Indústria do plástico de Minas teme perder competitividade com tarifa de 20%
A renovação por mais 12 meses da alíquota de 20% sobre a importação de seis tipos de resinas de polietileno (PE) e polipropileno (PP) preocupa a indústria de transformação de plásticos em Minas Gerais. Para o Sindicato da Indústria do Material Plástico do Estado de Minas Gerais (Simplast), a medida cria uma distorção ao tornar mais cara a entrada da matéria-prima utilizada pela indústria brasileira, enquanto produtos plásticos acabados podem ingressar no País com tarifas inferiores.
A decisão foi tomada pelo Comitê-Executivo de Gestão (Gecex) da Câmara de Comércio Exterior (Camex) há quase um mês, no dia 27 de agosto, e renovou por 12 meses a elevação tarifária para produtos do setor químico. Entre os itens contemplados estão seis tipos de resinas e polímeros que tiveram a alíquota elevada de 12,6% para 20%.po
Para a presidente do Simplast, Ivana Braga, o principal problema está justamente na chamada inversão tarifária. Segundo ela, a lógica tradicional seria aplicar uma tarifa menor à matéria-prima e uma maior ao produto acabado importado, de forma a proteger as indústrias de transformação industrial nacionais. “Como que uma matéria-prima entra mais cara do que entra um produto final? Isso é perda de competitividade”, afirma.
Segundo Ivana Braga, o Brasil conta atualmente com um único fornecedor nacional de resinas, que é a Braskem. Na avaliação dela, a proteção à produção de resina é pertinente, mas é preciso considerar os impactos sobre os demais elos da cadeia. “Não basta proteger a produção da resina em si. A gente precisa proteger toda uma cadeia. Você protegeu o produtor de resina daqui, mas penalizou toda a cadeia que transforma”, questiona.
A presidente do Simplast comenta ainda que a elevação tarifária vem sendo aplicada desde 2024 e que, no período, o preço de importação da matéria-prima teria acumulado alta de 63%.
Dessa forma, a preocupação dela não se restringe ao setor de embalagens. O plástico está presente em uma ampla variedade de cadeias produtivas, como a indústria alimentícia, farmacêutica, automobilística, de eletrodomésticos e eletrônicos. Sendo assim, o impacto ultrapassa as empresas diretamente envolvidas na transformação do plástico.
Conforme ela explica, a embalagem pode representar cerca de 14% do custo de determinados produtos e, após os repasses ao longo da cadeia, chegar a representar impacto de aproximadamente 9,5% no preço final.
É o caso da indústria do sorvete, em que os representantes pediram ao Simplast que elaborasse um comunicado aos supermercados explicando os motivos do aumento do preço dos sorvetes. “Os representantes da indústria do sorvete, por exemplo, me pediram para fazer uma nota, para eles justificarem aos supermercados o porquê que o sorvete subiu tanto”, exemplifica.
Sendo assim, o Simplast defende que a política tarifária deveria considerar os efeitos sobre toda a cadeia de transformação, e não apenas sobre a produção nacional de resinas. “Essa conta vai acabar chegando no carrinho do supermercado”, afirma.
Para ela, diante da perda de competitividade já enfrentada pela indústria brasileira, o aumento do custo dos insumos pode ampliar ainda mais a pressão sobre as empresas. “O produto acabado do Brasil já não é competitivo pelo Custo Brasil e por uma série de questões do cenário econômico. Não é isoladamente essa tarifa, mas isso vem penalizando demais”, diz.
As contribuições do setor estão sendo encaminhadas nacionalmente por meio da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim). Porém, Ivana Braga ressalta que, embora os representantes do setor participem do processo de discussão, as reuniões da Câmara de Comércio Exterior (Camex) são fechadas.
Maximu’s acompanha impacto sobre custos
A preocupação apontada pelo Simplast também aparece em empresas como a Maximu’s Embalagens Especiais, sediada em Ribeirão Pires, no ABC Paulista, e com filial em Varginha, no Sul de Minas, que atuam diretamente na transformação das resinas em produtos.
Especializada no desenvolvimento de embalagens para proteção, acolchoamento e movimentação de produtos, a empresa utiliza materiais como polietileno e polipropileno em diferentes soluções. Para o diretor Erick Souza, a previsibilidade das condições de acesso às matérias-primas é fundamental para o planejamento empresarial.
“A indústria de transformação precisa de previsibilidade para planejar produção, investimentos e formação de preços. Qualquer alteração relevante nas condições de acesso às matérias-primas pode gerar reflexos ao longo da cadeia, principalmente em um cenário em que as empresas já trabalham constantemente para equilibrar custos e competitividade”, afirma.
Para Souza, o debate sobre a política comercial também precisa considerar os diferentes elos da cadeia do plástico. “Políticas voltadas ao setor precisam levar em conta não apenas a produção de resinas, mas também os impactos sobre transformadores, fabricantes de produtos, soluções plásticas e os demais segmentos que dependem desses materiais”, diz.
Reciclagem ganha espaço
Diante da pressão sobre os custos da matéria-prima virgem, a ampliação do uso de materiais reciclados passa a ser uma alternativa para as empresas transformadoras. O movimento ganha relevância em um momento em que o País avança na implantação de políticas de logística reversa para embalagens plásticas.
O Decreto nº 12.688/2025 instituiu o sistema de logística reversa de embalagens de plástico e estabeleceu objetivos relacionados à recuperação de materiais, à reciclagem, ao uso de conteúdo reciclado e à economia circular.
A Maximu’s afirma já ter direcionado 952,5 toneladas de sobras geradas na fábrica para reutilização desde a implantação, há cinco anos, de uma extrusora recicladora. Segundo a empresa, os resíduos retornam como matéria-prima para a produção de plástico bolha.
“Iniciamos um projeto de reciclagem avançada com equipamentos de ponta que transformam resíduos plásticos em matéria-prima circular para novos produtos. Isso significa menos resíduos no meio ambiente, menor dependência de matéria-prima virgem e ganhos econômicos que fortalecem nossa autonomia produtiva”, explica Erick Souza.
Para o diretor, a busca por maior competitividade precisa caminhar junto com o fortalecimento da indústria nacional e com a integração entre os diferentes elos da cadeia. “O fortalecimento da indústria nacional é importante, mas também precisamos garantir condições para que as empresas transformadoras mantenham sua competitividade”, afirma.
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