HackTown 2026: dez anos depois, festival consolida Santa Rita do Sapucaí como vitrine de inovação em Minas
Encerrado nesta segunda-feira (7), o HackTown chegou à 10ª edição consolidado como uma das principais vitrines de tecnologia e inovação de Minas Gerais. Ao longo de cinco dias, o festival reuniu mais de 700 atividades em Santa Rita do Sapucaí, no Sul do Estado, entre palestras, painéis, workshops e mentorias. Segundo o Instituto Nacional de Telecomunicações (Inatel), mais de 15 mil pessoas devem ter passado pelo evento.
Além de apresentar soluções tecnológicas aplicadas à saúde, ao campo e à indústria, o HackTown ampliou a articulação entre empresas, universidades, governos e entidades de diferentes regiões. A programação destacou a formação de uma rede de inovação entre seis municípios do Sul de Minas, atraiu cidades interessadas em replicar o modelo do Vale da Eletrônica e abriu espaço para debates sobre inteligência artificial, diversidade e desenvolvimento econômico. Paralelamente, uma série de entrevistas do podcast Na Boa, parceria do Diário do Comércio conduzida por Sílvia Castro, registrou mais de uma dezena de conversas que ajudam a entender o que ficou do festival além dos números.
HackTown 2026 em destaque
- 10ª edição do festival, realizada de 3 a 7 de setembro em Santa Rita do Sapucaí;
- Mais de 700 atividades e mais de 15 mil visitantes, segundo o Inatel;
- Vale da Eletrônica: mais de 340 empresas e 5,1 mil empregos formais em tecnologia;
- Inatel: 61 anos de história e 85 das 170 empresas da cidade nascidas em sua incubadora;
- SRI Sul de Minas: 6 cidades articuladas e 12 projetos de ciência, tecnologia e novos negócios;
- São Gonçalo do Rio Abaixo: município do Médio Piracicaba busca no evento um modelo para se tornar um “pequeno Vale do Silício”;
- Instituto Garotos da Vila: crescimento de 250% após aproximação com o festival, segundo a fundadora Isabel Ferreira;
- Santa Casa BH: Projeto Santo Bolinho arrecadou fundos para o centro de autismo da instituição;
- Mais de dez entrevistas do podcast Na Boa ampliaram o debate para terceiro setor, diversidade, economia circular e sustentabilidade.
Um ecossistema com 60 anos de história
O evento colocou em evidência o Vale da Eletrônica, que reúne mais de 340 empresas de tecnologia e inovação e gera cerca de 5,1 mil empregos formais no setor. A região também recebe mais de 50 mil visitantes por ano em eventos ligados ao segmento e se posiciona como centro de desenvolvimento das tecnologias 5G e 6G no País.
No primeiro dia do festival, a presidente da Invest Minas, Milena Pedrosa, destacou que a atração de investimentos também deve considerar o desenvolvimento socioeconômico do território. Segundo ela, o polo tecnológico local, construído ao longo de 60 anos, é resultado da relação entre governo, universidades e sociedade civil organizada.

Durante o HackTown, a agência também reforçou o programa Mantenha Minas, voltado à permanência e à expansão das empresas já instaladas no Estado.
Inatel transforma pesquisas em soluções para o mercado
Berço do HackTown, criado por um grupo de estudantes da instituição, o Inatel permanece como uma das principais bases físicas e de conteúdo do festival. O diretor Carlos Nazareth Marins explicou que a participação do instituto aborda tendências tecnológicas e soluções capazes de gerar ganhos de eficiência e rentabilidade para as empresas.
Segundo ele, o impacto do evento ultrapassa os cinco dias de programação. Muitos visitantes descobrem durante o festival que empresas de Santa Rita do Sapucaí fabricam equipamentos de telecomunicações, dispositivos eletromédicos e sensores industriais. A partir desse contato, passam a enxergar o município também como fornecedor e parceiro de negócios.
