Greve nas escolas particulares de BH ganha apoio de famílias e chega ao TRT-MG
Na próxima segunda-feira (21), está prevista, no Tribunal Regional do Trabalho de Minas Gerais (TRT-MG), uma audiência de mediação entre o Sindicato das Escolas Particulares de Minas Gerais (Sinepe-MG) e o Sindicato dos Professores do Estado de Minas Gerais (Sinpro-MG) para discutir os rumos da greve da categoria. A paralisação por tempo indeterminado nas redes de ensino de Belo Horizonte e Região Metropolitana (RMBH) foi deflagrada na última quarta-feira (16).
Os professores voltaram a se reunir em assembleia nesta sexta-feira (18), mas decidiram continuar a greve por tempo indeterminado. A reunião contou com a participação de mais de 700 docentes, que seguem rejeitando a proposta patronal.
O principal impasse entre professores e escolas gira em torno da Convenção Coletiva de Trabalho (CCT), documento que define os direitos da classe, como salários e demais benefícios. Os docentes defendem a renovação, sem alterações, da atual CCT com reajuste salarial pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) de 3,77%. A categoria também rejeita a proposta patronal de dividir a CCT em duas: uma para a educação básica e outra para o ensino superior.
O Sinpro-MG afirma em seu site oficial que a separação enfraquece a capacidade de negociação coletiva e abre espaço para novos ataques a conquistas históricas, como as bolsas de estudos e a isonomia salarial.
Carta aberta amplia pressão sobre sindicatos
O impasse entre as partes ganhou novos desdobramentos nesta sexta-feira (18). Diversos colégios tradicionais de Belo Horizonte, entre eles Santo Agostinho, Bernoulli, Marista, Magnum, Franciscano Sagrada Família, Loyola, Nossa Senhora das Dores, Santa Dorotéia, São Paulo e Santo Tomás de Aquino, divulgaram carta aberta conjunta às famílias reconhecendo a legitimidade da mobilização docente e cobrando “condução mais firme e rápida” da negociação por parte de quem tem essa responsabilidade institucional.
Nem todas as escolas da capital mineira aderiram à paralisação: unidades como Loyola, Bernoulli e Santo Antônio, segundo relatos de famílias, mantiveram o funcionamento regular.
Diante das discordâncias entre as associações sindicais, famílias de diferentes escolas passaram a organizar abaixo-assinados próprios em apoio aos professores e cobrando agilidade dos sindicatos patronal e laboral. Em pelo menos uma comunidade escolar, discutiu-se a possibilidade de unificar os documentos separados de cada instituição em um único manifesto coletivo, reunindo famílias de várias escolas da Capital para dar mais peso à cobrança por uma solução rápida do impasse.
Pais apoiam professores por preocupação com a qualidade do ensino
Nem todo apoio às demandas dos professores vem de identificação direta com a categoria. É o caso de Magnum Lamounier, advogado, pai de aluno do Colégio Santo Agostinho Central. Ele conta que estudou em outro tradicional colégio de Belo Horizonte e viu, ao longo dos anos, a instituição perder qualidade à medida que passou a cortar custos com o corpo docente, especialmente na reposição de professores que se aposentavam. Segundo ele, esse histórico pesou na escolha da escola dos próprios filhos: o critério foi buscar a instituição de melhor qualidade da cidade, independentemente do valor da mensalidade.
“Meu apoio às demandas dos professores não vem de empatia com a luta deles, é um desejo egoísta: quero que meus filhos continuem em uma das melhores instituições da cidade”, resume o pai. Para ele, o receio é que o colégio dos filhos siga o mesmo caminho de outras tradicionais instituições que, em sua percepção, entraram na lógica de grandes redes de ensino e passaram a tratar a educação como uma commodity, reduzindo investimento nos professores.
O pai afirma não enxergar exagero na mobilização da categoria e diz estar disposto a conviver com os efeitos da paralisação em nome de sinalizar às escolas, e especialmente ao Sinepe-MG, que famílias como a dele não veem “com bons olhos a deterioração da carreira docente”. Ele reconhece, no entanto, a legitimidade de quem defende soluções mais rápidas para o impasse, mesmo que isso signifique o fim da greve sem que todas as demandas dos professores sejam atendidas: para ele, a dificuldade de conciliar rotina e cuidado com os filhos durante a paralisação é uma preocupação igualmente válida, ainda que não seja a que orienta sua própria posição.
Adriana Muls, Presidente e Diretora Editorial do Diário do Comércio, afirma acompanhar uma movimentação forte nos grupos de pais da escola da filha. “Famílias estão se mobilizando em apoio aos professores em greve, com abaixo-assinado que já extrapola a comunidade escolar”, relata. “Isso me fez pensar que temos aqui uma causa importante a defender, não no sentido de tomar partido na questão sindical, mas de ampliar a discussão para algo mais estrutural: a valorização do profissional da educação, o apagão de professores que já se desenha no horizonte próximo, e a saúde mental da categoria. É um tema que atravessa a sociedade, não só a categoria docente, e o movimento das famílias é um gancho pra defendermos essa pauta com responsabilidade.”
Luciana Montes, mãe de alunos de uma tradicional escola da Capital e editora executiva do Diário do Comércio, defende que a prioridade da negociação seja a preservação dos direitos da categoria. “Entendo perfeitamente a dificuldade que a paralisação causa nas rotinas das famílias, mas isso não me impede de reconhecer a legitimidade da luta dos professores. Valorizar quem ensina não pode ser um discurso esvaziado, repetido em datas comemorativas e esquecido na hora de negociar direitos e condições de trabalho”, afirma.
Para ela, a educação de qualidade buscada pelas famílias depende diretamente de professores bem remunerados e respeitados em sua carreira. “Não existe ensino de excelência sustentado sobre precarização docente”, diz. Luciana Montes defende que a prioridade agora seja garantir a preservação dos direitos históricos da categoria, e não apenas o fim da greve a qualquer custo. “Espero que Sinepe-MG e Sinpro-MG cheguem a um acordo justo o quanto antes, mas que esse acordo não signifique retrocesso para quem, todos os dias, forma nossos filhos.”
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Nova assembleia na terça-feira pode definir fim da greve
Escolas afetadas pela paralisação afirmam estar em diálogo com os professores e aguardando o desfecho da negociação para definir se as atividades retornam normalmente nos próximos dias. A retomada, no entanto, depende diretamente do resultado da mediação no TRT e de nova assembleia da categoria, que deve ocorrer somente na terça-feira (22), às 9h30.
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