Impasse trava a viabilização do projeto MG Grafeno

Empreendimento já recebeu aporte de R$ 30 milhões
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Impasse trava a viabilização do projeto MG Grafeno
Plentz Filho participou de audiência pública na ALMG sobre a paralisação do projeto em Minas | Crédito: Sarah Torres / ALMG

O projeto MG Grafeno, que tinha tudo para compor o futuro produtivo e econômico de Minas Gerais, está se tornando um imbróglio entre instituições de pesquisa e o governo do Estado. A Companhia de Desenvolvimento de Minas Gerais (Codemge) incluiu o ativo na lista de alienações, a fim de abrir mão de sua participação no empreendimento, e suspendeu o repasse de recursos que viabilizariam o avanço daquela que representa a primeira e única planta de produção da substância em Minas Gerais.

A Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e o Centro de Desenvolvimento da Tecnologia Nuclear (CDTN), que compõem o projeto ao lado da Codemge, questionam a suspensão do contrato de forma unilateral. E alertam para a necessidade da retomada imediata do projeto como única forma de reverter a curva de desvalorização do ativo.

O MG Grafeno chegou a receber investimentos da ordem de R$ 30 milhões nos últimos cinco anos, voltados ao desenvolvimento das primeiras fases do projeto. Ao todo seriam três. A primeira delas, chamada 1.0, contemplou o conhecimento de produção e caracterização dos produtos, bem como contratação e estruturação. A segunda teve início em 2019 e visava a certificar e consolidar o portfólio, por meio de testes e frequentes otimizações. A terceira e última seria, justamente, a industrialização, a ser executada pelo parceiro privado.

O impasse acerca da planta de grafeno foi tema de audiência pública ontem na Comissão de Educação, Ciência e Tecnologia da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), a partir de requerimento dos deputados Cássio Soares (PSD), Professor Cleiton (PV) e Sávio Souza Cruz (MDB). O objetivo dos parlamentares era avaliar os motivos que levaram à descontinuidade do projeto. Eles questionam a interrupção do investimento público no desenvolvimento da tecnologia e do processo de produção a partir da esfoliação química da grafite.

Participaram da audiência o pró-reitor de Pesquisa da UFMG, Fernando Reis; o coordenador do MG-Grafeno pela universidade, Flávio Orlando Plentz Filho; o diretor de Participações da Codemg, Eduardo Zimmer Sampaio; o ex-presidente da companhia, Marco Antônio Castelo Branco; e uma das coordenadoras pelo CDTN, Adelina Pinheiro Santos.

Cadeia de grafeno

O coordenador do MG-Grafeno pela universidade, Flávio Orlando Plentz Filho, externou a preocupação da comunidade científica com a interrupção da curva de geração de valor da cadeia a partir da suspensão dos recursos. Recordou o que foi desenvolvido nos últimos anos acerca do projeto e ressaltou o interesse do próprio mercado privado pelo empreendimento. Segundo ele, em junho do ano passado, mais de 40 empresas estavam em contato em busca de parcerias.

O coordenador também citou que já havia incertezas quanto ao repasse das parcelas previstas no acordo de parceria. Que a pedido da Codemge houve reestruturação dos aportes, mas que, ainda assim, “em 19 de janeiro, a companhia suspendeu de forma unilateral e abrupta os recursos”. “Enviamos um ofício informando que considerando a abertura da consulta pública a interessados em assumir a sua posição no contrato, nos parecia óbvio que o não pagamento da parcela devida irá desvalorizar os ativos gerados pelo projeto”, disse.

Conforme Plentz Filho, recentemente, com o apoio do subsecretário de Ciência Tecnologia e Inovação, Felipe Attiê, é que têm sido retomada as negociações em busca de uma solução. “Nosso grande inimigo agora é o tempo. A cada dia que se passa, mais valor é perdido e mais difícil fica restabelecer de forma integral o pioneirismo e a liderança de Minas Gerais nas tecnologias de grafeno”, explicou.

“Pontos pendentes”

O diretor de Participações da Codemge, Eduardo Zimmer Sampaio, por sua vez, argumentou que um trabalho de auditoria identificou uma série de pontos questionáveis no MG-Grafeno. Disse que boa parte dessas dúvidas foi esclarecida, mas que existem pontos pendentes que justificaram a suspensão do repasse de recursos para o projeto.

“Em momento algum a Codemge fez alguma comunicação solicitando a descontinuidade da execução. Mas não é viável seguir com a aplicação de recursos sem algumas comprovações. O projeto segue sendo interessante para o Estado e a tecnologia pode trazer frutos. Mas, enquanto gestores públicos, precisamos que sejam prestadas as contas corretas”, falou.

O pró-reitor de Pesquisa da UFMG, Fernando Reis, rebateu o argumento, alegando que o subsecretário de Ciência e Tecnologia e o diretor-presidente da Codemge, Thiago Toscano haviam declarado que o verdadeiro motivo da paralisação foi uma decisão estratégica de desinvestimento por parte do governo. E reforçou que a UFMG está empenhada numa solução rápida para o impasse, que apontaria para a assinatura de um distrato entre as partes.

No entanto, admitiu que esse acordo só será viável se a Codemge aceitar fazer o pagamento das parcelas atrasadas ao projeto, garantindo os investimentos necessários para a continuidade das ações. “A alta direção da Codemge e a subsecretaria da Secretaria de Desenvolvimento aceitaram nossa proposta de distrato amigável, reconhecendo que o processo se deu com absoluta lisura e que tudo que foi solicitado pela auditoria foi respondido. Ficou combinado que seria feito um distrato sem prejuízo para nenhuma das partes. É legítimo que saia, desde que se cumpra o contrato”, frisou.

A reportagem questionou a Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico (Sede) sobre os motivos que levaram à desistência do governo de Minas pelo projeto. A assessoria respondeu apenas que a decisão está alinhada com as políticas de gestão do atual governo e que é responsabilidade da Codemge responder demandas sobre grafeno.

O que é grafeno?

O grafeno é um material produzido a partir da grafite. É obtido pela extração de camadas superficiais do mineral, abundante em Minas Gerais. Tem alta resistência mecânica (elasticidade 5x maior e resistência à deformação 100x maior que o aço); alta mobilidade elétrica (150x maior que o silício); e alta condutividade elétrica (100x maior que o cobre), por exemplo.

Tem um mercado com crescimento anual projetado a uma taxa de crescimento de 43,2% entre 2021 e 2028, atingindo US$ 1,68 bilhão em 2028.

O grafeno pode ser aplicado em diversas áreas. As mais conhecidas são: construção civil, energia, telecomunicações, agricultura, medicina, eletrônica e aeroespacial.

Sobre o autor

Mara Bianchetti

Editora do Diário do Comércio. Graduada em Jornalismo pela Newton Paiva, com especialização em Jornalismo em Ambientes Digitais pelo UniBH. Premiada entre os jornalistas mais admirados da imprensa de Economia, Negócios e Finanças. LinkedIn: https://www.linkedin.com/in/marabianchetti/

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