Nesta edição, o instituto apresentou soluções que aplicam inteligência artificial a problemas concretos da saúde e do campo. Entre elas estão um espelho capaz de aferir frequência cardíaca, respiração e oxigenação do sangue sem contato físico e sensores para o monitoramento remoto de colmeias, desenvolvidos para auxiliar apicultores.
Outra tecnologia combina drones, mapeamento em três dimensões e processamento de dados na borda, conhecido como Edge AI. A solução tem potencial de aplicação na agricultura, na mineração, na energia e no meio ambiente. Para o pesquisador Francisco Portelinha, o objetivo é usar a tecnologia para ampliar a produtividade e gerar benefícios para diferentes públicos, do produtor rural ao consumidor final.
Em entrevista ao podcast Na Boa, Carlos Nazareth Marins detalhou os 61 anos de história do Inatel, fundado em 1965 para formar o primeiro curso de engenharia de telecomunicações do Brasil, e lembrou que das 170 empresas hoje instaladas em Santa Rita do Sapucaí, 85 nasceram dentro da incubadora da instituição. Questionado sobre o avanço da inteligência artificial, foi direto: “A inteligência artificial nunca vai substituir a inteligência natural. O esforço robótico nunca vai substituir a intelectualidade que o homem tem, e que o ser humano pode colocar em prol do bem-estar de todos nós.”
Municípios do Sul de Minas somam forças
O festival também serviu de palco para o Sistema Regional de Inovação (SRI) Sul de Minas, iniciativa pioneira no Estado que integra Santa Rita do Sapucaí, Lavras, Varginha, Itajubá, Pouso Alegre e Poços de Caldas.
O sistema conta com o apoio do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas de Minas Gerais (Sebrae Minas), da Federação das Associações Comerciais e Empresariais do Estado de Minas Gerais (Federaminas), da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) e da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais (Faemg).
Segundo a gestora do Sebrae Minas no Vale da Eletrônica, Myrian Sousa, o sistema já desenvolve 12 projetos voltados à ciência, à tecnologia e à criação de novos negócios. Uma reunião realizada no primeiro dia do HackTown, com representantes das seis prefeituras, também viabilizou um edital destinado às startups da região.
Modelo inspira outras regiões do Estado
O alcance do HackTown ultrapassou o Sul de Minas. São Gonçalo do Rio Abaixo, no Médio Piracicaba, região Central do Estado, participou do evento em busca de referências para diversificar uma economia atualmente ancorada na mineração.
O secretário de Desenvolvimento Econômico do município, Gabriel Quintão, disse que a cidade busca entender como setor produtivo, academia e poder público se articularam para consolidar o ecossistema de Santa Rita do Sapucaí. Em entrevista ao podcast Na Boa, ele detalhou o modelo que São Gonçalo do Rio Abaixo vem seguindo: uma cidade de 12 mil habitantes cuja receita de mineração saltou de R$ 20 milhões para R$ 286 milhões em 20 anos, usada para atravessar três ciclos, o de infraestrutura, o de atração industrial e, agora, o de formação de capital intelectual. “Mineração é nosso ponto de partida, nunca pode ser o destino final”, resumiu.

Ele também citou a recém-criada Agência Prospera como aposta para dar continuidade às políticas de desenvolvimento, independentemente das mudanças de governo, e revelou a ambição declarada do município de se tornar, em suas palavras, “um pequeno Vale do Silício” dentro do Médio Piracicaba, região que, segundo Quintão, merece ser reconhecida como um recorte econômico próprio de Minas Gerais, ao lado de Sul de Minas, Triângulo e Zona da Mata.
IA, colaboração e novas vozes no debate
Vindo de Belo Horizonte, o hub de inovação Órbi participou do festival com o objetivo de cocriar soluções de inteligência artificial e ampliar o que chama de protagonismo coletivo no ecossistema mineiro.
