ainda tá dentro de uma bolha. As entidades de BH já conseguem captar recursos de mais formas do que a gente, seja pela falta de informação, seja pelo apoio das empresas daqui”, avaliou.
Isabel Ferreira também apontou uma lacuna entre o perfil tecnológico de Santa Rita do Sapucaí e a cultura de responsabilidade social das empresas locais. Na visão da fundadora, falta ao poder público de Santa Rita uma atuação mais forte para aproximar o setor privado do terceiro setor, já que esse apoio ajuda a transformar a vida de pessoas que serão os próximos funcionários, empresários e médicos da cidade.
“Não existe tecnologia que substitua pessoas”
Questionada sobre a relação entre o trabalho do instituto e o conceito de inovação discutido no HackTown, Isabel Ferreira defendeu que a verdadeira transformação começava nas pessoas. “Não existe tecnologia, não existe software que substitua pessoas. A principal ferramenta é trabalhar pessoas, transformar vidas, para que a inovação realmente aconteça”, afirmou.
Coautoria em livro sobre liderança marcou a trajetória
Isabel Ferreira participa, como coautora, do livro “Liderança e Inovação”, lançado no HackTown. Na obra, ela relata a história do Garotos da Vila desde a fundação até os planos futuros da organização.
“Foi muito desafiador, nunca imaginei ser coautora de um livro. Na nossa parte, conto um pouco da minha história e da história do Garoto da Vila, de onde a gente começou até onde chegou agora”, disse. Para ela, a continuidade do projeto ao longo de quase dez anos era o maior desafio de manter um trabalho como esse.
“Somos família”: resultados foram além do esporte e da arte
Entre os atendidos, havia sonhos concretos: meninos que queriam ser jogadores de futebol, meninas que sonhavam em ser bailarinas. Isabel Ferreira destacava, porém, que o objetivo do instituto ia além disso: formar boas pessoas e bons cidadãos. Jovens do projeto já haviam disputado campeonatos estaduais e nacionais, e um grupo de bailarinas do instituto havia conquistado, pouco antes, o primeiro lugar em um festival em Campos do Jordão.
“A gente tem um lema: somos família. Eu sei o jeito de cada um, sei o nome de cada um e sei o quanto cada um é especial para nós. Isso é o que nos dá força para continuar”, contou a fundadora.
Cerca de 200 jovens do instituto participavam ativamente das atividades do HackTown, segundo Isabel Ferreira, uma oportunidade, na avaliação dela, para que rompessem barreiras e enxergassem novas perspectivas de futuro.
Planos: sede própria e expansão para outros municípios
Isabel Ferreira afirmou que o instituto estava avaliando formas de captar recursos para construir uma sede própria e planejava, no futuro, expandir a atuação do Garotos da Vila para outros municípios. “Com essa metodologia do amor que a gente usa, vamos conseguir atingir a vida de muitas pessoas e transformar muitas realidades”, disse.
Serviço: o Instituto Garotos da Vila pode ser encontrado no Instagram pelo perfil @garotosavila1.
Reportagem produzida com base em entrevista conduzida por Sílvia Castro para o podcast Na Boa, parceria do Diário do Comércio, disponível no canal do Diário do Comércio MG no YouTube (@diariodocomerciomg).
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