O CEO Christiano Xavier definiu a participação como uma troca de aprendizados entre diferentes regiões do Estado. Uma das atividades promovidas pelo hub, o painel “A voz da favela na transformação da sociedade”, levou ao festival uma perspectiva menos tradicional sobre inovação.
Participaram da discussão o arquiteto Pedro Quintanilha, da Nuar; a empreendedora Noele Gomes, do Instituto Colmeia; e o artista Fred Negro F, da Agência Grafite Brasil. O painel abordou as comunidades como produtoras de conhecimento e tecnologia.
Um podcast dentro do festival: o que mais de uma dezena de entrevistas revelou
Ao longo da semana, o podcast Na Boa ouviu, além das fontes institucionais do festival, mais de dez convidados que ampliaram o debate para além da tecnologia propriamente dita. Logo no início da cobertura, o cofundador do HackTown, Marcos David, fez questão de resumir o espírito do evento: “O centro é a vida. Se nós não estivermos colocando todas essas coisas em prol do servir ao todo, a gente tá criando uma distopia.”
Parte das conversas tratou de economia e sustentabilidade. O empresário Fernando Bertolucci, fundador da Inovitae, defendeu que ESG precisa deixar de ser tratado como agenda paralela aos negócios, num momento que chamou de “guerra climática”. Já a articuladora de ecossistemas Priscilla Arantes resumiu de forma direta o que viu no território: “não tem nada mais tecnológico do que os povos originários já fazem”. Na mesma linha, Lídice Berman, à frente do Fórum Nordeste de Economia Circular, questionou o próprio conceito de “novas economias”, ao lembrar que práticas hoje batizadas de economia circular ou solidária já são sustentadas há gerações por comunidades tradicionais.
Outra frente de conversas girou em torno do terceiro setor. O cientista político e filósofo Rodrigo Starling apresentou o livro “Third Sector Valley”, recuperando a frase de um dos organizadores do HackTown segundo a qual “o terceiro setor é o hack do capitalismo”. Isabel Ferreira, fundadora do Instituto Garotos da Vila, atribuiu à proximidade com o festival um crescimento de 250% do projeto social que mantém em Santa Rita do Sapucaí, enquanto o diretor da Santa Casa BH, Roberto Otto, levou ao festival o Projeto Santo Bolinho, iniciativa que reverte a venda de bonecos criados com a artista Raquel Bolinho para o centro de autismo da instituição.
Diversidade e inclusão também tiveram espaço. A especialista Adrielly Honório defendeu que diversidade é estratégia, não favor, enquanto o comunicador Manoel Soares resumiu a diferença entre os dois conceitos com uma analogia direta: “diversidade é quando você me convida para ir na sua festa. Inclusão é quando eu vou na sua festa e eu posso escolher a música e posso dançar.” Já o escritor Ricardo Cury propôs uma releitura do lema “Ordem e Progresso” a partir da frase original do filósofo Auguste Comte, da qual, segundo ele, a palavra “amor” ficou de fora.
O que fica
Ao apresentar soluções tecnológicas aplicadas ao campo e à saúde, articular seis cidades em rede, atrair o interesse de outras regiões de Minas em replicar o modelo e ampliar o conceito de quem produz inovação, o HackTown 2026 reforçou o papel de Santa Rita do Sapucaí como referência nacional. As entrevistas realizadas ao longo do evento também mostraram que essa referência não se resume à tecnologia: passou por saúde, terceiro setor, diversidade, economia circular e filosofia, unidos pela mesma pergunta, feita de formas diferentes por cada convidado, sobre o que, afinal, deveria estar no centro do desenvolvimento.
A edição também apontou caminhos para que Minas Gerais use o festival como instrumento de conexão entre economias distintas em torno de um objetivo comum: transformar tecnologia em desenvolvimento.
Texto produzido com base nas reportagens de Leonardo Morais e nas entrevistas conduzidas por Sílvia Castro para o podcast Na Boa, parceria do Diário do Comércio, disponíveis no canal do Diário do Comércio MG no YouTube (@diariodocomerciomg).
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